24.9.12

Por aí... Embu das Artes

Neste domingo, 23, resolvi ir a Embu das Artes, coisa que já planejava há umas semanas. Baseei-me no roteiro SP-Sorocaba do Bikely. É um trajeto cansativo, com muito trânsito, muita poluição, trechos de rodovia e locais absurdos para se passar. Mas venci.

Na ponte sobre o Pinheiros
Saí de casa meio-dia em ponto. Antes tinha outras coisas pra fazer, ajustes na bike e mais arrumações. Parti rumo 9 de Julho, subi a ladeira que sai atrás do MASP, entrei na Itapeva e, mais uma vez, o guardador de carros me cumprimentou pela pequena subida. Atravessei a Paulista (dia de ciclofaixa), desci a Casa Branca até a Estados Unidos e dali para a Rebouças até a Ponte da Eusébio, sobre o Rio Pinheiros. Estava um pouco frio, um ventinho incômodo. Em determinado trecho, fui dar uma puxada no guidão para subir calçada e senti a lombar. A dor me acompanhou até a volta. Mas deu pra levar. Em menos de 20 minutos estava sobre o rio.

Ciclovia de Taboão
Cheguei ao outro lado sabendo que teria que enfrentar bons quilômetros de Francisco Morato até Taboão. Foi a parte mais chata do trajeto. Em alguns trechos quase não há calçada e andar na pista é arriscado pois é faixa de ônibus e estes estão sempre com muita pressa. Como eu não estava com pressa e passeando, fiquei pela calçada enquanto deu, parando, desviando e esperando pedestres passarem. Logo estava na divisa de Taboão, onde começa a Régis Bittencourt ou BR-116. Esta começa cortando Taboão numa pequena subida bem movimentada. Era domingão, horário de almoço e tudo estava cheio: restaurantes, filas para comprar o frango de "televisão de cachorro", igrejas e pontos de ônibus. Pouco antes de começar a subir, bem na divisa, há uma feira. Parei para tomar um caldo de cana com abacaxi muito gostoso. É combustível precioso para mais uma hora de pedal. 

Pouco antes do Rodoanel
Segui a rota da Bikely que sugere usar a ciclovia de Taboão. Esta segue margeando o Córrego Poá até alguns quilômetros antes da divisa de muncípios. Terminando a ciclovia, sobe-se uma pequena rua e já estamos na BR. Há uma via marginal (muito mal cuidada) que dá pra ir quase até a entrada do Rodoanel (onde há o primeiro trevo de Embu). Uma vez na rodovia, segue-se pelo acostamento por menos de 1 km, passando por uma placa que diz: "PROIBIDO TRÂNSITO DE PEDESTRES E CICLISTAS A PARTIR DESTE PONTO". a Bikely indicava descer uma pequena rua após um posto de gasolina e pegar uma avenida chamada Paulista. Não achei a entrada e prossegui burlando a lei. Menos de 500m depois, ao passar por baixo do Rodoanel, em uma descida frenética, a saída encontra com esta Avenida Paulista. Já estou em Embu das Artes.

O lugar é bem movimentado e até se chegar ao Centro Histórico, há que se subir um pouco. Mas nada que a boa relação de marchas da Amelia não resolva. Cheguei ao Centro e à praça onde acontece a feira de artes e artesanato. O lugar é agradável, com muita gente circulando, olhando e curtindo o domingo. O clima estava ameno, mais para frio, nublado e agradável. Depois de 2 horas e 28 km pedalados, queria lavar o rosto, lavar as mãos e beber algo bem gelado. Andei por umas ruas e resolvi parar numa lanchonete para comer um lanche. Deixei a bike junto da cadeira, o que fazia as pessoas olharem e fazerem algum comentário. Não vi ciclistas por lá, só no trajeto, voltando. Comi meu lanche, fiquei por ali uns bons minutos ouvindo o sambinha que o trio do restaurante tocava e resolvi andar mais.

Café e Pensamentos

Parei para um café em uma cafeteria com uma cara boa, escrevi alguma coisa no meu caderninho de anotações e deixei os pensamentos fluírem enquanto ouvia um grupo de música andina tocar. O bom é que esse grupo tocava realmente música andina e não Roberto Carlos ou Julio Iglesias como a maioria faz nas praças das cidades. Lembrei de pessoas que poderiam estar ali comigo, lembrei de gente que estava longe e teria curtido um pedal desses, pensei de algumas oportunidades perdidas, companhias que se vão e sentimentos que escorrem e evaporam como o suor. Terminei o café e senti o vento que esfriava e poderia trazer chuva. Tratei de pagar, recolher minhas coisas e botar o pé na estrada. Já estava há quase uma hora lá. Meus planos era de voltar no máximo às 4 da tarde para não pegar o trajeto de noite.



Restava-me pedalar mais 28 km de volta. Errei a entrada por onde vim e acabei saindo no trevo principal de Embu. O movimento de caminhões estava absurdo na BR e ainda havia um pequeno acidente entre um carro e um caminhão. Depois disso, foi descida até o Rodoanel, uns 2 km. Descobri que era impossível seguir pela BR pois não havia acostamento. Peguei a subida do Rodoanel e vi que havia uma pista paralela. Pensei que esta sairia na BR. Acertei. Antes da curva que leva ao viaduto, há uma passagem na grama que leva para a paralela. Entrei e consegui sair na BR novamente, depois do Rodoanel. Uma descida de uns 500 metros chega na passarela. Pensei que seria melhor atravessar e pegar a marginal do outro lado até a ciclovia de Taboão, por onde vim. Melhor escolha. Depois disso, seria vencer a Francisco Morato até a ponte Eusébio Matoso e estaria na Rebouças.

Depois foi só ir até o cruzamento com a Brigadeiro e aproveitar a ciclovia do canteiro central até a Cidade Jardim, pegar a 9 de Julho e subir para casa. Cheguei em casa 6h10 da tarde, bem cansado, com fome e satisfeito. Foram 62 km pedalados, praticamente 6 horas de passeio e um pouco mais de experiência. Agora, que venha o Valeu Europeu!


23.9.12

Dia do Carro

Agora, todo dia é dia de alguma coisa.

Semana passada, enquanto pedalava pela ciclofaixa da Paulista, ao parar em um cruzamento, a senhora que fazia a sinalização disse que neste sábado, 22, haveria ciclofaixa novamente, pois seria Dia do Carro e isso poderia servir para trabalhar a cabeça dos motoristas.

Cadillac Eldorado - Batel, Curitiba
Não sou cicloativista, não condeno os carros e não tenho posição a respeito do assunto. Apenas gosto de pedalar sem incomodar e sem ser incomodado. Há umas semanas, me livrei do carro que tinha. Quando morei no Rio, também não tive carro. Comprei um apenas um pouco antes de ir morar em SC, pois seria útil para carregar minhas coisas na mudança e me deslocar por lá. Agora, voltei a andar a pé. Na época do Rio, pensei muito sobre o que um conhecido disse e fez lá pelo final dos anos 90. Certa vez, conversando sobre a vida, ele disse que passou 1 ano anotando tudo o que gastava com o carro, desde um pequeno parafuso até os gastos com gasolina, aditivos e tributos. Resolveu vender e andar de táxi e metrô. Eu fiz o mesmo em 2009. Atualmente, moro a 900 metros do trabalho e, caso quisesse ir de carro, de metrô ou de ônibus, teria que andar mais do que indo a pé. E, mesmo agora, já com quase 1 ano de SP, caso morasse mais afastado do trabalho, não teria carro. Rodaria de táxi, transporte público e bike.

Acho interessante o ponto de vista da grande maioria das pessoas com relação ao carro. Lembro de ter lido textos na faculdade que remetiam ao pós-segunda guerra e ao alinhamento do Brasil com os EUA, incentivos ao crescimento do parque industrial e a discursos de Getúlio Vargas no sentido de se expandir a produção e comercialização dos bens de consumo. E, dentre geladeiras, eletrodomésticos e outros, estava o carro. Ou seja, carro é bem de consumo e não "patrimônio" ou "investimento" como muitos pensam. Carro só é investimento para revendedores e locadoras. Para nós, simples contribuintes, é um bem de consumo que perde seu valor com o tempo e o uso. Experimente comprar um carro zero quilômetro hoje e levar na semana seguinte na loja onde comprou. Você pagou 60 mil em um novo e a loja vai te pagar 50 mil (sendo muito generosa). Mas a grande massa pensa no carro como investimento e símbolo de status. É comum (e engraçado) ouvir as pessoas dizerem "meu retrovisor quebrou", "meu banco é de couro", "meu parachoque amassou". Pessoas que têm peças de carro nos seus corpos. Estranho e cômico. As peças são do carro e não da pessoa! Mas, deixa isso pra lá.

Porsche 356 - Batel
O que mais me fez pensar e me convenceu a ficar sem carro foi o cálculo de quanto se gasta para ter um parado na garagem.  O que eu fiz? Somei todos os custos que envolvem ter um carro de 60 mil no período de 2 anos. Estes custos englobam depreciação, IPVA, estacionamento, multas, Controlar, taxas do Detran, pequenos reparos, gasolina, manutenção, revisões e mais alguns itens que um carro demanda. A conta chegou a cerca de 16 mil reais por ano. Somando o valor do carro, 60 mil (considerando que seja comprado à vista - financiado essa conta aumenta), com a despesa anual, teremos desembolsado 92 mil reais (60.000,00 + 16.000,00 x 2 anos). Se usarmos o carro todos os dias do ano, sem folga, a conta resulta em cerca de 252 reais por dia.

R$ 252,00 por dia? Mas isso daria pra andar de táxi pra todo lado e ainda sobraria!

É, sobraria. Mas o mais interessante dessa conta é o tempo que se perde. Outro dia, voltando do Ibirapuera, subi a Campinas rumo Paulista. Marquei um carro e observei quem chegaria primeiro. O carro, com seu motor 2.0, subia a alameda e me passava. O sinal fechava, eu o passava, com minha bike 21 marchas, pedalando devagar na marcha mais leve e sem fazer muita força. O sinal abria, o 2.0 me passava e logo empacava, eu passava de novo e seguia minha vida de lesma. Cheguei na Paulista e, depois de passar a próxima quadra, vi o 2.0 seguir seu avança/para eterno.

Chevelle Malibu - Batel
Em outras ocasiões, quando saí na noite, vi como é difícil chegar em alguns lugares. 4 pessoas no carro conversando, ouvindo música e esperando o trânsito andar. Quando se chega ao destino, tem que achar lugar pra parar, pagar e depois entrar. Na saída, ou espera o carro vir ou vai até ele. Sexta-feira passada, fui a 3 lugares diferentes: da Vila Mariana para o Itaim, dali para a Vila Mariana e depois pra casa, na Bela Vista. Cada viagem custou 10 reais e quem tinha que se preocupar com a direção, onde parar e como seguir era o taxista. Bastava sair da porta do bar, abrir a porta do táxi e dizer a direção. Prático, né?

Bom, hoje é o dia do carro e vai ter muita gente dentro dele esperando por alguma coisa que nunca chega. Eu quero propor o Dia do Sofrimento do Motorista que é a figura principal dessa história, o ser humano, a pessoa, e não esse monte de metal e plástico tão idolatrado por todos.

Pra comemorar o dia do carro, neste domingo vou a Embu das Artes ver artesanato, comer alguma coisa e me divertir. E vou pedalando.


21.9.12

Vale Europeu - SC

Eis que começa a contagem regressiva para as férias e lá vou eu me sujar de lama e subir montanha com a tralha no bagageiro.

Represa Rio Bonito - foto: www.bemvindocicloturista.com
Existe um circuito turístico ali pelo Vale de Itajaí chamado Vale Europeu. Para os cicloturistas, o passeio começa e termina em Timbó, atravessando algumas cidades como Doutor Pedrinho, Rodeio e Pomerode. Há subidas consideráveis, muito barro e sofrimento, mas também há cachoeiras, belas paisagens, gente boa pelo caminho e o prazer de se estar o dia todo pedalando. É bom sumir um pouco do asfalto, das buzinas, do agito dos workaholics e das noites mal dormidas por conta de gente sem noção que habita as megalópoles.

O homem mais feliz do mundo
Espero conhecer gente interessante, ouvir histórias, provar comidas diferentes, sentir o clima do lugar e me deliciar em algumas águas da região. Quero conhecer o Sr. Paulo Notari, que se diz "o homem mais feliz do mundo". Seu Paulo, há mais de 17 anos planta hortênsias. Já são 14 km de flores no caminho que vai até a sua casa, na cidade de Rodeio. Ele diz morar no paraíso. E eu quero comprovar. Para quem tiver interesse em conhecer mais da história de Seu Paulo, existe uma pequena matéria interessante dando mais detalhes aqui.

Vou procurar escrever durante o trajeto e postar algumas fotos, dando alguns detalhes, ao estilo Diário do Caminho de Santiago 2011. E, caso tenha oportunidade, antes do início, falarei sobre a preparação para esta viagem.  Desejem-me sorte, ou glück, ou ainda buona fortuna!!

20.9.12

Caminho de Santiago - Dicas

Quando terminei o Caminho, juntei as experiências que tive e criei um post no outro blog com dicas para quem pretenda fazer o Caminho de Santiago de bicicleta. Estas dicas não são um manual, são apenas dicas.

Eu me considero um "mulambiker", como dizem os mais radicais. Não uso capacete, a não ser que seja obrigatório, não tenho sapatilhas com taquinhos, não marco tempo, velocidade média e não uso as roupas coloridas que vemos pelas trilhas. Não sou um mountain biker, minha bicicleta não custou 20 mil reais e não tenho objetivos competitivos. Apenas me concentro no caminho, na paisagem, em parar, conhecer gente, compartilhar experiências, visitar lugares onde o carro não vai e fazer o que mais me dá prazer nessa vida: pedalar. Tudo muito simples. Então, não espere dicas de equipamentos ultramodernos, planilhas e estatísticas. Isso é facilmente encontrável em guias pela web ou em lojas.

Então, vamos lá!

1020 km pedalados - viagem que foi uma das melhores da minha vida


Enquanto pedalava pelo litoral atlântico da Espanha, pensava em tudo o que passei pelo Caminho de Santiago dias antes. Pensei nos erros que cometi e que me custaram mais, pensei nos detalhes que observei e pensei nas dicas que nunca achei na internet e que descobri com a prática. Então, resolvi que deveria escrever um post com tudo isso para quem vai fazer. Isto não é um guia definitivo e absoluto do Caminho. Algumas pessoas poderão considerar algumas dicas inúteis ou dispensáveis. Outras poderão considerar como dicas essenciais. Vai de cada, afinal, o caminho é seu.

Alguns peregrinos que encontrei pelo Caminho me perguntaram se era melhor fazer o trajeto de bike ou a pé. E, a poucos quilômetros de Santiago, eu dizia que era a pé. A bike ajuda muito nas distâncias, dá prazer para quem gosta de pedalar e nos abre novos caminhos. Mas também é um peso muito maior para subir trilhas, faz passar frio numa descida forte e atrapalha para visitar locais. Pergunte se eu entrei na maioria das igrejas do Caminho. Não. A bike tinha que ficar na rua com toda a minha tralha junto. Pergunte se eu fui pela trilha ao Puerto de Ibañeta ou ao Alto de Perdão? Não, pois era praticamente impossível subir com ela. Pergunte se eu interagi mais com os peregrinos pelas estradas? Quase nada. Geralmente, os "bicigrinos" pedalam muito por dia, num ritmo frenético e param pouco. O peregrino a pé precisa parar mais, sentar na grama, na terra, comer com calma e acaba interagindo mais com o restante. E quem está na bike sempre deixa os caminhantes para trás.

Mas estamos falando de bike e vamos tratar de bike. Quem quiser fazer o Caminho de bike terá uma experiência incomum na vida, vivendo desafios diferentes todos os dias, percorrendo distâncias consideráveis por locais de muita beleza, com muito tempo para pensar. Fiz uma lista de perguntas que algumas pessoas me fizeram antes e depois e perguntas que eu mesmo me fiz muitas vezes. Juntei com perguntas e respostas que li em sites, guias e livros. E respondi a cada uma com a experiência e a minha opinião. Vamos ao que interessa.

- Que bicicleta devo levar? Devo comprar na Espanha? Ou levar a minha?
Antes de viajar, pesquisei um pouco sobre isso em sites e em um fórum. As respostas são diversas. Cada um pensa de um jeito e acha que o seu jeito é o mais vantajoso. Ouvi que deveria levar a minha daqui. Ouvi que deveria comprar uma por lá. Ouvi que deveria ter duas bikes, uma para o Caminho e outra para rodar nas cidades após o Caminho. Ouvi que deveria desistir de ir de bike e ir a pé. E ouvi que deveria ter comprado uma moto para fazer o Caminho, vendendo-a em Santiago. etc, etc, etc...
Agora, a minha experiência. Comprei uma bike dobrável, aro 20, em Paris. Foi uma B`Twin Hoptown. Rodei pouco mais de 160 km com ela. E foi pesado. Em Logroño, na loja de bikes, ganhei um abraço de um ciclista pois disse nunca ter visto uma pessoa fazer aquilo. E vendi a bike, comprando uma aro 700 com pneus híbridos, mais finos que os de uma MB, nessa mesma loja. A 700 rende muito mais em qualquer terreno. A maioria do que vi por lá foi de mountain bikes. Mas a 700 com suspensão dianteira se comportou muito bem. Desci trilhas com carga nos alforjes a 30 km/h e a bike segurou a onda muito bem. Depois de quase 20 dias é que o eixo traseiro estava um bagaço. Tive apenas um pneu furado.

Então, o que fazer? Vamos lá.

Levar sua própria bike. As empresas aéreas podem cobrar para transportar a bike. Eu voltei pela TAP e trouxe a 700 que comprei por lá. 150 euros. E tem que levar a bike numa caixa, dessas que a bicicleta vem quando compramos. Se fosse na TAM, eles aceitavam transportar a bike sem custo, numa bolsa própria para bikes, desmontada (com as rodas nas laterais). Na TAP, podia levar até 2 volumes de 23kg cada. Na TAM, poderia levar até 2 de 32 kg. Mas a passagem da TAM sai mais que o dobro. Se você vai fazer o Caminho e depois ainda vai rodar pela Europa, aconselho a TAM. O tratamento é melhor e pode-se transportar mais coisas. Uma bicicleta com alforjes, ferramentas, suas coisas e mais umas compras passa dos 30kg fácil. Então, faça as contas e pense que terá sempre que carregar uma caixa ou mala-bike com a sua magrela de estimação.

Comprar uma bike na Europa e trazer para o Brasil. Se você quer comprar uma boa bike e trazer para o Brasil, vai juntar o item anterior com este. Vai sair daqui com quase nada e voltar carregado. Foi o que eu fiz. Cheguei em Paris com uma mochila pequena, de mão, 2 mudas de roupa, um casaco e o básico de higiene. Voltei com 58 kg de bagagem, depois de 37 dias por lá. Na maioria das lojas por onde passei, encontrei Orbeas, Giants e outras marcas com suspensão dianteira ou full, freio a disco, 27 marchas por uma média de 700 euros. Aí varia, dependendo do que se quer. Há as mais sofisticadas, com quadros ultraleves, freios hidráulicos e demais equipamentos por 2 mil euros. Acho muito para o Caminho. Mas se trouxer a bike, pode valer. Há um detalhe interessante: o IVA. Este é o imposto equivalente ao nosso IPI, coisa que muda muito o preço final do produto. Como não-residente da União Europeia, posso pedir a devolução do IVA. É uma coisa meio burocrática, mas considerando que pode chegar a 13% do valor pago, compensa. Você compra a bike e a tralha que vai usar com ela e, quando for pagar, peça o tax-free ou isenção do IVA. A loja vai preencher um documento com seus dados de passaporte, endereço e mais algumas coisas, imprimir uma nota especial e te dar um kit para envio de correios. Com tudo isso, na hora de embarcar de volta para o Brasil, você deve ir a um dos bancos credenciados que ficam nos aeroportos, levar o que comprou e fazer o pedido. A pessoa que atender vai conferir os produtos, atestar na sua nota e, já no Brasil, você enviará esta nota pelos Correios para a loja onde comprou. Quando receberem, vão mandar o crédito do IVA para você pelo banco ou cartão de crédito, conforme foi feita a escolha na hora da compra. Isso leva um tempo considerável, mais de um mês. Mas é um bom desconto.

Outro detalhe importante é o que fazer com a bike quando chegar a Santiago? Se quiser fazer turismo, terá que levar a coisa pra todo lado? Não. Procure uma loja da SEUR, a transportadora, leve sua bike numa caixa de papelão, seu passaporte e sua credencial de peregrino e mande para Madri. A SEUR tem um serviço especial para peregrinos de bike com desconto no preço do transporte dentro da União Europeia. Custa em média 50 euros mandar a bike para outra cidade dentro da Espanha. Isso vai depender do peso da caixa com tudo dentro. Eu mandei a minha caixa com roupas, alforjes, ferramentas e outra bolsa totalizando 29kg e paguei 61 euros. Você pode deixar a caixa no depósito deles por até 8 dias. Depois tem que retirar ou vai pagar armazenagem, o que sairá muito mais caro. Então, programe-se. 
Em Madri, no aeroporto Barajas, há o serviço de lockers (que na Espanha se chama consigna). No terminal 1, do lado direito do estacionamento, primeiro piso, tem um prediozinho do consigna. Eles guardam de tudo. É só levar a caixa, passar pelo raio-x e mandar guardar. O primeiro dia sai a 5,40 + 4,50 da chave e os dias restantes saem a 3,50 euros cada. Você paga só a chave e o primeiro dia, e o restante paga na retirada.

Comprar uma bike pela Europa e deixar por lá. Como assim? Você compra a bike, como falei no item anterior, e deixa por lá, volta sem ela. Antes de ir, pesquisei o preço de aluguel de bikes para se fazer o Caminho. Há empresas que fazem isso. Você pega a bike onde pedir e entrega em Santiago. Só que sai mais caro do que comprar uma bike igual a que eles alugam (é um modelo simples, desses que vendem em supermercados). Em todo lugar por onde passei que tinha uma loja, eu olhava os preços de bike. Tinha as de supermercado, com 21 marchas e suspensão dianteira por 150 euros. E tinha as do item anterior de até 2 mil. Sinceramente, se fosse fazer tudo de novo, compraria uma bike de 200 euros ou menos, pedalaria pelo Caminho e, em Santiago, doaria para alguém. Sai mais barato que alugar, mais barato que levar ou trazer e mais prático. Ou venderia! Na Espanha existem umas lojas Cash-Converters. Essas lojas compram e vendem de tudo, usado ou novo. Mas não há lojas pelo Caminho, exceto em Logroño. A mais perto de Santiago fica em Pontevedra. Mas como é uma franquia e se expande rápido por lá, é capaz de logo ter alguma em Pamplona e em Santiago. Aí fica fácil comprar uma bike de 200 euros, como vi numa das lojas, e depois revendê-la em outra loja (vão pagar bem menos, mas ainda é vantagem - a 700 custou 330 euros e avaliaram em 120). Na pior das hipóteses, pratique o desapego. Vá em um albergue ou igreja e doe a bike. Alguém vai precisar. Eu fiz isso pelo Caminho com roupas, ferramentas e objetos que não iria usar e isso aliviou meu peso (e ajudou alguém que precisou de algumas coisas).

Alugar uma bike. Como disse no item anterior, não vejo vantagem, mas é possível alugar. Vá no Google e pesquise por alquiler bici camino santiago. Há lojas que já reservam daqui do Brasil.

Perguntas que mais ouvi:
- Que equipamentos devo levar? O que devo comprar? Como evitar peso desnecessário?
Você vai se lembrar do peso que leva quando estiver subindo os Pinineus ou o Cebreiro. E vai querer ter deixado de comprar aquele alicate que nunca usou ou a necessaire enorme com dezenas de itens que nem lembrará ter levado. Pense nisso quando arrumar a mala/mochila/alforje:

Ferramentas: um canivete multi-ferramentas, uma chave de boca regulável, um kit de remendo de câmara de ar com espátulas, 2 câmaras, bomba e 1 pneu. Tenha também uma tranca para guardar a bike em alguns lugares. Uma dica de pneu seria comprar o Schawlbe Marathon Plus. Li relatos de cicloturistas que rodaram 15 mil km com este pneu em vários terrenos do mundo sem um furo sequer.

Roupas: duas mudas de cada (bermuda e camisa) mais uma no corpo, todas de secagem rápida, que dispersam suor e que sejam leves; uma calça do mesmo material (calça-bermuda é melhor); 3 cuecas (mulheres podem usar mais peças de baixo); 3 pares de meias; 1 casaco; 1 segunda-pele se for em mês de frio (antes de maio e depois de setembro); 1 tênis no pé; capacete, se quiser; luvas de bike (inteiras - as que deixam os dedos de fora farão seus dedos congelarem); 1 chapeu ou boné; 1 capa de chuva (poncho é melhor). O resto vai depender do gosto e disposição de cada um. Aprenda a utilizar lavanderias self-service e tudo ficará mais leve. Há algumas com aquelas máquinas automáticas que funcionam com moedas. Com menos de 10 euros você lava e seca até 9 quilos de roupa (o que é muita coisa) com direito a amaciante e tudo. Neste link do Ricardo Freire há um ótimo tutorial para se usar essas lavanderias "fantasmas".

Alforjes: não acho necessário. Se tiver bagageiro na bike, dá pra prender a mochila ou bolsa nele com elásticos (na Espanha chamam de goma para carga en bicicleta ou pulpo, dependendo da cidade onde esteja, e são vendidos em lojas de 100 pesetas - as de 1,99 - por 1 euro). Tenha um plástico grande para cobrir tudo caso chova, tipo piso de barraca de camping ou lonas. Os alfojes são mais práticos para carregar a tralha, mas todo dia tem que desmontar e montar no bagageiro. A mochila é mais simples e basta colocar nas costas para andar.

Bolsa de guidon: achei bem útil. Dá pra levar muita coisa ali: comida, óculos, máquina fotográfica, ferramentas, guia do Caminho, mapas e o que mais couber.

Comida: compre o que precisa para o dia apenas. Vá num supermercado ou esses mercadinhos de bairro e compre um pão, presunto, queijo e mais alguma coisa, faça um bocadillo, embrulhe e leve. Compre umas frutas. Na Espanha é difícil achar bananas boas (chamadas de platanos). Mas com elas, evitam-se cãimbras. Bocadillo é algo interessante. É um pão gigante (e delicioso) com um monte de coisa dentro. Depois de uns dias, eu passei a comprar em bares. Partia ao meio, comia metade e a outra metade levava para comer mais tarde. Como não almoçava, comia a metade de um por volta das 13h e o resto lá pelas 17h. Peça um Colacao, que é como o Nescau daqui. Eles vão te dar uma caneca com leite quente (ou frio, se pedir) e um envelope do achocolatado. É só misturar e beber. O café por lá é só expresso. Se não quiser ficar viciado ou começar a tremer durante a noite, peça um "americano". É o mesmo expresso e um bulezinho com água quente para misturar. Eu bebia uns 10 cafés por dia e já estava ficando louco. Sonhava com café coado.

Sou um viciado em feijão. E lá não tem. Ou melhor, até tem. É a alubia roja. Se quiser comer, peça por isso. É bom, temperado com alho, cebola e sal apenas. Quando estiver na Galícia, peça pelo caldo gallego, que leva feijão branco e é muito nutritivo. Na Espanha servem os menus. Geralmente há o menu del dia ou o menu del peregrino e pode custar entre 7 e 15 euros. Há o primero plato ou entrante, que pode-se escolher dentre uns 5 ou 6 (saladas, caldos ou frutos do mar), o segundo ou principal, que geralmente tem batata frita em quantidades industriais, o postre, que é a sobremesa e pode ser um flan (pudim), tarta (bolo ou torta - a de Santiago é boa, mas meio seca), fruta ou helado (sorvete). O menu tem sempre pão, água e vinho incluídos no preço. Em alguns lugares, come-se pão e vinho à vontade. Pode pedir mais que vem com generosidade. Se você deixa de lado, alguns donos de restaurante olham com cara desconfiada. Na Espanha é muito comum beber-se vinho, costume da Idade Média, quando quase não havia água potável e a sede era saciada com vinho.

Dinheiro: brasileiro não gosta muito de moedas e chega ao ponto de jogar algumas fora. Antes de fazer isso na Europa, lembre-se de que a moeda de 5 centavos de lá equivale a pouco mais de uma de 10 daqui. Na Europa você vai precisar de moedas. Imagine-se no meio do Caminho, no alto de uma montanha onde se vê algumas ovelhas, muito verde e nuvens. De repente você se depara com uma máquina de refrigerantes, água e doces encravada no meio de uma cerca de arame farpado, perto de uma casa de pueblo. E não tem moedas. Mas também não há ninguém por ali e as ovelhas não vão trocar suas notas de 5 ou 10 euros. Então, tenha sempre moedas nos bolsos. Muitas. Quase tudo sai por 1 euro. Vai bater aquela vontade louca de beber refrigerante e a moeda vai fazer você se realizar. Então, não despreze as moedas.

Você pode sacar dinheiro nas ATM, que são caixas eletrônicos, como no Brasil. A diferença é que não há essa coisa de banco X ou Y. Caixa é caixa e sai dinheiro de dentro dela. Basta ter um cartão internacional (de débito ou crédito) válido e a senha. Mas lembre-se: a cada saque, há uma tarifa (hoje, quando escrevo, as regras de tributos sobre os saques no Brasil mudaram - consulte as regras do seu banco ou cartão para não ter um susto depois). Faça poucos saques bem pensados. No Caminho, quase tudo pode ser pago com cartão de crédito. Mas pagamentos com cartões geram IOF na sua conta. E o valor é salgado. Então, a melhor coisa para o Caminho é ter dinheiro na mão. Eu levei pouco mais de 600 euros do Brasil e isso durou um bom tempo. No Caminho, dá pra se viver com menos de 30 euros por dia, se você ficar em albergues. Então, em 15 dias de Caminho na bike, 500 euros são suficientes.

Hospedagem: há os albergues, tanto públicos (mantidos pela Igreja ou prefeituras) e os privados, que são pousadas coletivas ou hostels. Alguns públicos são gratuitos, ficando a cargo do peregrino fazer uma doação pelo uso (3 euros é o suficiente). Nos privados, os preços variam de 6 a 15 euros. Eu fiquei em hoteis. Saiu a uma média de 40 euros a diária. Depois de pedalar e suar por 8, 10, 12 horas, eu queria chuveiro quente, uma cama, privacidade e café da manhã farto. Então, achei por bem ficar em hoteis. Nos albergues, o banheiro é coletivo, às vezes ficam mais de 20 pessoas dormindo juntas e nem todo mundo sente o calor ou o frio que você sente durante a noite. E muitos roncam. E têm chulé. E não tomam banho. Então, 40 euros por noite foi o preço que paguei para dormir em paz. Eu mereço!

Passaporte e vistos: você vai entrar na Europa em algum ponto (Espanha, França ou Portugal) perto do Caminho e vai passar pela imigração. Podem te perguntar mil coisas ou podem não perguntar nada. Cheguei por Paris, no aeroporto Charles de Gaule. O sujeito olhou pra mim, disse bon jour, olhou a foto do passaporte, olhou pra mim, carimbou e disse au revoir. Depois disso, só apresentei o passaporte em Barcelona, para embarcar de volta para o Brasil. Quando entrar, se perguntarem o que faz ali, diga que vai fazer o Caminho de Santiago. Isso já basta. A maioria das pessoas sabe o que é e respeita. Mas procure não levar armas, drogas, explosivos, substâncias radioativas ou coisa parecida na bagagem que não vai adiantar muito falar que vai fazer o Caminho.

Há muito mais dicas e detalhes que, conforme for me lembrando, vou adicionando ao site. Se alguém quiser fazer o Caminho de bike e quiser saber de mais alguma coisa, pode perguntar nos comentários. Vou procurar ajudar quem quer encarar essa empreitada de atravessar a Espanha de leste a oeste. É uma experiência e tanto e ficarei feliz em ajudar quem quiser viver isso.

Ultreya!

19.9.12

Por aí

No fnal de semana que passou, tinha planos de ir a Embu das Artes, 25 km de São Paulo, seguindo via Régis Bittencourt. Tracei uma pequena planilha com quilometragem baseado no Bikely com roteiro SP-Sorocaba via São Roque.

Mas como planos são como barquinho de papel em cachoeira, mudei tudo e não fui. Acordei tarde, com dores por conta de uma fascite plantar no pé esquerdo e resolvi não ir no sábado. Domingo, até fazer tudo o que precisava, já eram 3 da tarde e, se fosse a Embu, teria que voltar de noite, além de não ter mais muito o que ver na cidade. Então resolvi sair por SP e conhecer lugares que não conhecia.

Ciclofaixa, Av. Paulista
"Inaugurei" a ciclofaixa da Paulista, que já estava para ser desativada (horário de 7 às 16h de domingo). A faixa corta toda a avenida com ida por um lado e volta pelo outro (mesmo sentido dos carros). Temos que parar nos sinais de trânsito (farol ou semáforo por aqui). O interessante é a quantidade de gente envolvida nessa operação. Pessoas com camisetas vermelhas e bandeiras interrompem o trânsito da ciclofaixa para os carros passarem nos cruzamentos. A coisa é bem organizada. Havia pouca gente pedalando. Imagino que pela manhã fique mais cheio. E, por conta da ciclofaixa, o trânsito fica mais intenso. Junte o clima seco dos últimos meses de SP com a poluição e teremos um nariz entupido. Mas isso é algo natural em cidades grandes. Graças ao IPI reduzido, ao "status" que um carro dá e à preguiça generalizada da população, o ar é esse mesmo e o meu corpo o respira involuntariamente. Não tem opção.

Depois da Paulista, desci a Casa Verde até a Brasil e segui para a Rebouças sentido viaduto da Eusébio Matoso. A ideia era ver como é o acesso pro outro lado do rio para quando fizer a pequena viagem para Embu e uma próxima para São Roque. O acesso é pela ponte. Há passagem lateral para pedestre. O problema é atravessar o contorno que sai da Marginal. É muito carro passando. Tem que se achar uma brecha e "cair pra dentro". Mas não é nada demais. Atravessei, fui até a entrada da ponte e voltei para subir a passarela e ir pro outro lado da pista. A ideia era pedalar até o Parque do Povo e dar umas voltinhas na ciclovia interna. Tranquilo, exceto pelo fato que a passarela da Cidade Jardim só escadas para descer. Ou seja, suba pela rampa e carregue a bike pra descer. Um uma coluna da escada havia uma pequena pintura: A felicidade está ao seu lado. Parei ali, bebi um pouco de água, olhei o parque e fiquei pensando na frase.

Entrada da ciclovia, Parque do Povo
Dei duas voltinhas pela ciclovia olhando como a grama estava seca por causa do clima. Ri um pouco quando duas meninas de uns 10 anos tentaram "apostar corrida" comigo em suas bikes de aro 20. Depois das duas voltas, peguei a saída que dá para o Shopping JK Iguatemi, contornei a calçada do estacionamento e segui pela Marginal, sentido Morumbi, pela calçada, ao contrário dos carros. A ideia era ir até a passarela que leva para a Ciclovia do Rio Pinheiros. A entrada se dá por uma passarela do lado da Estação Vila Olímpia (há outras entradas). Sobe-se uma escada, atravessa-se a passarela e aí chegamos no ponto de apoio. A escada tem a canaleta para subir a bike sem precisar carregar nas costas - muito útil. E o ponto de apoio tem bebedouros, bicicletário, banheiros e banquinho para se descansar.


A ciclovia é boa, com bom asfalto, bem sinalizada e com pontos de apoio em locais estratégicos. O ruim dali é pedalar com o mau cheiro do Rio. Mas acostuma-se depois de um tempo. Ela segue por 21 km, desde a estação Jurubatuba até a Cidade Universitária. Pedalei por parte dela. Entrei pela Vila Olímpia e fui até a Cidade Universitária. Como o serviço encerra às 18h15, não daria tempo de ir muito longe. Mas a experiência foi interessante. Alguns velocistas passaram zunindo por mim, pais com crianças e gente passeando. As duas faixas do trajeto são compatilhadas. A "de dentro", mais próxima à linha do trem, é para bikes e a mais próxima do rio, para veículos em serviço. Durante o tempo em que pedalei ali, passaram apenas 3 carros por mim. O limite de carros é de 30 km/h e e das bicicletas, 20. Pelas condições de asfalto e inclinação quase zero, dá para se manter uma média de 20 por hora sem muita dificuldade.

Em uma próxima oportunidade, quero fazer todo o trajeto indo e voltando. Para quem pretende percorrer esse trajeto (42km), é bom levar algo para comer, senão terá que sair e voltar.

No final do passeio pela ciclovia, quase escurecendo, achei companhia inusitada: uma capivara comendo a grama da borda. Bem mansa, dá pra chegar perto e observar. Logo depois, vi mais 3, do outro lado da pista, às margens do rio. Tirei uma foto rápida de Leôncio, o apelido que coloquei nela (ou nele, não sei). Saí para a Marginal, segui rumo ao Itaim e dali para casa. Final das contas, foram 39,5 km pedalados em um belo e seco domingo na cidade.

18.9.12

Noia - Padrón - Pontevedra - Final



Chega um momento em que temos que saber que é a hora de parar.

12 de abril

Hoje deu tudo errado. Ou quase tudo. Isso me fez pensar muito para tomar a decisão de encerrar essa etapa de cicloturista. A ideia era fazer o Caminho de Santiago Português ao contrário, mas quando o Universo começa a dizer que é para parar, é melhor parar. E eu parei.

Noia
Saí de Noia meio-dia. Cidadezinha muito movimentada e quase não há espaço para bicicletas. As pessoas olham de cara feia quando veem um sujeito com uma carga atrás da bike querendo passar. Amarrei a carga e o elástico que prendia os alforjes arrebentou. Fui na loja de bicicletas comprar um. Não tinha. Conversei um pouco com o dono, que já fez o Caminho desde Roncesvalles (se livrou da subida dos Pirinéus). Ele falou para eu ir pela carretera nacional, pois era mais perto e melhor de andar. Nestes quase 20 dias de estrada, já vi que ir pela nacional é ruim. Há muitos caminhões, muito barulho, muito movimento, a velocidade em algumas é 110 e nem sempre há a pista paralela para veículos mais lentos como tratores, bicicletas ou peregrinos. Peguei a indicação errada e segui pra saída da cidade que levava para o litoral. Pedi informação a um sujeito que estava numa das pontes e ele me disse para voltar e ir no sentido Santiago. Em um momento haveria placa para Padrón. Ele também disse para eu ir pela nacional.

Achei uma loja de 1,99 (que aqui é de 0,60€, ou 100 pesetas, como eram chamadas essas lojas de orientais) e comprei os elásticos para prender a carga. Pergunte por uma "goma para fixar carga". Segui a rua que emendava com uma estradinha para sair da cidade pela montanha. Cheguei a uma bifurcação que levava para a nacional ou pela estrada das montanhas. O meu mapa indicava a estrada pelas montanhas. A nacional me levaria para a outra ponta da mesma estrada, na cidade de Ruís, a 11 km de Padrón. Decidi ir pelas montanhas.

Entrocamento de rodovias
Em 2 horas de pedal, devem ter passado por mim uns 10 carros apenas. É uma estrada sem acostamento, que passa por vários pueblos, cortando as montanhas por entre bosques, para sair do outro lado, no vale onde fica Padrón, já no Caminho Português. Em determinado momento, estava a apenas 24 km de Santiago. Deu vontade de voltar.

Foram 10 km de subidas cansativas. No alto, cheguei a Vilacova, um pueblo de uns 10 habitantes. O vento era desesperador, frio, mas eu estava suado, com calor. Parei em um bar, o Vila da Cova. Quem me atendeu foi uma senhora gordinha e baixinha, com cara daquelas tias de interior que nos enchem de guloseimas quando vamos visitá-las. Ela me serviu um pintxo de pulpo a feira. Estava delicioso. Pintxo é algo como tira-gosto no Brasil, só que numa porção individual. E pulpo a feira é polvo cozido com azeite e batatas, com um pouco de pimenta. Servem quando se para beber em um bar. É grátis. Mas para mim, que geralmente pede coca-cola ou água com gás, servem o pintxo do mesmo jeito. Sempre dizem que é como podem ajudar. A bicicleta impressiona um pouco nessa hora. E a Galícia tem um pouco da nossa hospitalidade. A tia me disse que ainda teria mais 6 km de sobe e desce e depois uma bajada até Extramundi, o subúrbio de Padrón.

Segui viagem. Até ali, estava tudo certo, exceto por eu ter esquecido a toalha ultra-absorvente no hotel e ter perdido a capa dos óculos. Mau sinal. A toalha estava sendo útil para o suor desses dias de muito sol. O outro detalhe da viagem foi algo que ignorei quanto às montanhas. Se tiver um catavento (ou parque eólico, para os mais engajados), tem vento. E se tem vento, a coisa complica. Imagine-se sentado numa bike de 12 quilos com mais uns 25 de carga parado numa descida, sem por os pés no chão. É isso. Em alguns trechos, tinha que pedalar pra descer, pois o vento não deixava. Segui com vento contra até descer para Padrón. Resultado: 28 km rodados em 3 horas e meia. Até que foi bom, graças às descidas.

Ciclista de Extramundi
Entrei no Caminho Português. Lá estavam as setas amarelas, vieiras e placas do Caminho novamente. Tudo indica Santiago. E eu indo ao contrário. Padrón é uma cidade bonita, com algumas coisas para se ver. Foi lá que os discípulos de Tiago chegaram numa barca que subiu o rio Sar. Dali levaram os restos do apóstolo até o monte Libradon, onde hoje é a cidade de Santiago. Parei na Paseo del Espolon e sentei para comer uma tortilla. Não estava grandes coisas, mas estava boa. Descansei um pouco, andei por Padrón, fotografei alguns detalhes e a máquina foi pro chão. A correia da alça soltou e caiu do meu ombro. Não quebrou, mas já era um mau agouro, pois segundos antes, a bike caiu no chão depois de eu ter levado mais uma pancada do pedal enquanto a empurrava pelas ruas de pedestres. A canela latejava e os pensamentos vibravam. Antes de sair da cidade, em um cruzamento, vi que a bike não estava parando como deveria. Lembrei das pastilhas de freio. A descida da serra acabou com o resto que existia. Então, parei numa calçada e em 10 minutos troquei as 4 sapatas.  Pronto, agora Amélia parava só com o pensamento.
Igreja de Santiago, Padrón
Saí de Padrón pensando em ficar. Tomei a carretera nacional e segui o Caminho ao contrário, indo mesmo pelo asfalto. Achei muito complicado fazer o Caminho inverso já que as setas estão sempre antes dos caminhos e não depois. Para me perder no mato seria fácil. E foi ruim, muito ruim. A única vantagem é que peguei o vento de popa, o que ajudava em muitos pontos. Rodei alguns quilômetros e aí veio a maldição da ponte. Em um post anterior, falei do pânico que tenho em pontes e viadutos. Hoje foram dois. O mapa indicava que havia uma passagem sobre a Autovia, a carretera direta, onde não se pode transitar com bicicletas. A nacional passa por cima e a Autovia, em um vale. Isso significa um viaduto bem longo, muito alto, num corredor de vento. Entrei no viaduto, que era em curva à esquerda, descendo e tinha quase 600 metros. Logo senti o vento, que estava a favor, da esquerda para direita, balançar tudo. E aí veio um caminhão. Ouvi o som e só deu tempo de descer do banco e colocar os pés no chão. O vento que já estava ali mais o deslocamento de ar que o caminhão produziu quando passou a uns 100 por hora balançaram tudo. Tive que fazer muita força para me equilibrar com a bike no chão. A roda da frente chegou a levantar. Pensei que, se estivesse só com a bike, sem carga, o vento teria me levado. Desci da bike e fui andando até a outra ponta da ponte. Veio outro caminhão. A mesma sensação. Imaginei uma bicicleta, alforjes e eu voando para o pasto uns 100 metros abaixo e as vacas vendo algo que nunca haviam visto na vida: um corvo gigante com uma coisa de rodas vindo em direção a elas. Depois que passei o viaduto, fiquei apreensivo e pensando muito se deveria continuar com isso. Deixei os sinais virem. E vieram. Agora na forma de uma ponte, em curva, a uns 80 metros do chão, com um corregozinho que chamam de rio lá em baixo.

Parei antes da ponte e fiquei pensando. Olhei as árvores, a posição dos cataventos e vi que não havia tanto vento. A ponte era em subida. Olhei para a estrada, esperei passar um caminhão passar e fui. Quase no final, veio outro, mas não era baú e os estrago não foi grande. Cheguei do outro lado pensando se haveria mais alguma. Pelo mapa não, pois iria começar a descer. Duas pontes em um dia me fizeram pensar muito. Parece coisa de gente medrosa, mas eu sei diferenciar bem o medo da precaução. Pepê tinha anos de asa delta, sendo campeão mundial e sabia tudo de vôo no Rio de Janeiro. Mas foi o vento que o jogou contra a Pedra da Gávea nos anos 90. Medo na verdade é um lembrete do seu cérebro de que há limites para serem estabelecidos e mantidos ou superados. Mas tudo depende da situação, do benefício e do prazer. Pensei em tudo isso e continuei pedalando.

Passei por Caldas de Reis, onde pensei em ficar. Ali tinha hotel. O próximo, só em Pontevedra, a 23 km dali. Já eram 6 da tarde e o sol a pino. Resolvi continuar. Depois de quase meia hora, percebi que a bike estava rebolando. Olhei o pneu traseiro e estava mais baixo que o normal. Parei e enchi. Continuei. Abaixou de novo. Parei em um bar, bebi uma coca, comi um pintxo e fui trocar a câmara. quando tirei a roda, vi que o eixo estava totalmente empenado. Isso justificava os barulhos que ouvia vindo da roda e ela parecer estar empenada. E o pneu não enchia. Montei tudo e perguntei por um posto. Havia um a 1 km. Andei até lá. Enchi na pressão. Ficou bom. Fui ao banheiro lavar as mãos e bebi uma água. Quando voltei, estava baixo de novo. Pensei que teria que pegar um táxi até Pontevedra. Já eram quase 8 da noite e logo ficaria sem a luz do dia. Andar até lá se mostrava inviável, pois eram 13 km e levaria pelo menos 2h e meia. Então, andei até o pueblo seguinte, parei num bar e perguntei por táxi. A senhora disse que havia dois na praça da cidade. Também havia ali, em cima do bar, uma hospedaje. Eram quartos sem banheiro e, a julgar pela aparência do lugar, deveria ser um lixo. Continuei andando. E nada de táxi. Voltei. O jeito seria me hospedar no pulgão. Antes, entrei no bar e perguntei para o dono se havia táxi ali. Ele disse que àquela hora não, mas que poderia ligar para um deles. Ligou. 13 euros. Pedi para vir.

Fui pra rua, desmontei a bike, coloquei na mala-bike que comprei em Santiago. O táxi chegou. Era uma mulher. Beatriz. Ajudou a colocar tudo no carro, disse para eu ter calma (eu estava com pressa, queria um banho, roupas limpas e comida). Disse que na pressa tudo dá errado. Fomos conversando no carro e em pouco mais de 10 minutos, estava na porta do hotel. Falei com ela que aquele trajeto eu teria feito em pelo menos uma hora, com as subidas da estrada. Rimos um pouco das besteiras que falamos e da colega que ligou no bluetooth do carro. Beatriz tem 2 filhos e dirige o táxi com o marido. Serve a alguns peregrinos. Deixou um cartão e me desejou boa viagem.

Depois desse aranzé todo, fiquei pensando se devo levar a Amelia pro Brasil ou deixá-la aqui. Daqui para frente, serei um turista comum, que pega táxi, ônibus e metrô. Já tenho uma bolsa grande com minhas coisas e o resto que envolve a bike (alforjes, ferramentas e peças). Carregar a mala-bike é mais um trabalho que consome espaço e energia. Vou na loja de bikes e ver se vendo a Amelia. Ou vou esperar algo acontecer que me faça dá-la para alguém. Ou sei lá o quê.

Praza Peregrina, Pontevedra
A graça desse tipo de viagem é que nunca se sabe o que vai acontecer. E fazendo um balanço, foi tudo bem. Nada de ruim aconteceu. Tudo se encaixou no lugar. Se não encaixou foi porque eu dei um jeito de dar errado.

Já consegui minha Compostelana, minha Costa da Morte e tenho toda a emoção e lembranças de um Caminho de Santiago bem sucedido. Colocar outro caminho, ao contrário, numa viagem de turismo é querer muito, não? Então, está encerrada minha temporada de cicloturista nestas férias. Quem sabe não dê umas pedaladas ainda em Barcelona ou na Côte d´Azur ou ainda numa Vélib' em Paris? Está no sangue.
Aos que são entusiastas do Caminho de Santiago e quiserem tirar dúvidas, podem perguntar nos comentários. Gosto de falar do assunto. Aos que me seguiram até aqui e deram força em todos os momentos, agradeço. Foi muito bom ler mensagens de ajuda nesses dias. Aos que sonham, façam! A vida vai-se em poucos minutos. É mais emocionante vê-la passar no alto dos Pirinéus ou numa praia da Espanha.

17.9.12

Depois do Caminho - Finisterre a Noia

10 de abril

Estátua do Velho Pescador - Muros


Acordei tarde, tomei café e vi que no restaurante do hotel havia um quadro com um mapa de relevo em 3D. Tratei de olhar o trajeto Finisterre-Muros-Noia, meu atalho para chegar a Padrón e emendar no Caminho Português, em sentido inverso, para o Porto. Vi que o melhor seria ir pela costa, margeando o litoral.

Voltei para o quarto, pensei 32 segundos e resolvi que iria me mandar. O tempo estava feio, Finisterre estava chato, meu corpo pedia atividade e Amélia estava sozinha na garagem. Preparei os alforjes e meti o pé na estrada. Saí de Finisterre meio-dia, com tempo nublado que se tornou uma chuva fina depois.

Pausa para descanso
A ideia era pedalar até Muros e de lá, conforme a situação, ver o que faria. Se o tempo estivesse ruim, eu cansado ou Muros fosse algo que mexesse comigo, ficaria. Do contrário, ainda teria mais 39 km até Noia. Muros é bonita, com um certo charme, mas a estrada me chamava. Nem eram 5 da tarde, o sol estava a pino, apesar de frio, e eu não estava cansado. Segui em frente. Achei interessante umas setas azuis pelo caminho. Elas dão todas as direções corretas. Imagino que seja o caminho de volta a Santiago que coincide com o que eu fiz hoje até a rotatória da ponte nova antes de Noia.

Parei em uma pequena vila para comer e, depois de beber um chocolate com café, o dono começou a conversar. Perguntou de que parte do Brasil eu era e disse ter namorado uma brasileira quando morou em New York. Disse que tinha muito brasileiro em New Jersey. Eu falei que New Jersey era capital de Governador Valadares e ele concordou. Disse que uma vez fizeram um levantamento e que no ano entraram quase 5 mil padres do Brasil (de Minas) nos EUA, para New Jersey. Eu falei que devia ser uma igreja muito grande. E falou que deveria ser a igreja católica apostólica mineira. Me deu uma tortilla e rimos muito. Depois de reabastecer o estômago e a mente, segui viagem. O tempo estava bom, não chovia mais e o frio tinha ficado lá pela Costa da Morte. Pela estrada via muitos carros com casais de óculos escuros, gola polo e sorrisos propaganda de banco. Paravam em postos de gasolina com conveniência, bebiam e ouviam música alta. Pensei: aqui também tem bobódromo.

Outro bar, em Esteiro. Estava com fome e só achei batata Rufles pra comer. Peguei uma, pedi uma coca-cola e fiquei ali. Paguei a conta e perguntei ao dono se ele tinha alguma tortilla ou bocadillo para eu levar. Ele perguntou aonde eu ia e de onde eu vinha. Depois que falei, me deu três croissants para comer no caminho, uma xícara de café com leite e não quis receber por isso. Disse que era o máximo que podia fazer pra me ajudar pois o bar funcionava apenas à noite e a cozinheira ainda não havia chegado. Saí dali pensando que, enquanto fazia o Caminho, carregava uma vieira no peito e duas na bike, não ganhava as coisas, exceto de Dona Adina, em San Jean, de António e Maria e do S. Amancio, em Castrojeriz. Agora que sou apenas um cicloturista, sem nada que me identifique como peregrino, ganho muito mais.

E nada de Noia chegar. De repente, me vejo em um trevo. As placas separavam Noia do resto do trajeto que eu tinha no mapa. O que eu tinha mandava seguir por Serra de Outes, dar a volta na foz do rio e voltar para Noia. Mas a placa mandava seguir em frente. E eu fui. De repente entendi o que tinha acontecido. O rio Tambre vai se abrindo e chega ao mar, formando uma baía. Nesse ponto, ele tem quase 1 quilômetro de largura. O que a Xunta de Galicia fez? Uma ponte! Chamaram de Ponte do Engano. Ela começa e parece que acabou, mas apenas passa por cima de uma ilhota na foz do Rio e continua mais à frente. Há uma passagem para pedestres e ciclistas na lateral do acostamento, com grades de proteção. E eu tenho pânico de altura em lugares estreitos. No meio da ponte havia um velhinho gordinho. Eu vinha devagar concentrado na coisa e toquei a campainha pra passar. Ele me deu passagem. Parei e perguntei quantos quilômetros faltavam até Noia. Disse que uns 3 ou 3,5 e que não passava disso. Agradeci e o homem continou a falar. E eu querendo sair logo daquela ponte de quase 1 quilômetro. Quando cheguei na outra ponta, me senti aliviado. Já tive muitos sonhos em que caía de pontes sobre a água. E isso me deixa angustiado. Hoje vivi essa experiência novamente. Será que tem algo a ver com Noia?

A ponte da angústia interminável
Agora, depois de 88 quilômetros bem rodados, ganhei um dia do roteiro original que fiz. O objetivo era Muros e, no dia seguinte, Muros-Padrón. Amanhã terei apenas 28 km até Padrón, que já está no Caminho Português, a cerca de 26 km de Santiago. Seguirei o sentido inverso, indo até Pontevedra, terra do Javier, o ciclista sorridente que estava sempre coberto de lama quando nos encontrávamos. Terei tempo de parar em Padrón e ver um pouco da cidade onde, conta a lenda, a barca que trouxe os restos de Tiago atracou. Parece que a pedra em que a barca foi amarrada está no interior da Igreja de Santiago da cidade.

14.9.12

Diário do Caminho de Santiago 2011 - Finisterre

Finisterre - 9 de abril

Finalmente, o km zero, no Cabo de Fisterra

Em galego, diz-se Fisterra o que um dia já foi Finis Terrae, ou fim do mundo. Na Idade Média, acreditava-se que o mundo terminava em determinado lugar e, a partir dali, tudo iria cair num abismo repleto de monstros e feras. O peregrino que vinha de várias partes da Europa, depois de chegar a Santiago, ia conhecer o fim do mundo. Hoje fui conhecer o "fin del mundo".

Do centro da cidade de Finisterra ao Faro, ou Cabo de Fisterra, são 3 km de caminhada por uma estrada asfaltada, beirando a encosta sobre o mar da baía de Cee e o Oceano Atlântico. No fim dessa estrada, chega-se ao farol de Finisterre (o faro). Atrás do farol, que fica a uns 100 metros de altura sobre as pedras, é possível descer quase até o mar e avistar as ondas fortes que batem muito nas pedras. Em alguns pontos, o mar é forte e por isso, o local recebeu o nome de Costa da Morte, devido aos naufrágios de pescadores que bateram nas pedras ou tiveram seus barcos afundados.

Passei do farol, desci um pouco nas pedras e fiz meu pequeno ritual de renovação, jogando ao mar uma das vieiras que trouxe. Essa vieira foi comprada em Santiago, em 1998, por uma amiga do trabalho que sabia do meu entusiasmo pelo Caminho. Então, resolvi trazê-la de volta e devolver ao mar, ficando apenas com a que ganhei na França, no início do Caminho. Também queimei uma camisa que usei na peregrinação e que havia trazido do Brasil. Na verdade, deixei-a sobre uma fogueira que estava quase apagando e ela recomeçou a queimar. Era quase impossível acender algo ali com o vento gelado que soprava forte. Na hora, pensei em tantas situações, sentimentos e lembranças que deixei antes de vir pra cá. Alguns deveriam ficar ali, naquele fogo e sumir na fumaça, com o vento. Outros, eu poderia cultivar e levar pra sempre comigo.

Voltei ao farol, subi na cafeteria e pedi um café. Olhei uns livros e objetos à venda. Só um livro me interessou, mas achei caro. Observei a atendente. Os seus olhos lembravam alguém. Não só os olhos, mas o olhar, o modo de se portar. Na hora, enquanto bebia o café, pensei que achava que tinha deixado sentimentos no fogo, lá nas pedras, mas aqueles olhos estavam ali como nos poemas de Neruda que falavam dos olhos de Matilda. Tratei de andar.

Resolvi voltar pelo Camino de San Guillerme, que vem por cima da montanha. É um caminho de 2 km que vai por cima, quase paralelo ao caminho que peguei para chegar ao farol, mas que dá vista para os dois lados do Cabo. É uma visão espetacular. Fiz uma panorâmica do lugar pois queria que vocês tivessem ideia do que eu via e que me emocionava.

Camino de San Guillerme, com Finisterre à direita, Atlântico à esquerda
O tempo estava nublado, mas imagino que com dia claro seja possível avistar o Cabo Touriñan, o ponto mais ocidental da Espanha. Subi imaginando que estaria ali sozinho, no meio do nada, que poderia ficar nu e andar livremente sem que ninguém me importunasse. Então me lembrei que sobre minha cabeça giravam 10 mil satélites e que a imagem de um peregrino nu estaria na internet no dia seguinte.

Na primeira curva, avisto um cachorro grande. Depois, um carro e uma mulher. Ela estava limpando o interior do carro, com escova e aspirador. Mas logo ali? Na hora pensei que depois que inventaram o motor a combustão e a transmissão de dados, é impossível se estar só no mundo. Dei a volta na montanha e saí numa pequena vila, um bairro de Finisterre. Fiquei um pouco apreensivo. Por ser área de muitas flores e vegetação densa, ouvi muitos zumbidos de abelhas. E, quando entrei na vila de casas de pedra, fiquei imaginando se um cachorro viria me receber de mau humor. Mas só vi mesmo dois tirando sua siesta, me ignorando por completo.

Duas horreas
Aqui na Galícia há algo interessante de ser ver. Na primeira vez que vi, fiquei intrigado querendo saber o que era. São as horreas, casas para guardar madeira de lenha e mantimentos, como na foto. Elas geralmente são feitas de pedra ou madeira, com aberturas laterais e protegidas do vento, da chuva, do frio e da umidade. Ficam suspensas, às vezes a mais de 2 metros do solo. É algo bonito de se ver. Há algumas pequenas, pouco maiores que um rack de TV. E há outras quase do tamanho de uma casa pequena, adornadas com pequenas estátuas, gárgulas, leões, brasões e outros símbolos. Isso vem dos romanos e os galegos as mantém até hoje.

Diz o atendente do hotel que amanhã terá sol. Espero. Quero ir à praia. Como dizem os galegos dali, "existem moitas cousas para se fazerem por acá".
 

13.9.12

Diário do Caminho de Santiago 2011 - 15

Santiago de Compostela a Finisterre - 8 de abril



Praticamente acabaram-se as setas amarelas. Já não há toda a estrutura preparada para o peregrino. Agora é cada um por si e tentar se virar. Encerrou a história de peregrinação. 

Encerrou? Acabei vendo que a coisa não é bem assim.

Saí de Santiago por volta das 11 da manhã, com intenção de ir pela carretera, sem passar pelo trecho que se sugere ser o Caminho. Pensei não haver apoio e seria mais complicado me achar no meio de uma trilha pouco usada ou uma estrada secundária. Então, as estradas asfaltadas e provinciais ou nacionais seriam mais práticas para pedalar. Decidi deixar um pouco de lado o guia de Granados e me virar pelos asfaltos da vida.

Ainda no Centro de Santiago, vi um garoto com uma camisa do Vasco. Parei e perguntei se era brasileiro. Disse que não, mas que tinha estado no Rio e gostou muito. Agradeci e continuei. Lembrei de pessoas do Brasil, vascaínos e vascaínas que conheço. Deu s.a.u.d.a.d.e.

Segui rumo a Noia e Muxia, para depois me encaixar no rumo de Cee, a primeira cidade do litoral, depois das montanhas, sentido Finisterre. O sol estava escaldante. Os termômetros, em algum lugar, indicavam 31 graus, o que é muito para a região e para a carga que estava levando, pois comprei algumas coisas em Santiago e estava pelo menos uns 10 kg mais pesado. Quando via uma bifurcação, tratava de perguntar. Quando estamos de carro, um erro de via pode resultar num desvio de 10, 50 ou mais quilômetros. Isso se resolve em 15 minutos. Em uma bicicleta, dependendo da estrada e da inclinação, isso pode ser resolvido em horas. Depois de um tempo, percebi que as informações estavam desencontradas. Algumas pessoas davam indicações que não batiam. O guia tinha um mapa com apenas os detalhes que interessavam. E eu não quis comprar o gps Garmin que vi numa loja. Depois de um tempo e muito suor, vendo que a cidade indicada não chegava, resolvi parar numa gasolinera e comprar um mapa. Achei um posto numa cidade de nome “Antes”. Sugestões do Caminho...

Abri o mapa em cima da bike e um tratorista parou para colocar diesel. Perguntou se eu precisava de ajuda. Eu disse que estava indo para Fisterre e que achava estar fora da rota. Enquanto eu ia marcando com a caneta onde estava, ele me disse que o Caminho de Santiago passava mais abaixo. Eu disse que tinha vindo pela carretera por conta da carga que estava levando e uma estrada de terra e pedra não seria boa no momento. Então ele me explicou como deveria ir para chegara a Cee. Agradeci e voltei pro mapa. Eu estava me afastando para o norte e não indo para o oeste, como deveria. Isso me custou quase uma hora e uns quilômetros de mais subidas. Estava de um lado de um lago bem grande, o Embalse da Fervenza, quando deveria estar do outro lado. Mas para atravessá-lo, teria que ir até o final, pegar uma estrada menor, secundária, e sair na cidade de Olveiroa, que faz parte do Caminho. Fazer o quê? Ficar se lamentando não iria mudar o mundo. Então, é empurrar o pedal e suar mais um pouco.

Depois de quase uma hora, chego a Olveiroa, com vento contra, cachorros me dando sustos, carros e caminhões no meu encalço. Eis que vejo uma seta amarela. E um totem com a concha. A seta mandava entrar no pueblo. E outras setas levavam a dois bares e um albergue. Deixei a intuição me levar pro bar que seria o ideal. Quando parei, havia alguns peregrinos lanchando. Entrei e pedi uma água com gás. A atendente respondeu com certo sotaque e perguntei: é brasileira?

Luciana tem vinte e poucos anos, goiana, tendo ido parar na Espanha por conta das irmãs que moram lá. Está há três anos e disse ir visitar o Brasil em "rúlio". Todo mundo vai perdendo o jeito brasileiro de falar por aqui. Bebi minhas 3 águas com gás, um café, conversei um pouco com Luciana e com o sujeito que estava no balcão e tratei de ir. Antes, olhei o mapa e o guia e resolvi seguir as setas.

As setas me levaram para uma estrada de terra e pedra, como a que eu não queria passar. Em determinado momento, quase caí, empurrando a bike. Era muito inclinado, o tênis novo escorregava e parecia que ia virar a bicicleta. Suava muito. Então, comecei a me lembrar de coisas. Lembrei-me de dona Pastora, a hospedeira de Santiago, que falou muita coisa da bíblia. Lembrei-me também de algumas passagens do livro sagrado dos cristãos e uma em especial me despertou interesse ali, no meio das montanhas da Galícia, suando em bicas, com dores nas panturrilhas e atento para não perder as setas e me perder no meio do nada: a estrada larga e tranquila leva à perdição e o caminho duro e estreito leva à salvação. Eu havia ignorado o caminho difícil e ido pelo mais "fácil", que se mostrou não tão fácil. Agora estava ali no meio do sofrimento, com pedras, terra, sol e fazendo força, mas estava no Caminho certo. Na hora, pensei que essa coisa de peregrinação não havia terminado. E que essa coisa de peregrinação não termina nunca. Sempre haverá mais de um caminho, sempre haverá sinais, sempre haverá sofrimento, mas quando há certeza de se estar no caminho mais correto, há tranquilidade. E foi o que senti. Então me lembrei do salmo 23, da bíblia cristã e o recitei em voz alta. Logo em seguida, depois de uma curva, surge uma visão espetacular, que uma fotografia não capta, por melhor que seja a câmera:

Rio Xallas - Olveiroa/Galícia

O som das águas me dizia que estava perto de uma corredeira e que pela localização no mapa, em breve estaria na nascente do rio. Foi um momento de muita tranquilidade. Na hora pensei apenas em pedalar e seguir as setas. O resto se resolveria por si mesmo. Ainda teria umas 4 horas de luz do dia e os totens do Caminho marcavam pouco mais de 30 km até o final. Cheguei a uma localidade chamada Hospital, que seria o ponto mais alto antes da descida para o oceano.

Hospital, a poucos km de Fisterre
Em pouco mais de uma hora estava descendo a serra que me levou a Cee, 17 km de Fisterre. Descida alucinada. Se deixasse, Amelia iria a mais de 60 por hora, mas segurei pois os freios já não estavam 100% e havia curvas fechadas e muito inclinadas, sem acostamento. Parei na entrada da cidade e tirei o guia. Estava lendo e bebia água. Então, parou um Audi mais antigo com um senhor dentro:
- Adonde vás, hombre?
- Fisterre, señor.
- Venga!

O homem me guiou por uns quilômetros, até o porto de Cee, ao lado da baía da cidade. Parava o carro no final das subidas pra me esperar e ficava acenando com a mão. Quando chegamos a Cee, ele desceu do carro, me cumprimentou, conversamos uns minutos, ele me falou que conhece Copacabana, caipirinhas e “brasileñas” e me desejou suerte. Como falei antes, o Caminho não termina.

Baía entre Cee e Corcubión
Passei por Cee e tive vontade de ficar. Lugarzinho maravilhoso! Fisterre está logo ali, do outro lado, mas tem que se dar a volta pelo cabo e isso faz com que ainda houvesse 17 quilômetros (e mais subida) me esperando. Peguei a estrada de Fisterre e cheguei ao fim do mundo. É um lugar muito bonito. Lembra um pouco Arraial do Cabo, no Rio. O Oceano Atlântico ao fundo e as pequenas praias me alegraram bastante, pessoa que gosta do mar.

Vou ficar aqui no final de semana e depois sigo para Portugal. Estou com um livro do Caminho Português e penso em fazê-lo ao contrário, até Oporto, como dizem na Galícia. Seriam mais quatro dias de pedal, margeando a costa norte portuguesa e passando por algumas cidades pequenas. Ainda não decidi. Daqui a pouco vou até o Cabo Fisterre, onde tem o farol e o local do ritual que falei antes. Quero ver o que é estar num penhasco, à beira do Fim do Mundo.