14.9.12

Diário do Caminho de Santiago 2011 - Finisterre

Finisterre - 9 de abril

Finalmente, o km zero, no Cabo de Fisterra

Em galego, diz-se Fisterra o que um dia já foi Finis Terrae, ou fim do mundo. Na Idade Média, acreditava-se que o mundo terminava em determinado lugar e, a partir dali, tudo iria cair num abismo repleto de monstros e feras. O peregrino que vinha de várias partes da Europa, depois de chegar a Santiago, ia conhecer o fim do mundo. Hoje fui conhecer o "fin del mundo".

Do centro da cidade de Finisterra ao Faro, ou Cabo de Fisterra, são 3 km de caminhada por uma estrada asfaltada, beirando a encosta sobre o mar da baía de Cee e o Oceano Atlântico. No fim dessa estrada, chega-se ao farol de Finisterre (o faro). Atrás do farol, que fica a uns 100 metros de altura sobre as pedras, é possível descer quase até o mar e avistar as ondas fortes que batem muito nas pedras. Em alguns pontos, o mar é forte e por isso, o local recebeu o nome de Costa da Morte, devido aos naufrágios de pescadores que bateram nas pedras ou tiveram seus barcos afundados.

Passei do farol, desci um pouco nas pedras e fiz meu pequeno ritual de renovação, jogando ao mar uma das vieiras que trouxe. Essa vieira foi comprada em Santiago, em 1998, por uma amiga do trabalho que sabia do meu entusiasmo pelo Caminho. Então, resolvi trazê-la de volta e devolver ao mar, ficando apenas com a que ganhei na França, no início do Caminho. Também queimei uma camisa que usei na peregrinação e que havia trazido do Brasil. Na verdade, deixei-a sobre uma fogueira que estava quase apagando e ela recomeçou a queimar. Era quase impossível acender algo ali com o vento gelado que soprava forte. Na hora, pensei em tantas situações, sentimentos e lembranças que deixei antes de vir pra cá. Alguns deveriam ficar ali, naquele fogo e sumir na fumaça, com o vento. Outros, eu poderia cultivar e levar pra sempre comigo.

Voltei ao farol, subi na cafeteria e pedi um café. Olhei uns livros e objetos à venda. Só um livro me interessou, mas achei caro. Observei a atendente. Os seus olhos lembravam alguém. Não só os olhos, mas o olhar, o modo de se portar. Na hora, enquanto bebia o café, pensei que achava que tinha deixado sentimentos no fogo, lá nas pedras, mas aqueles olhos estavam ali como nos poemas de Neruda que falavam dos olhos de Matilda. Tratei de andar.

Resolvi voltar pelo Camino de San Guillerme, que vem por cima da montanha. É um caminho de 2 km que vai por cima, quase paralelo ao caminho que peguei para chegar ao farol, mas que dá vista para os dois lados do Cabo. É uma visão espetacular. Fiz uma panorâmica do lugar pois queria que vocês tivessem ideia do que eu via e que me emocionava.

Camino de San Guillerme, com Finisterre à direita, Atlântico à esquerda
O tempo estava nublado, mas imagino que com dia claro seja possível avistar o Cabo Touriñan, o ponto mais ocidental da Espanha. Subi imaginando que estaria ali sozinho, no meio do nada, que poderia ficar nu e andar livremente sem que ninguém me importunasse. Então me lembrei que sobre minha cabeça giravam 10 mil satélites e que a imagem de um peregrino nu estaria na internet no dia seguinte.

Na primeira curva, avisto um cachorro grande. Depois, um carro e uma mulher. Ela estava limpando o interior do carro, com escova e aspirador. Mas logo ali? Na hora pensei que depois que inventaram o motor a combustão e a transmissão de dados, é impossível se estar só no mundo. Dei a volta na montanha e saí numa pequena vila, um bairro de Finisterre. Fiquei um pouco apreensivo. Por ser área de muitas flores e vegetação densa, ouvi muitos zumbidos de abelhas. E, quando entrei na vila de casas de pedra, fiquei imaginando se um cachorro viria me receber de mau humor. Mas só vi mesmo dois tirando sua siesta, me ignorando por completo.

Duas horreas
Aqui na Galícia há algo interessante de ser ver. Na primeira vez que vi, fiquei intrigado querendo saber o que era. São as horreas, casas para guardar madeira de lenha e mantimentos, como na foto. Elas geralmente são feitas de pedra ou madeira, com aberturas laterais e protegidas do vento, da chuva, do frio e da umidade. Ficam suspensas, às vezes a mais de 2 metros do solo. É algo bonito de se ver. Há algumas pequenas, pouco maiores que um rack de TV. E há outras quase do tamanho de uma casa pequena, adornadas com pequenas estátuas, gárgulas, leões, brasões e outros símbolos. Isso vem dos romanos e os galegos as mantém até hoje.

Diz o atendente do hotel que amanhã terá sol. Espero. Quero ir à praia. Como dizem os galegos dali, "existem moitas cousas para se fazerem por acá".
 

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