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| Finalmente, o km zero, no Cabo de Fisterra |
Em galego, diz-se Fisterra o que um dia já foi Finis Terrae,
ou fim do mundo. Na Idade Média, acreditava-se que o mundo terminava em
determinado lugar e, a partir dali, tudo iria cair num abismo repleto de
monstros e feras. O peregrino que vinha de várias partes da Europa, depois
de chegar a Santiago, ia conhecer o fim do mundo. Hoje fui conhecer o "fin
del mundo".
Do centro da cidade de Finisterra ao Faro, ou Cabo de Fisterra, são 3 km de caminhada por uma
estrada asfaltada, beirando a encosta sobre o mar da baía de Cee e o Oceano
Atlântico. No fim dessa estrada, chega-se ao farol de Finisterre (o faro).
Atrás do farol, que fica a uns 100 metros de altura sobre as pedras, é
possível descer quase até o mar e avistar as ondas fortes que batem muito nas pedras.
Em alguns pontos, o mar é forte e por isso, o local recebeu o nome de Costa da
Morte, devido aos naufrágios de pescadores que bateram nas pedras ou tiveram
seus barcos afundados.
Passei do farol, desci um pouco nas pedras e fiz meu pequeno
ritual de renovação, jogando ao mar uma das vieiras que trouxe. Essa vieira foi
comprada em Santiago, em 1998, por uma amiga do trabalho que sabia do meu
entusiasmo pelo Caminho. Então, resolvi trazê-la de volta e devolver ao mar,
ficando apenas com a que ganhei na França, no início do Caminho. Também queimei
uma camisa que usei na peregrinação e que havia trazido do Brasil. Na verdade,
deixei-a sobre uma fogueira que estava quase apagando e ela recomeçou a
queimar. Era quase impossível acender algo ali com o vento gelado que soprava
forte. Na hora, pensei em tantas situações, sentimentos e lembranças que deixei
antes de vir pra cá. Alguns deveriam ficar ali, naquele fogo e sumir na fumaça,
com o vento. Outros, eu poderia cultivar e levar pra sempre comigo.
Voltei ao farol, subi na cafeteria e pedi um café. Olhei uns livros e objetos à venda. Só um livro me interessou, mas achei caro. Observei a atendente. Os seus olhos lembravam alguém. Não só os olhos, mas o olhar, o modo de se portar. Na hora, enquanto bebia o café, pensei que achava que tinha deixado sentimentos no fogo, lá nas pedras, mas aqueles olhos estavam ali como nos poemas de Neruda que falavam dos olhos de Matilda. Tratei de andar.
Resolvi voltar pelo Camino de San Guillerme, que vem por
cima da montanha. É um caminho de 2
km que vai por cima, quase paralelo ao caminho que
peguei para chegar ao farol, mas que dá vista para os dois lados do Cabo. É uma
visão espetacular. Fiz uma panorâmica do lugar pois queria que vocês tivessem
ideia do que eu via e que me emocionava.
O tempo estava nublado, mas imagino
que com dia claro seja possível avistar o Cabo Touriñan, o ponto mais ocidental
da Espanha. Subi imaginando que estaria ali sozinho, no meio do nada, que
poderia ficar nu e andar livremente sem que ninguém me importunasse. Então me
lembrei que sobre minha cabeça giravam 10 mil satélites e que a imagem de um
peregrino nu estaria na internet no dia seguinte.
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| Camino de San Guillerme, com Finisterre à direita, Atlântico à esquerda |
Na primeira curva, avisto um cachorro grande. Depois, um
carro e uma mulher. Ela estava limpando o interior do carro, com escova e aspirador. Mas logo ali? Na hora pensei
que depois que inventaram o motor a combustão e a transmissão de dados, é
impossível se estar só no mundo. Dei a volta na montanha e saí numa pequena
vila, um bairro de Finisterre. Fiquei um pouco apreensivo. Por ser área de
muitas flores e vegetação densa, ouvi muitos zumbidos de abelhas. E, quando
entrei na vila de casas de pedra, fiquei imaginando se um cachorro viria me
receber de mau humor. Mas só vi mesmo dois tirando sua siesta, me ignorando por
completo.
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| Duas horreas |
Aqui na Galícia há algo interessante de ser ver. Na primeira
vez que vi, fiquei intrigado querendo saber o que era. São as horreas, casas
para guardar madeira de lenha e mantimentos, como na foto. Elas geralmente são
feitas de pedra ou madeira, com aberturas laterais e protegidas do vento, da
chuva, do frio e da umidade. Ficam suspensas, às vezes a mais de 2 metros do solo. É algo
bonito de se ver. Há algumas pequenas, pouco maiores que um rack de TV. E há
outras quase do tamanho de uma casa pequena, adornadas com pequenas estátuas,
gárgulas, leões, brasões e outros símbolos. Isso vem dos romanos e os galegos
as mantém até hoje.
Diz o atendente do hotel que amanhã terá sol. Espero. Quero
ir à praia. Como dizem os galegos dali, "existem moitas cousas para se fazerem
por acá".



Demais!
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