Santiago de Compostela - 6 de abril
Cheguei!
9h20
da noite do dia 6
de abril de 2011. Cheguei a uma das praças da Catedral de Santiago.
As forças se foram, só conseguia andar, empurrando a bike e emocionado por
admirar aquela obra gigantesca que começou com Tiago.
Iacobus, discípulo de Yeshua, foi degolado por Herodes III
após seu retorno das terras de Hispania, onde teria ido por ordem de seu mestre
que disse "ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda
criatura". Os romanos hispânicos ignoraram os ensinamentos de Iacobus, que
conseguiu apenas uns poucos seguidores. Ele voltou para Jerusalém e foi morto,
decapitado, por ser seguidor do "rei dos judeus" e seus restos foram
jogados muro afora da cidade. Seus discípulos juntaram os restos e levaram de
volta às terras hispânicas em uma barca, pelo mar. Esta barca aportou onde hoje
é Fisterre, na costa atlântica da Espanha, com o casco cheio de conchas
grandes, que não deixaram que a barca afundasse, as vieiras.
Os restos de Iacobus foram enterrados mais ao leste e o tempo
se passou. Um ermitão, passando por ali muitos anos depois, viu umas luzes que
brilhavam nos campos. Espalhou a notícia e algumas pessoas foram até o local. Houve
alguns milagres e o lugar ficou conhecido como Campo de las Estellas. Logo a
Campestella foi se tornando meta de peregrinações em busca de milagres e os
restos do apóstolo foram removidos para um vale, onde seria erigida uma igreja,
hoje Santiago de Compostela, cidade que criou a catedral onde estou.
Nos últimos quilômetros do Caminho, pedalava mais rápido que
o de costume e pensava sobre tudo aquilo. Me emocionei e agradeci a todos que tornaram meu
caminho possível. Agradeci aos amigos que acreditaram em mim, aos que não
acreditaram, os que me deram forças diariamente com mensagens e emails, aos que
me criticaram dizendo que sou louco e que um homem de 40 anos tem que ficar em
casa sossegado. O lugar de um homem de 40 anos é onde seu coração manda. E o
meu coração não me manda ficar em casa sentado no sofá vendo fantástico ou o
campeonato brasileiro. Meu coração de homem de 40 anos manda eu procurar
emoções, viajar pelo mundo, sentir frio, sede, fome, dores e imaginar o que é
algo tão grandioso, que move multidões de pessoas desde a Idade Média, de todas
as partes do mundo, para simplesmente estar sentado no chão de pedra de uma
praça admirando uma catedral que resume tudo o que escrevi aí em cima.
Agradeço àqueles que passaram pelos campos antes de mim, os
que levantaram cidades, aos reis e bispos que decidiram, que deram ordens, aos
fiéis que, com facas e cajados abriram caminhos, aos peregrinos que morreram de
frio, de fome, de sede, de dor, atacados por animais, mortos por bandoleiros e
ladrões, aos cristãos que lutaram para retomar terras hispânicas e reabrirem a
via Jacobea, aos mouros que enriqueceram a cultura e arquitetura locais, aos
hospitaleiros, a cada um que acendeu uma lareira ou fogueira e deu de comer e
beber a quem tinha fé e prosseguiu.
Agradeço a todos que tornaram esse meu sonho de quase 20
anos realidade. Agora que estou aqui, se pudesse dar um conselho, seria que
peregrinasse na vida. Mesmo que seja para ir à padaria comprar pão. Pense que
seus passos estão movimentando o mundo. Não viva por viver, sentado diante da
tv vendo novela, apático, sem nem prestar atenção ao que dizem, sentado no banco do carro,
no meio do engarrafamento insano ouvindo lady gaga no ipod. Se na tv disserem
que há um lugar onde as pessoas só usam roupa vermelha, vá até lá, descubra o
que é, por que fazem isso. Esteja presente, movimente o mundo, crie novos
horizontes. A vida é muito mais do que esse pequeno quadrado onde se vive. E pare de se iludir que é feliz por ter isso ou aquilo ou por se matar de trabalhar, ficar doente e ainda ouvir gracinha do chefe ou do cliente só porque ficou doente. A vida é muito mais do que isso, é muito mais do que a propaganda da tv que te aprisiona, que molda seu mundo e que te faz pensar que é feliz.

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