12.9.12

Diário do Caminho de Santiago 2011 - 14

Santiago de Compostela - 7 de abril


Pelas laterais da Catedral de Santiago

Fiquei na casa de uma senhora que aluga quartos para peregrinos, dona Pastora, católica fervorosa e ótima pessoa. Passei dois "bons ótimos" dias por lá.

Santiago é uma cidade fora do comum. É aquele tipo de cidade em que você pode comer em um restaurante libanês uma comida feita por um vietnamita ao lado de um alemão com uma australiana. Estamos na Galícia e o espanhol se aproxima mais do português de Portugal. É gostoso ouvir uma pessoa dizer que vai "buxcair outrasx cousasx" (como o carioca fala).

Há muito o que se ver, mas como estava meio sem tempo, muito cansado e sempre com sono, só pude ir na Catedral assistir à missa do peregrino (todos os dias, ao meio-dia - fiquei frustrado pois não teve o botafumeiro). Também fui ao Museo do Pobo Galego, no Mosteiro de San Domingo de Bonaval. É um local muito interessante para se visitar. Uma instalação muito grande e bem feita conta a história do povo galego, desde a simplicidade da Idade Média até os conceitos arraigados da sua cultura. Depois de ver estes detalhes, podemos entender melhor muito do que vemos pelo Caminho.

Detalhe da Catedral - abaixo, o suporte do botafumero
Fui à missa do peregrino e andei um pouco pelo interior da Catedral. Há bons detalhes para se ver como a urna onde ficam os restos do apóstolo e a estátua que pode ser abraçada. Há uma placa em uma porta com uma entrada e escada apertada que se sobe para se dar o "abraço no apóstolo". A fila parecia a do Outback. Então deixei o abraço para outra ocasião e segui no meu caminho de observação e pensamentos. A visita à catedral é melhor aproveitada fora do horário de missas, pois há muitos turistas e peregrinos e todos querem ver tudo.

Gente chega e vai direto pra missa
No começo da missa, o padre recebe todos os peregrinos do mundo e lê, de uma lista, todos os que chegaram a Santiago no dia anterior ou no mesmo dia. Só que essa lista é produzida no local onde se requer a Compostelana. Ou seja, o padre não falou que tinha um peregrino do Brasil. Deve ter falado na missa do dia seguinte, pois eu só peguei a Compostelana após a missa. A dica é pegar o diploma pela manhã cedo.



Estes dois dias foram para curtir um pouco a cidade e fazer uma preparação para a outra etapa da viagem, a ida a Finisterre, o Fim do Mundo, e o final do Caminho.

Na Idade Média, cria-se que o mundo era plano, como uma pizza. Se andasse até o final das terras e entrasse em um barco, navegando até a "extremidade", o barco cairia em um abismo habitado por feras e monstros. Então, caminhar até o que hoje é o Cabo de Fisterre, ou Finisterre, era andar até o Fim do Mundo. Fisterre é um balneário espanhol, distante 96km de Santiago de Compostela e continuação do Caminho, visto que vários peregrinos iam até lá para "verem o fim do mundo" e o oceano, por onde chegou a barca que trouxe os restos do Apóstolo.

Há um ritual pagão que é feito há muitos anos por alguns que chegam a Fisterre. Consiste na pessoa chegar da peregrinação, retirar suas roupas e objetos usados na caminhada e queimá-los, para depois descer a encosta que leva ao mar e banhar-se nas águas do Atlântico. Atualmente há uma espécie de cuba ou recipiente onde as pessoas queimam objetos ou peças simbólicas, como meias, cuecas, papéis ou outra coisa usada no Caminho (até porque, entrar naquele mar gelado e revolto é meio arriscado).

Estrada para o Farol de Fisterre (ao fundo)
O interessante de se ir a Fisterre é o caráter mais emocional da coisa. Até Santiago, tudo é muito bem sinalizado (apesar dos apelos comerciais de que falei antes). Para Fisterre, a coisa é mais selvagem, com pouca sinalização e quase nenhum apoio, como há no Caminho. Algumas pessoas nem sabem que há peregrinos passando por ali com destino a Fisterre. Muitos peregrinos terminam sua tarefa em Santiago e voltam para suas casas sem viverem essa experiência. Talvez por não saberem. Ou talvez por não terem interesse em passar mais 2 ou mais dias em um caminho estranho e um pouco fora dos propósitos compostelanos.


Agora, enquanto escrevo isso, posso dizer que a coisa é bem diferente. Escrevo de Finisterre. E é uma experiência mais alucinante que o próprio Caminho. Mas isso é assunto pro próximo post.

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