Chega um momento em que temos que saber que é a hora de
parar.
12 de abril
Hoje deu tudo errado. Ou quase tudo. Isso me fez pensar
muito para tomar a decisão de encerrar essa etapa de cicloturista. A ideia era
fazer o Caminho de Santiago Português ao contrário, mas quando o Universo
começa a dizer que é para parar, é melhor parar. E eu parei.
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| Noia |
Saí de Noia meio-dia.
Cidadezinha muito movimentada e quase não há espaço para bicicletas. As pessoas
olham de cara feia quando veem um sujeito com uma carga atrás da bike querendo
passar. Amarrei a carga e o elástico que prendia os alforjes arrebentou. Fui na
loja de bicicletas comprar um. Não tinha. Conversei um pouco com o dono, que já
fez o Caminho desde Roncesvalles (se livrou da subida dos Pirinéus). Ele falou
para eu ir pela carretera nacional, pois era mais perto e melhor de andar.
Nestes quase 20 dias de estrada, já vi que ir pela nacional é ruim. Há muitos
caminhões, muito barulho, muito movimento, a velocidade em algumas é 110 e nem
sempre há a pista paralela para veículos mais lentos como tratores, bicicletas
ou peregrinos. Peguei a indicação errada e segui pra saída da cidade que levava
para o litoral. Pedi informação a um sujeito que estava numa das pontes e ele
me disse para voltar e ir no sentido Santiago. Em um momento haveria placa para
Padrón. Ele também disse para eu ir pela nacional.
Achei uma loja de 1,99 (que aqui é de 0,60€, ou 100 pesetas,
como eram chamadas essas lojas de orientais) e comprei os elásticos para
prender a carga. Pergunte por uma "goma para fixar carga". Segui a
rua que emendava com uma estradinha para sair da cidade pela montanha. Cheguei a uma bifurcação que levava para a nacional ou pela estrada das montanhas. O meu
mapa indicava a estrada pelas montanhas. A nacional me levaria para a outra
ponta da mesma estrada, na cidade de Ruís, a 11 km de Padrón. Decidi ir
pelas montanhas.
Em 2 horas de pedal, devem ter passado por mim uns 10 carros
apenas. É uma estrada sem acostamento, que passa por vários pueblos, cortando
as montanhas por entre bosques, para sair do outro lado, no vale onde fica Padrón, já no Caminho
Português. Em determinado momento, estava a apenas 24 km de Santiago. Deu
vontade de voltar.
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| Entrocamento de rodovias |
Foram 10 km
de subidas cansativas. No alto, cheguei a Vilacova, um pueblo de uns 10 habitantes.
O vento era desesperador, frio, mas eu estava suado, com calor. Parei em um bar, o Vila da Cova. Quem me atendeu foi uma senhora gordinha e
baixinha, com cara daquelas tias de interior que nos enchem de guloseimas
quando vamos visitá-las. Ela me serviu um pintxo de pulpo a feira. Estava
delicioso. Pintxo é algo como tira-gosto no Brasil, só que numa porção
individual. E pulpo a feira é polvo cozido com azeite e batatas, com um pouco
de pimenta. Servem quando se para beber em um bar. É grátis. Mas para mim, que
geralmente pede coca-cola ou água com gás, servem o pintxo do mesmo jeito.
Sempre dizem que é como podem ajudar. A bicicleta impressiona um pouco nessa
hora. E a Galícia tem um pouco da nossa hospitalidade. A tia me disse que ainda teria mais 6 km de sobe e desce e depois uma
bajada até Extramundi, o subúrbio de Padrón.
Segui viagem. Até ali, estava tudo certo, exceto por eu ter
esquecido a toalha ultra-absorvente no hotel e ter perdido a capa dos óculos.
Mau sinal. A toalha estava sendo útil para o suor desses dias de muito sol. O
outro detalhe da viagem foi algo que ignorei quanto às montanhas. Se tiver um
catavento (ou parque eólico, para os mais engajados), tem vento. E se tem
vento, a coisa complica. Imagine-se sentado numa bike de 12 quilos com mais uns
25 de carga parado numa descida, sem por os pés no chão. É isso. Em alguns
trechos, tinha que pedalar pra descer, pois o vento não deixava. Segui com
vento contra até descer para Padrón. Resultado: 28 km rodados em 3 horas e
meia. Até que foi bom, graças às descidas.
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| Ciclista de Extramundi |
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| Igreja de Santiago, Padrón |
Parei antes da ponte e fiquei pensando. Olhei as árvores, a
posição dos cataventos e vi que não havia tanto vento. A ponte era em subida. Olhei para a
estrada, esperei passar um caminhão passar e fui. Quase no final, veio outro,
mas não era baú e os estrago não foi grande. Cheguei do outro lado pensando se
haveria mais alguma. Pelo mapa não, pois iria começar a descer. Duas pontes em
um dia me fizeram pensar muito. Parece coisa de gente medrosa, mas eu sei
diferenciar bem o medo da precaução. Pepê tinha anos de asa delta, sendo
campeão mundial e sabia tudo de vôo no Rio de Janeiro. Mas foi o vento que o
jogou contra a Pedra da Gávea nos anos 90. Medo na verdade é um lembrete do seu cérebro de que há limites para serem estabelecidos e mantidos ou superados. Mas tudo depende da situação, do benefício e do prazer. Pensei em tudo isso e continuei
pedalando.
Passei por Caldas de Reis, onde pensei em ficar. Ali tinha hotel.
O próximo, só em Pontevedra, a 23
km dali. Já eram 6 da tarde e o sol a pino. Resolvi
continuar. Depois de quase meia hora, percebi que a bike estava rebolando.
Olhei o pneu traseiro e estava mais baixo que o normal. Parei e enchi.
Continuei. Abaixou de novo. Parei em um bar, bebi uma coca, comi um pintxo e
fui trocar a câmara. quando tirei a roda, vi que o eixo estava totalmente
empenado. Isso justificava os barulhos que ouvia vindo da roda e ela parecer
estar empenada. E o pneu não enchia. Montei tudo e perguntei por um posto.
Havia um a 1 km.
Andei até lá. Enchi na pressão. Ficou bom. Fui ao banheiro lavar as mãos e bebi
uma água. Quando voltei, estava baixo de novo. Pensei que teria que pegar um
táxi até Pontevedra. Já eram quase 8 da noite e logo ficaria sem a luz do dia.
Andar até lá se mostrava inviável, pois eram 13 km e levaria pelo menos 2h e meia. Então, andei até o
pueblo seguinte, parei num bar e perguntei por táxi. A senhora disse que
havia dois na praça da cidade. Também havia ali, em cima do bar, uma hospedaje.
Eram quartos sem banheiro e, a julgar pela aparência do lugar, deveria ser um
lixo. Continuei andando. E nada de táxi. Voltei. O jeito seria me hospedar no
pulgão. Antes, entrei no bar e perguntei para o dono se havia táxi ali. Ele disse
que àquela hora não, mas que poderia ligar para um deles. Ligou. 13 euros. Pedi
para vir.
Fui pra rua, desmontei a bike, coloquei na mala-bike que
comprei em Santiago. O
táxi chegou. Era uma mulher. Beatriz. Ajudou a colocar tudo no carro, disse
para eu ter calma (eu estava com pressa, queria um banho, roupas limpas e comida).
Disse que na pressa tudo dá errado. Fomos conversando no carro e em pouco mais
de 10 minutos, estava na porta do hotel. Falei com ela que aquele trajeto eu
teria feito em pelo menos uma hora, com as subidas da estrada. Rimos um pouco
das besteiras que falamos e da colega que ligou no bluetooth do carro. Beatriz
tem 2 filhos e dirige o táxi com o marido. Serve a alguns peregrinos. Deixou um
cartão e me desejou boa viagem.
Depois desse aranzé todo, fiquei pensando se devo levar a
Amelia pro Brasil ou deixá-la aqui. Daqui para frente, serei um turista comum,
que pega táxi, ônibus e metrô. Já tenho uma bolsa grande com minhas coisas e o
resto que envolve a bike (alforjes, ferramentas e peças). Carregar a mala-bike
é mais um trabalho que consome espaço e energia. Vou na loja de bikes e ver se
vendo a Amelia. Ou vou esperar algo acontecer que me faça dá-la para alguém. Ou
sei lá o quê.
A graça desse tipo de viagem é que nunca se sabe o que vai
acontecer. E fazendo um balanço, foi tudo bem. Nada de ruim aconteceu. Tudo se
encaixou no lugar. Se não encaixou foi porque eu dei um jeito de dar errado.
| Praza Peregrina, Pontevedra |
Já consegui minha Compostelana, minha Costa da Morte e tenho
toda a emoção e lembranças de um Caminho de Santiago bem sucedido. Colocar
outro caminho, ao contrário, numa viagem de turismo é querer muito, não? Então,
está encerrada minha temporada de cicloturista nestas férias. Quem sabe não dê umas pedaladas ainda em Barcelona ou na
Côte d´Azur ou ainda numa Vélib' em Paris? Está no sangue.
Aos que são entusiastas do Caminho de Santiago e quiserem tirar dúvidas, podem perguntar nos comentários. Gosto de falar do assunto. Aos que me seguiram até aqui e deram força em todos os momentos, agradeço. Foi muito bom ler mensagens de ajuda nesses dias. Aos que sonham, façam! A vida vai-se em poucos minutos. É mais emocionante vê-la passar no alto dos Pirinéus ou numa praia da Espanha.




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