17.9.12

Depois do Caminho - Finisterre a Noia

10 de abril

Estátua do Velho Pescador - Muros


Acordei tarde, tomei café e vi que no restaurante do hotel havia um quadro com um mapa de relevo em 3D. Tratei de olhar o trajeto Finisterre-Muros-Noia, meu atalho para chegar a Padrón e emendar no Caminho Português, em sentido inverso, para o Porto. Vi que o melhor seria ir pela costa, margeando o litoral.

Voltei para o quarto, pensei 32 segundos e resolvi que iria me mandar. O tempo estava feio, Finisterre estava chato, meu corpo pedia atividade e Amélia estava sozinha na garagem. Preparei os alforjes e meti o pé na estrada. Saí de Finisterre meio-dia, com tempo nublado que se tornou uma chuva fina depois.

Pausa para descanso
A ideia era pedalar até Muros e de lá, conforme a situação, ver o que faria. Se o tempo estivesse ruim, eu cansado ou Muros fosse algo que mexesse comigo, ficaria. Do contrário, ainda teria mais 39 km até Noia. Muros é bonita, com um certo charme, mas a estrada me chamava. Nem eram 5 da tarde, o sol estava a pino, apesar de frio, e eu não estava cansado. Segui em frente. Achei interessante umas setas azuis pelo caminho. Elas dão todas as direções corretas. Imagino que seja o caminho de volta a Santiago que coincide com o que eu fiz hoje até a rotatória da ponte nova antes de Noia.

Parei em uma pequena vila para comer e, depois de beber um chocolate com café, o dono começou a conversar. Perguntou de que parte do Brasil eu era e disse ter namorado uma brasileira quando morou em New York. Disse que tinha muito brasileiro em New Jersey. Eu falei que New Jersey era capital de Governador Valadares e ele concordou. Disse que uma vez fizeram um levantamento e que no ano entraram quase 5 mil padres do Brasil (de Minas) nos EUA, para New Jersey. Eu falei que devia ser uma igreja muito grande. E falou que deveria ser a igreja católica apostólica mineira. Me deu uma tortilla e rimos muito. Depois de reabastecer o estômago e a mente, segui viagem. O tempo estava bom, não chovia mais e o frio tinha ficado lá pela Costa da Morte. Pela estrada via muitos carros com casais de óculos escuros, gola polo e sorrisos propaganda de banco. Paravam em postos de gasolina com conveniência, bebiam e ouviam música alta. Pensei: aqui também tem bobódromo.

Outro bar, em Esteiro. Estava com fome e só achei batata Rufles pra comer. Peguei uma, pedi uma coca-cola e fiquei ali. Paguei a conta e perguntei ao dono se ele tinha alguma tortilla ou bocadillo para eu levar. Ele perguntou aonde eu ia e de onde eu vinha. Depois que falei, me deu três croissants para comer no caminho, uma xícara de café com leite e não quis receber por isso. Disse que era o máximo que podia fazer pra me ajudar pois o bar funcionava apenas à noite e a cozinheira ainda não havia chegado. Saí dali pensando que, enquanto fazia o Caminho, carregava uma vieira no peito e duas na bike, não ganhava as coisas, exceto de Dona Adina, em San Jean, de António e Maria e do S. Amancio, em Castrojeriz. Agora que sou apenas um cicloturista, sem nada que me identifique como peregrino, ganho muito mais.

E nada de Noia chegar. De repente, me vejo em um trevo. As placas separavam Noia do resto do trajeto que eu tinha no mapa. O que eu tinha mandava seguir por Serra de Outes, dar a volta na foz do rio e voltar para Noia. Mas a placa mandava seguir em frente. E eu fui. De repente entendi o que tinha acontecido. O rio Tambre vai se abrindo e chega ao mar, formando uma baía. Nesse ponto, ele tem quase 1 quilômetro de largura. O que a Xunta de Galicia fez? Uma ponte! Chamaram de Ponte do Engano. Ela começa e parece que acabou, mas apenas passa por cima de uma ilhota na foz do Rio e continua mais à frente. Há uma passagem para pedestres e ciclistas na lateral do acostamento, com grades de proteção. E eu tenho pânico de altura em lugares estreitos. No meio da ponte havia um velhinho gordinho. Eu vinha devagar concentrado na coisa e toquei a campainha pra passar. Ele me deu passagem. Parei e perguntei quantos quilômetros faltavam até Noia. Disse que uns 3 ou 3,5 e que não passava disso. Agradeci e o homem continou a falar. E eu querendo sair logo daquela ponte de quase 1 quilômetro. Quando cheguei na outra ponta, me senti aliviado. Já tive muitos sonhos em que caía de pontes sobre a água. E isso me deixa angustiado. Hoje vivi essa experiência novamente. Será que tem algo a ver com Noia?

A ponte da angústia interminável
Agora, depois de 88 quilômetros bem rodados, ganhei um dia do roteiro original que fiz. O objetivo era Muros e, no dia seguinte, Muros-Padrón. Amanhã terei apenas 28 km até Padrón, que já está no Caminho Português, a cerca de 26 km de Santiago. Seguirei o sentido inverso, indo até Pontevedra, terra do Javier, o ciclista sorridente que estava sempre coberto de lama quando nos encontrávamos. Terei tempo de parar em Padrón e ver um pouco da cidade onde, conta a lenda, a barca que trouxe os restos de Tiago atracou. Parece que a pedra em que a barca foi amarrada está no interior da Igreja de Santiago da cidade.

Sem comentários:

Enviar um comentário