18.9.12

Noia - Padrón - Pontevedra - Final



Chega um momento em que temos que saber que é a hora de parar.

12 de abril

Hoje deu tudo errado. Ou quase tudo. Isso me fez pensar muito para tomar a decisão de encerrar essa etapa de cicloturista. A ideia era fazer o Caminho de Santiago Português ao contrário, mas quando o Universo começa a dizer que é para parar, é melhor parar. E eu parei.

Noia
Saí de Noia meio-dia. Cidadezinha muito movimentada e quase não há espaço para bicicletas. As pessoas olham de cara feia quando veem um sujeito com uma carga atrás da bike querendo passar. Amarrei a carga e o elástico que prendia os alforjes arrebentou. Fui na loja de bicicletas comprar um. Não tinha. Conversei um pouco com o dono, que já fez o Caminho desde Roncesvalles (se livrou da subida dos Pirinéus). Ele falou para eu ir pela carretera nacional, pois era mais perto e melhor de andar. Nestes quase 20 dias de estrada, já vi que ir pela nacional é ruim. Há muitos caminhões, muito barulho, muito movimento, a velocidade em algumas é 110 e nem sempre há a pista paralela para veículos mais lentos como tratores, bicicletas ou peregrinos. Peguei a indicação errada e segui pra saída da cidade que levava para o litoral. Pedi informação a um sujeito que estava numa das pontes e ele me disse para voltar e ir no sentido Santiago. Em um momento haveria placa para Padrón. Ele também disse para eu ir pela nacional.

Achei uma loja de 1,99 (que aqui é de 0,60€, ou 100 pesetas, como eram chamadas essas lojas de orientais) e comprei os elásticos para prender a carga. Pergunte por uma "goma para fixar carga". Segui a rua que emendava com uma estradinha para sair da cidade pela montanha. Cheguei a uma bifurcação que levava para a nacional ou pela estrada das montanhas. O meu mapa indicava a estrada pelas montanhas. A nacional me levaria para a outra ponta da mesma estrada, na cidade de Ruís, a 11 km de Padrón. Decidi ir pelas montanhas.

Entrocamento de rodovias
Em 2 horas de pedal, devem ter passado por mim uns 10 carros apenas. É uma estrada sem acostamento, que passa por vários pueblos, cortando as montanhas por entre bosques, para sair do outro lado, no vale onde fica Padrón, já no Caminho Português. Em determinado momento, estava a apenas 24 km de Santiago. Deu vontade de voltar.

Foram 10 km de subidas cansativas. No alto, cheguei a Vilacova, um pueblo de uns 10 habitantes. O vento era desesperador, frio, mas eu estava suado, com calor. Parei em um bar, o Vila da Cova. Quem me atendeu foi uma senhora gordinha e baixinha, com cara daquelas tias de interior que nos enchem de guloseimas quando vamos visitá-las. Ela me serviu um pintxo de pulpo a feira. Estava delicioso. Pintxo é algo como tira-gosto no Brasil, só que numa porção individual. E pulpo a feira é polvo cozido com azeite e batatas, com um pouco de pimenta. Servem quando se para beber em um bar. É grátis. Mas para mim, que geralmente pede coca-cola ou água com gás, servem o pintxo do mesmo jeito. Sempre dizem que é como podem ajudar. A bicicleta impressiona um pouco nessa hora. E a Galícia tem um pouco da nossa hospitalidade. A tia me disse que ainda teria mais 6 km de sobe e desce e depois uma bajada até Extramundi, o subúrbio de Padrón.

Segui viagem. Até ali, estava tudo certo, exceto por eu ter esquecido a toalha ultra-absorvente no hotel e ter perdido a capa dos óculos. Mau sinal. A toalha estava sendo útil para o suor desses dias de muito sol. O outro detalhe da viagem foi algo que ignorei quanto às montanhas. Se tiver um catavento (ou parque eólico, para os mais engajados), tem vento. E se tem vento, a coisa complica. Imagine-se sentado numa bike de 12 quilos com mais uns 25 de carga parado numa descida, sem por os pés no chão. É isso. Em alguns trechos, tinha que pedalar pra descer, pois o vento não deixava. Segui com vento contra até descer para Padrón. Resultado: 28 km rodados em 3 horas e meia. Até que foi bom, graças às descidas.

Ciclista de Extramundi
Entrei no Caminho Português. Lá estavam as setas amarelas, vieiras e placas do Caminho novamente. Tudo indica Santiago. E eu indo ao contrário. Padrón é uma cidade bonita, com algumas coisas para se ver. Foi lá que os discípulos de Tiago chegaram numa barca que subiu o rio Sar. Dali levaram os restos do apóstolo até o monte Libradon, onde hoje é a cidade de Santiago. Parei na Paseo del Espolon e sentei para comer uma tortilla. Não estava grandes coisas, mas estava boa. Descansei um pouco, andei por Padrón, fotografei alguns detalhes e a máquina foi pro chão. A correia da alça soltou e caiu do meu ombro. Não quebrou, mas já era um mau agouro, pois segundos antes, a bike caiu no chão depois de eu ter levado mais uma pancada do pedal enquanto a empurrava pelas ruas de pedestres. A canela latejava e os pensamentos vibravam. Antes de sair da cidade, em um cruzamento, vi que a bike não estava parando como deveria. Lembrei das pastilhas de freio. A descida da serra acabou com o resto que existia. Então, parei numa calçada e em 10 minutos troquei as 4 sapatas.  Pronto, agora Amélia parava só com o pensamento.
Igreja de Santiago, Padrón
Saí de Padrón pensando em ficar. Tomei a carretera nacional e segui o Caminho ao contrário, indo mesmo pelo asfalto. Achei muito complicado fazer o Caminho inverso já que as setas estão sempre antes dos caminhos e não depois. Para me perder no mato seria fácil. E foi ruim, muito ruim. A única vantagem é que peguei o vento de popa, o que ajudava em muitos pontos. Rodei alguns quilômetros e aí veio a maldição da ponte. Em um post anterior, falei do pânico que tenho em pontes e viadutos. Hoje foram dois. O mapa indicava que havia uma passagem sobre a Autovia, a carretera direta, onde não se pode transitar com bicicletas. A nacional passa por cima e a Autovia, em um vale. Isso significa um viaduto bem longo, muito alto, num corredor de vento. Entrei no viaduto, que era em curva à esquerda, descendo e tinha quase 600 metros. Logo senti o vento, que estava a favor, da esquerda para direita, balançar tudo. E aí veio um caminhão. Ouvi o som e só deu tempo de descer do banco e colocar os pés no chão. O vento que já estava ali mais o deslocamento de ar que o caminhão produziu quando passou a uns 100 por hora balançaram tudo. Tive que fazer muita força para me equilibrar com a bike no chão. A roda da frente chegou a levantar. Pensei que, se estivesse só com a bike, sem carga, o vento teria me levado. Desci da bike e fui andando até a outra ponta da ponte. Veio outro caminhão. A mesma sensação. Imaginei uma bicicleta, alforjes e eu voando para o pasto uns 100 metros abaixo e as vacas vendo algo que nunca haviam visto na vida: um corvo gigante com uma coisa de rodas vindo em direção a elas. Depois que passei o viaduto, fiquei apreensivo e pensando muito se deveria continuar com isso. Deixei os sinais virem. E vieram. Agora na forma de uma ponte, em curva, a uns 80 metros do chão, com um corregozinho que chamam de rio lá em baixo.

Parei antes da ponte e fiquei pensando. Olhei as árvores, a posição dos cataventos e vi que não havia tanto vento. A ponte era em subida. Olhei para a estrada, esperei passar um caminhão passar e fui. Quase no final, veio outro, mas não era baú e os estrago não foi grande. Cheguei do outro lado pensando se haveria mais alguma. Pelo mapa não, pois iria começar a descer. Duas pontes em um dia me fizeram pensar muito. Parece coisa de gente medrosa, mas eu sei diferenciar bem o medo da precaução. Pepê tinha anos de asa delta, sendo campeão mundial e sabia tudo de vôo no Rio de Janeiro. Mas foi o vento que o jogou contra a Pedra da Gávea nos anos 90. Medo na verdade é um lembrete do seu cérebro de que há limites para serem estabelecidos e mantidos ou superados. Mas tudo depende da situação, do benefício e do prazer. Pensei em tudo isso e continuei pedalando.

Passei por Caldas de Reis, onde pensei em ficar. Ali tinha hotel. O próximo, só em Pontevedra, a 23 km dali. Já eram 6 da tarde e o sol a pino. Resolvi continuar. Depois de quase meia hora, percebi que a bike estava rebolando. Olhei o pneu traseiro e estava mais baixo que o normal. Parei e enchi. Continuei. Abaixou de novo. Parei em um bar, bebi uma coca, comi um pintxo e fui trocar a câmara. quando tirei a roda, vi que o eixo estava totalmente empenado. Isso justificava os barulhos que ouvia vindo da roda e ela parecer estar empenada. E o pneu não enchia. Montei tudo e perguntei por um posto. Havia um a 1 km. Andei até lá. Enchi na pressão. Ficou bom. Fui ao banheiro lavar as mãos e bebi uma água. Quando voltei, estava baixo de novo. Pensei que teria que pegar um táxi até Pontevedra. Já eram quase 8 da noite e logo ficaria sem a luz do dia. Andar até lá se mostrava inviável, pois eram 13 km e levaria pelo menos 2h e meia. Então, andei até o pueblo seguinte, parei num bar e perguntei por táxi. A senhora disse que havia dois na praça da cidade. Também havia ali, em cima do bar, uma hospedaje. Eram quartos sem banheiro e, a julgar pela aparência do lugar, deveria ser um lixo. Continuei andando. E nada de táxi. Voltei. O jeito seria me hospedar no pulgão. Antes, entrei no bar e perguntei para o dono se havia táxi ali. Ele disse que àquela hora não, mas que poderia ligar para um deles. Ligou. 13 euros. Pedi para vir.

Fui pra rua, desmontei a bike, coloquei na mala-bike que comprei em Santiago. O táxi chegou. Era uma mulher. Beatriz. Ajudou a colocar tudo no carro, disse para eu ter calma (eu estava com pressa, queria um banho, roupas limpas e comida). Disse que na pressa tudo dá errado. Fomos conversando no carro e em pouco mais de 10 minutos, estava na porta do hotel. Falei com ela que aquele trajeto eu teria feito em pelo menos uma hora, com as subidas da estrada. Rimos um pouco das besteiras que falamos e da colega que ligou no bluetooth do carro. Beatriz tem 2 filhos e dirige o táxi com o marido. Serve a alguns peregrinos. Deixou um cartão e me desejou boa viagem.

Depois desse aranzé todo, fiquei pensando se devo levar a Amelia pro Brasil ou deixá-la aqui. Daqui para frente, serei um turista comum, que pega táxi, ônibus e metrô. Já tenho uma bolsa grande com minhas coisas e o resto que envolve a bike (alforjes, ferramentas e peças). Carregar a mala-bike é mais um trabalho que consome espaço e energia. Vou na loja de bikes e ver se vendo a Amelia. Ou vou esperar algo acontecer que me faça dá-la para alguém. Ou sei lá o quê.

Praza Peregrina, Pontevedra
A graça desse tipo de viagem é que nunca se sabe o que vai acontecer. E fazendo um balanço, foi tudo bem. Nada de ruim aconteceu. Tudo se encaixou no lugar. Se não encaixou foi porque eu dei um jeito de dar errado.

Já consegui minha Compostelana, minha Costa da Morte e tenho toda a emoção e lembranças de um Caminho de Santiago bem sucedido. Colocar outro caminho, ao contrário, numa viagem de turismo é querer muito, não? Então, está encerrada minha temporada de cicloturista nestas férias. Quem sabe não dê umas pedaladas ainda em Barcelona ou na Côte d´Azur ou ainda numa Vélib' em Paris? Está no sangue.
Aos que são entusiastas do Caminho de Santiago e quiserem tirar dúvidas, podem perguntar nos comentários. Gosto de falar do assunto. Aos que me seguiram até aqui e deram força em todos os momentos, agradeço. Foi muito bom ler mensagens de ajuda nesses dias. Aos que sonham, façam! A vida vai-se em poucos minutos. É mais emocionante vê-la passar no alto dos Pirinéus ou numa praia da Espanha.

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