17.10.12

Ideias e projetos

O povo do cicloturismo chama viagem de projeto. Eu penso em uma ideia e imagino uma viagem. Esta viagem torna-se um projeto no papel, no computador, com valores, distâncias, datas, altitudes e horários. Mas quando coloco a bike na estrada e saio deixa de ser projeto e vira diversão. Algumas ideias pululam na minha mente e quero colocá-las em prática antes dos 50 anos. Uma delas é a Volta na França.

Semana passada, em uma padaria de Itajaí, enquanto tomava um café e comia um sanduíche, folheei uma revista disponível para leitura e vi uma matéria sobre a 18 Vélo Vintage. Em 2011, antes do Caminho de Santiago, estive em Paris por 2 dias. Fiquei hospedado no Ibis Montmartre. Olhando a matéria, descobri que a loja de bikes fica na mesma rua do hotel. A 18 Vélo Vintage é uma pequena oficina/loja de dois sócios que resolveram vender suas bikes reformadas ou restauradas. Eles saem pelo interior do país em busca de bikes antigas, reformam/restauram e vendem.

Mas e a minha ideia, meu projeto?

Cote d'Azur
Quando estive em Saint-Jean-Pied-de-Port, ponto de partida do Caminho Francês, pensei que um dia poderia dar a volta pela França, pedalando. Aliás, inicialmente eu pensei em sair de Paris e pedalar até Santiago, mas não havia tempo hábil. Lendo a matéria, olhando as bikes, pensei: por que não fazer uma volta na França em uma bike vintage? O trajeto que pensei sai de Paris, dirige-se aos Pirineus, passando por Nantes, Bourdeaux, Toulouse, Montpellier, Cote d'Azur, dá uma entradinha na Itália, pois quero conhecer a cidade de Lauriano, subindo até Dijon, Strasbourg, norte do país e retorno a Paris. É algo em torno de 3.700 km. Precisaria de pelo menos 50 dias para parar em cidades, curtir a culinária, os vinhos e visitar museus e outros atrativos.

A ideia está na cabeça, o projeto começa a ir para o papel e, tendo patrocínio e férias sobrando, quero fazer em 2013.

O traçado da viagem

14.10.12

Itapema Drift Trike



Ontem, antes de viajar, conheci o Fisher, do Itapema Drift Trike. Ele estava com a bike no carro e aproveitei pra dar uns cavalos de pau na avenida empurrado pelo Bozo.


Quando criança, no Rio, havia os carrinhos de rolimã que desciam ladeiras. Eu tinha um par de patins e saltava em uma rampa construída por mim e pelo Fábio Pastel. Era muito suor, sangue, adrenalina e diversão. Depois passei para a Caloi Cross Extralight, como a da foto, e gostava de descer as ladeiras do Jardim Guanabara derrapando na roda traseira. Dia de chuva era o melhor. Também havia a calçada lisa de uma casa na Lélio de Souza. No final da manhã, era só listra de marca de pneu riscada no piso. Bons tempos os de deslizar pelo asfalto (nem sempre em cima da bike). 


O Drift Trike é uma modalidade em que a pessoa senta em um triciclo, geralmente com as rodas traseiras forradas por um tubo de PVC para poder derrapar, e desce ladeiras, morros ou tudo que dê velocidade. A graça da coisa é mexer a cadeira e o guidão e fazer a bike derrapar. Ou desenvolver a maior velocidade possível - o que se torna difícil justamente pela facilidade de derrapagem. Conhecer o Fisher e sua bike foi bom para relembrar aqueles tempos divertidos quando a maior preocupação era chegar lá em cima e descer na toda.

Quem passou naquela hora na avenida e viu dois caras de mais de 1,80m empurrando um triciclo que parecia de criança e dando cavalo de pau no meio da rua ficava sem entender muita coisa quando o povo gritava.

Será que um dia serei adulto? =)

9.10.12

Vale Europeu - último dia: Alto Cedros - Palmeiras - Timbó

Acordamos no chalezinho alugado pelo Raulino bem cedo, pouco depois das 6. O café da manhã já estava pronto. Pegamos algumas recomendações, preparamos sanduíches para mais tarde e fomos para a travessia de bote.

A travessia para a estrada
Raulino transporta seus hóspedes até um ponto próximo ao Hotel Parador, lugar de início do sexto dia. A canoa maior não estava na beira da água e tivemos que fazer duas viagens. Primeiro foi o Ari e fiquei esperando. Depois seguimos, Raulino, Amelia e eu. Como o nível da água estava muito mais baixo que o normal, só dá pra atravessar com remo e, uma vez na beira, tem que se empurrar a bike até a estrada. Foi o que aconteceu. Mas correu tudo tranquilamente. Com pouca água na barragem, algumas remadas são suficientes até a margem oposto. Bicicletas na estrada, nos despedimos do nosso anfitrião e seguimos para mais um dia cheio de incertezas e dúvidas. Para quem pretende ficar em Alto Cedros, é extremamente recomendável telefonar para o Raulino e fazer a reserva. O telefone é o (47) 3057-5581. Em Alto Cedros, o celular não pega. Portanto, ligue quando estiver em Rodeio ou Doutor Pedrinho para garantir. Do contrário, poderá ficar em situação delicada.

Chegando na Barragem Rio Bonito, Palmeiras
O sexto dia segue com algumas subidas e poucas descidas. Sobe-se bastante, mas nada acentuado ou difícil. Apenas é necessário um pouco mais de preparo físico, paciência e, como já disse antes, uma 34. A paisagem não é tão bela quanto diz o guia. Achei um pouco cansativa, com poucas casas, vegetação abundante, mas sem muita variedade. E o sol estava castigando os miolos. Às 10 da manhã, o protetor solar já não fazia tanto efeito. Até se chegar nos portais da fazenda Custódio Bona, o corpo vai sofrer um bocado. Tenha paciência e disposição. Depois do portal, começa uma descida para Palmeiras. Há um ponto onde a descida torna-se bem acentuada. Quase no final, antes de uma curva, há um pequeno santuário com queda d´água sob uma marquise de pedra. É um ótimo lugar para parar, refrescar a cabeça na água gelada e rezar, se for o caso. 

Mais uns minutos e é possível avistar a barragem Rio Bonito. Após a descida, há uma entrada à esquerda com algumas casas. Não se engane, é mais para frente, seguindo pela direita. Pedale por mais uns quilômetros e quando chegar no calçamento, o mercado do Faustino estará à esquerda. Ali é Palmeiras. Quem nos atendeu foi o Leonardo, sujeito muito prestativo e atencioso. Ele nos explicou a questão de não receber mais hóspedes: o hotel está desativado. Mas disse que, após a reforma que pretende fazer, vai receber novamente viajantes e ciclistas. Perguntamos como fazer para conseguir hospedagem e ele nos desanimou.

No final das contas nos restavam 3 opções:
1) pedalar até Cedro Alto pelo circuito e dali desviar até o Centro de Rio dos Cedros para dormir, voltando ao circuito no dia seguinte, pela subida-monstro de Rio Cunha;
2) fazer todo o sétimo dia dali pra frente, opção descartada por ser muito dura por conta justamente da subida monstro e do tempo que despenderia - já eram quase 3 da tarde;
3) acatar a sugestão de Leonardo: pedalar direto pela estrada geral sem seguir a seta que desvia para o circuito e chegar até Timbó finalizando a viagem.

Parênteses para críticas
Comentamos com algumas pessoas sobre o estado da sinalização e sobre a falta de atualização das informações, e muitos concordaram que a situação já foi melhor. Fica um alô para o pessoal do turismo da região: há muito o que melhorar no quesito informação. O guia está desatualizado, principalmente na parte alta, nem tudo coincide com o descrito e algumas placas sumiram. Raulino confirmou a mesma coisa com a placa que existia há um tempo no final da descida da Pedra Branca. Algumas placas simplesmente não têm mais o texto ou a seta, pois o tempo apagou tudo. É desanimador chegar em um ponto e não se saber para onde ir. Quem não usa agências de turismo fica um pouco à mercê da sorte. Além disso, um bom guia é escrito por quem fez o trajeto, sem ser necessário o uso de floreamentos e figuras de estilo. O que o ciclista ou o caminhante querem é informação técnica e precisa. Um bom guia foge dos padrões "guia de turismo" com texto para atrair clientes. O ciclista ou mochileiro já está no circuito e não precisa ser convencido de ir ou de que há "águas cristalinas" e "campos verdejantes". Ele já está lá. Se alguém pensar nisso, talvez muita coisa possa melhorar. Fica a sugestão.
Pronto, falei!

Ponte coberta, Rio Milanês, na estrada geral
Diante de toda essa confusão, foi mais seguro seguir o conselho do Leonardo e finalizar a viagem. Aliás, a paisagem da estrada geral é bem bonita e esta cruza o trajeto original em dois pontos, além de ser uma descida alucinante, acompanhando o rio e passando por lugares bem agradáveis, com mais comércio e gente.Algo curioso aconteceu neste trecho. Estava subindo uma pequena ladeira entre os trechos de descida e um carro encostou ao lado da bicicleta. O motorista cumprimentou e perguntou se eu estava fazendo o Vale Europeu. Disse que sim, mas já estava voltando para Timbó. Ele queria confirmar pois pensou que estávamos fora do circuito original. Achei bem educado da parte dele mostrar esta preocupação. Agradeci e o carro seguiu. Olhei no vidro traseiro e a foto do motorista estava estampada. Era candidato a vice de alguma prefeitura.

Timbó
Em pouco menos de uma hora, chegamos a Rio dos Cedros e seu calçamento de matar qualquer glúteo. Paramos em uma padaria para um café e foi engraçado ver a cara da dona quando viu dois mulambos com o cabelo amarelo de poeira, a cara toda queimada de sol e as roupas imundas. O café estava bom e deu pra descansar um pouco do calor de verão que fazia. Com alguns quilômetros a mais de asfalto, estávamos dentro de Timbó, no mesmo ponto onde tudo começou, há 5 dias. O café e a vontade de chegar logo me deram energia extra e pedalei forte até a entrada da cidade. Parte da Avenida Getúlio Vargas estava fechada, enfeitada com bandeiras, aguardando o resultado das eleições. A cidade estava em festa. 

Mais um roteiro completo, mais uma viagem vencida e a alegria de ter superado tantos obstáculos. Para quem quer se aventurar neste circuito, recomendo fazer. Apesar das dificuldades, vale a pena. Prepare-se, tenha fé, faça as reservas e soque a bota. É recompensador.

Daqui a uns dias farei um post com mais detalhes e informações que colhi nestes dias que vivi nestas belas montanhas. Espero que sejam úteis.

Bom pedal a todos!
Ultreya!

O ponto zero do sexto dia - a placa já era!





8.10.12

Vale Europeu - 4° dia: Doutor Pedrinho - Alto Cedros

Doutor Pedrinho é uma cidade muito, mas muito pequena. Com pouco menos de 4 mil habitantes, tem a hospitalidade já falada por aqui e mulheres bonitas. O Hotel Cristofolini é bem simples e tem boa hospitalidade. O Oscar atende com toda presteza e dá dicas de tudo o que se precise.

Saímos de Doutor Pedrinho 8 horas e pegamos o caminho errado. Na parte alta do trajeto, a sinalização começa a ficar precária e já se percebe o abandono do local. Como ouvi de um dono de restaurante, o (des)interesse político de uns faz a coisa não acontecer. Mas isso será assunto para o post final.

Partindo do ponto de término do dia anterior, seguimos sentido Cachoeira Véu de Noiva. Depois de um quilômetro pedalado, vimos que os pontos não batiam com a planilha. Resolvemos voltar. Descobrimos que estávamos no trajeto errado. O correto é cruzar a ponte ao lado da prefeitura, passar em frente a ela e seguir até o final da avenida. Logo depois do posto de gasolina, dobrar à direita e atravessar a ponte. Novamente direita e seguimos sentido cachoeira. Na verdade, a estrada segue paralela à primeira que pegamos, com arrozais no meio. Lá na frente elas se encontram. O trajeto passa ao largo de plantações de arroz e depois entra em bosques de pinheiros, praticamente plano por 10 km. Logo em seguida surge uma subida, a do Rio Lima até o Rio Palmito. Estas são um pouco mais duras, mas nada muito assustador.

A vegetação começa a mudar, tornando-se um pouco mais densa, passando entre bosques, ora de pinheiros, ora de eucaliptos, com algumas araucárias. A extração de madeira é forte nessa região e é comum encontrarmos tratores colocando toras em caminhões ou pilhas de toras aguardando para serem recolhidas. Logo chegamos na divisa de cidades - Doutor Pedrinho/Rio dos Cedros. Os dois últimos dias serão praticamente dentro do município de Rio dos Cedros, serpenteando as montanhas, com um sobe-e-desce infinito. Prepare as pernas e, mais uma vez, fica a dica preciosa: catraca 34! Lembre-se disso!

A região é bem isolada. Vimos algumas casas abandonadas ou vazias que devem servir para veraneio. A maioria das propriedades é de cultivo de árvores para corte. Sinceramente não achei a paisagem tão deslumbrante como descrevem. É um pouco cansativo. O terreno é bem irregular, com muita pedra e lama graças à umidade dos bosques e ao deslocamento dos tratores da extração. Até chegar à Pedra Branca, será praticamente essa pulação de pedras, lama e, quando paramos para lanchar, descansar ou beber água, borrachudos. Muitos! Portanto, leve repelente e filtro solar. Serão extremamente necessários.

Barragem do Pinhal, Alto Cedros, lá em baixo
Já no final desse tormento de pedras, lama, subidas, descidas e borrachudos, finalmente começamos a descida da serra para o Alto Cedros, onde há uma barragem imensa, a Barragem do Pinhal. É uma região de veraneio, com casas em volta do imenso lago e pouca infraestrutura. Vá preparado. Ao chegar em Alto Cedros, a estrada abre em duas vias, direita e esquerda. A seta amarela no poste manda ir para a esquerda. E fomos. E nos demos mal. Dali até o final do loteamento são mais ou menos 6 km no sobe e desce cansativo. Chegando lá, quase no Hotel Parador da Montanha, descobrimos que praticamente não havia viva alma por ali. Parei em frente a uma casa com três pessoas conversando e acabei sabendo, através da Dona Marlene, que o local para onde deveria ir ficava do outro lado da barragem. Ou seja, voltando 6 quilômetros e pedalando mais um pouquinho. Dona Marlene nos levou até sua casa e se prontificou a telefonar para o Raulino, a pessoa indicada no guia para nos dar pernoite e refeições. O telefone dele não atendia. Nos vimos em uma enrascada: eram mais de 2 da tarde, o sol estava cansando, o trajeto de serra com pedras e lama nos havia extenuado a mente e o moral da tropa estava abalado. Tínhamos poucas alternativas: entrar no 7° dia, quase sem água, sem comida e com pelo menos 30 km adiante e poucas horas para fazê-lo; ir até o outro lado da barragem, procurar a "feirinha" para comprar água e algo para comer; encontrar o Bar do Mendes, onde teria uma mercearia e ali perguntar sobre lugar para pousar; seguir até Palmeiras (distante 12 km do Bar do Mendes), pulando o 6° dia; no caso de dar tudo errado, voltar ao loteamento e ficar na casa do José, um dos três que estavam conversando e que nos ofereceu hospedagem se fosse necessário. Decidimos seguir para a "feirinha".

Quando vir essa pedra, vire à direita!
Seis quilômetros depois, achamos a feirinha. É uma casa com produtos de fabricação local, como queijos, vinho, sucos, pães e outros. Fomos atendidos pela Dona Carmen, com seu sotaque carregado e simpatia extrema. Tentei convencê-la a voltar a andar de bicicleta, pois disse que caiu uma vez e não quer mais saber. Rimos um pouco, falamos da vida e pude comprar água e guaraná (estupidamente gelados, pra minha alegria). Sentei no ponto de ônibus. Ari e eu fizemos um lanche com os pães, queijo e salame que compramos no supermercado em Doutor Pedrinho. Dali seguimos para o Bar do Mendes, que fica alguns metros depois. Aí a coisa começa a ficar divertida.

Havia ali uns cinco homens bebendo. Quando falo bebendo é que devem ter começando quando Ari e eu saímos de Doutor Pedrinho. A tarde já ia forte e todos falavam ao mesmo tempo. Um deles disse que teríamos a pousada ao lado como alternativa, mas era muito cara e que o ideal seria pedalar até Palmeiras e ficar lá, onde havia um hotel. Cinco homens falando alto ao mesmo tempo, rindo e fazendo piada de si mesmos era cômico. Fiquei olhando e esperando surgir uma solução. Aí um deles, que não me lembro do nome, saiu do bar e veio na rua apontar a direção que seguiríamos. Falou que não tinha erro. Eu disse que faria o recomendado e que, na verdade, estava procurando o Raulino, mas o telefone não atendia. O homem ia apontar para a pousada quando viu o fusquinha azul vindo pela estrada. Era o Raulino. Que gritaria! Foi a hora mais engraçada do dia. O homem foi pro meio da pista e parou o carro do Raulino para eu tratar de hospedagem. O problema estava resolvido. Se eu não tivesse dado papo para bebedores como sempre faço, teria sido aquela cena de filme: eu e Ari passando pelo fusquinha azul e Raulino indo para casa. O problema vai para um lado, a solução para o outro e ambos se cruzam na cena. E o espectador lamentando no sofá.

Raulino tem a minha idade e mora em Alto Cedros desde os 2 anos de idade. Ou seja, conhece tudo. Recebe ciclistas em sua casa ou os hospeda em casas de aluguel no entorno. Disse para seguirmos seu carro até sua casa e que nos esperaria nas bifurcações. Então fomos. Era o que tínhamos no momento. A casa do Raulino fica mais ou menos na altura do loteamento de onde viemos, 5 quilômetros depois, só que do outro lado da barragem. Quando ciclistas vão a Alto Cedros, fazem reserva com dias de antecedência e Raulino vai buscar em um ponto, às margens da barragem atravessando o lago com alguns metros em seu pequeno barco a motor. Só que os dois aqui não reservaram nada, contaram com a sorte (que sempre está do lado dos tranquilos). Suamos muito para chegar na casa, mas valeu. Raulino e sua família nos receberam muito bem e ficamos em uma das casas de aluguel.

Conversamos por quase uma hora enquanto jantávamos e Raulino nos explicou como anda a situação do local, de Palmeiras e do restante do Circuito, parte alta. Em Palmeiras havia o hotel do Faustino, mas não está mais funcionando. Há uma pessoa chamada Duda que tem um chalé e aluga para ciclistas. Mas, sendo final de semana de eleições, ninguém estaria disponível. Raulino ligou paga Palmeiras para saber o que estaria disponível e nenhum local poderia nos receber. Ou seja, se tivéssemos ido para Palmeiras, nos veríamos em uma situação muito difícil: sem água, sem comida, já à noite e sem local para dormir. Os bêbados salvaram nossa pele!

Naquela noite, fui dormir cedo, pois o estresse do dia tinha me minado as forças. Antes das 9 já estava na cama. Ari e eu conversamos sobre as alternativas do domingo. Teríamos que ir a Palmeiras, fazendo o 6° dia do circuito, nosso 5° dia, achar uma zona eleitoral para justificar o voto, comprar água, achar um local que servisse comida ou lanche, saber se realmente não havia hospedagem e, se fosse o caso, seguir viagem, entrando no 7° dia até Cedro Alto, 6 km antes do Centro de Rio dos Cedros para poder achar hotel e dormir. O restante do 7° dia seria feito na segunda-feira, voltando a Cedro Alto, ponto onde teríamos parado no domingo, para dali fazer o Rio Cunha e seguir até Timbó pelo traçado original.

O sono veio e uma solução surgiria durante o domingo. Deixe o caminho te dar as respostas.

O dia seguinte prometia...



6.10.12

Vale Europeu - 3° dia: Rodeio - Doutor Pedrinho

Alto do Ipiranga, Rodeio
O dia foi de subidas e vales. E vale quer dizer descida alucinante seguida de subida entendiante.

Dormimos no Cama & Café Stolf. O lugar é excelente, casa de Seu Dante e Dona Irene. Fomos muito bem recebidos quando chegamos. Seu Dante tratou de providenciar uma mangueira com jato de água para lavarmos as bikes e bolsas. De manhã, um café da manhã excelente com ovos das galinhas criadas no quintal e pão caseiro. Ainda recomendaram fazer sanduíche para levar com frutas pois o dia é mais isolado que os demais. Saímos de Rodeio 8 horas em ponto para encararmos os 8,5 km de serra até o alto do bairro Ipiranga. Recomendo fazer reserva antes para que eles se preparem e sirvam o que há de melhor em hospitalidade italiana da região.

Pequeno Paraíso
O pedal começa com a subida leve que vai ficando mais acentuada até se chegar ao Picol Paradis, a famosa série de anjos, hortênsias e beleza construída pelo Sr. Pedro Notari. Não o vi por lá, mas deu pra passar alguns momentos de descanso ao pé do Cristo Redentor criado por ele. Algumas centenas de metros antes já começam a surgir os anjos. As hortênsias foram bem poucas pois florescem no final da primavera e começo do verão. As que podiam se ver eram bem poucas em meio às queimadas pelo frio e geada. O Pequeno Paraíso é um conjunto de poucas casas com estátuas de anjos, todas iguais. Não sei a quantidade, mas há muitos deles espalhados por vários pontos. Mais à frente, há uma pequena igreja, a de Nossa Senhora de Lourdes, com inscrição em francês em uma pequena pintura acima da porta. Este ponto é bom para um descanso enquanto se aprecia todos aqueles anjos em meio ao verde da mata e aos gramados bem cuidados da propriedade. É bom que se descanse, pois a pior parte vem em seguida. Dali ainda faltam uns cinco quilômetros de subida e subida forte, de ter que empurrar a bike e sentir a panturrilha arder.

Levamos praticamente 3 horas para subir e, chegando no topo, pegamos uma chuva bem leve e gelada. Uma dica dada pelo Seu Dante, de Rodeio, foi encher as garrafas com água de uma fonte em uma biquinha na beira da estrada. Na verdade, a biquinha é um cano branco que sai do barranco ao lado esquerdo do caminho, logo depois da casa da foto maior lá em cima. Não há qualquer sinalização. Mas, ao avistar esta fonte, pode parar, encher a caramanhola, beber a água gelada e pedalar mais 100 metros. Chegou-se ao topo. Há um pequeno platô em frente a uma casa. Dali, em dias de céu claro, pode-se ver toda a região ao redor. Pare, relaxe, estique-se, coma alguma coisa e depois siga por uma descida alucinada de uns 5 minutos com curvas fechadas e inclinação considerável. Se passar dos 45 por hora não estranhe. Só não vá derrapar e cair nas pedras. 

Depois desse pequeno downhill, a estrada vai serpenteando propriedades, bosques de pinheiros e começam a surgir as madeireiras. São várias pela estrada. Não espere encontrar comércio ou locais para comprar alguma coisa pois não há. Somente perto do km 20 do guia é que encontramos uma pequena "venda" com água gelada e coisas para comprar. Como já estava na hora do "almoço", os sanduíches de Dona Irene caíram muito bem. Dali pra frente, subidas e descidas são algo bem comum.  A coisa vai bem chata até se chegar ao Salto Donner, pouco antes de Doutor Pedrinho. Há uma subida monstro até o bairro. Depois disso, um pouco de descida. Quando se chegar aos campos de arrozal, basta mais uns 3 km para o destino final. 

Em algum ponto da estrada, há um pequeno desvio (200 metros) para se visitar a única igreja em estilo enxaimel do Brasil. Esta igreja é luterana, como boa parte das que vi por estes dias. A melhor visão que se tem dela é do alto da subida após cruzar o rio e subir para o outro lado do morro. Se o dia estiver chuvoso ou tiver chovido antes, a quantidade de lama será absurda. É tanta lama que a bike do Ari quase não andava mais. Ficou pesada com o barro agarrando tudo. E esse barro seca bem rápido, parecendo um tijolo. Tivemos que parar e mexer nisso com chave de fenda pra soltar o grosso das partes móveis. 

Chegamos em Doutor Pedrinho. A cidade é bem pequena, praticamente com 2 ruas, tem pouco mais de 3 mil habitantes e é mais fria que as que visitamos nos últimos dias. Fiquei curioso com o nome e descobri que Doutor Pedrinho foi pai do governador Aderbal Ramos e este foi sobrinho de Nereu Ramos e Celso Ramos, nomes famosos no estado. Chegamos cedo, antes das 3 da tarde. Há uma confeitaria pequena e bem bonita logo na entrada da cidade, a alguns metros da prefeitura e ao lado dos Correios. Peça uma fatia de torta das várias que estão na vitrine, sente na mesa de pedra do lado de fora e aprecie o "movimento" da cidade. 

As bikes precisavam de um trato. Recomendaram o único lugar onde se conserta bicicleta na cidade: a "lojinha" do Jerônimo (que tem um apelido que não lembro, acho que Luni, Loni). Ele deu uma limpeza e lubrificação caprichadas no equipamento e a bike parecia nova! Total do serviço: 5 reais! Quase inacreditável. Pronto. Agora é curtir Doutor Pedrinho até amanhã, dia de pedal mais isolado por entre represas, propriedades e um pouco mais de barro. 

4.10.12

Vale Europeu - 2° dia: Pomerode - Indaial - Rodeio

Esta foto ilustra bem como foi o dia de hoje:


O dia começou cedo, pouco antes das 7. O café da manhã da Pousada Max estava muito bom. Com a chuva fraca lá fora, montamos as bikes e seguimos pela ciclovia até o ponto de início do 2° dia, a 3,5 km do Centro de Pomerode.

Pomerode é uma cidade interessante. Praticamente todos são descendentes de alemães. Os cartazes da política mostram os nomes complexos e os rostos bem característicos. Aí vem a ideia de que todos são fechados e andam de cara amarrada. Pelo contrário: em todos os estabelecimentos onde estivemos, em todos os pedidos de informação e em qualquer contato com locais, fomos muito bem tratados, com muita educação, atenção e sorrisos. Não sei se isso se deve ao efeito bicicleta. Mas causou uma ótima impressão. Pouco antes de entrar na "estrada de chão", parei em uma pequena mercearia para comprar água e fui muito bem recebido pela senhora que atendia. Quando saí, comentei com o Ari que é algo bem diferente do modo como sou tratado nos grandes centros, repletos de "cultura", "gente civilizada" e com "alto nível de educação". Na verdade, todos vivem morrendo de medo de tudo e acabam se tornando pessoas secas, amargas e desconfiadas. Fazer o quê, né?

Subida para o Wunderwald
As paisagens de hoje foram muito mais belas, o trajeto muito mais agradável e o contato com as pessoas mais interessante. Saindo de Pomerode rumo Indaial (o segundo dia do Circuito), sobe-se uma serra pelo bairro de Wunderwald. As paisagens são como a foto ao lado. Em muitos lugares dá vontade de parar e ficar por ali. Comentei com Ari que a câmera não consegue captar o que vimos. Além dos sons, dos cheiros, das texturas, umidade e luz, só mesmo o corpo humano consegue sentir o local. É algo quase inexplicável e bem pessoal. Em determinado momento, paramos para comer uns cereais e comentei o que deveria significar wunderwald em alemão. Imaginei ser algo como Bela Vista ou algo semelhante. Há pouco descobri tratar-se de "bela floresta". Em uma parte da subida, mais para o final, paramos para identificar um som diferente. Ari falou que eram bugios. Minutos depois sobe um colono com suas enxadas e facão e resolvi perguntar. Ele confirmou: bugios. Os gritos dos bugios mostram ao grupo quem é o líder. Brinquei com Ar que o bugio gritão era o macho alfa do grupo. Daí fomos conversando e discorrendo sobre a necessidade que os homens têm em explorar, em descobrir e "caçar". Isto, em parte, diferencia os alfa dos beta, os que procuram algo, dos habitantes de sofá e programas de tv. No final das contas, senti que eu queria estar exatamente ali, com chuva, frio, suado, enlameado e feliz.

Pouco depois paramos em uma cancha de bocha que fica no meio da serra. Conhecemos Sigfried, dono da cancha. Não muito diferente de outros, mal fala português. Conversamos um pouco e ele falou da rotina da cancha, dos campeonatos e dos momentos de diversão que os sócios têm, a grande maioria colonos e moradores do alto. Fiquei imaginando aquela cancha numa quinta ou sexta à noite, repleta de alemães bebendo cerveja, rindo alto e conversando em sua língua materna. Algo foi interessante de observar. Perguntei a Sigfried se os sócios levavam família nos encontros. Ele disse que quase não ia gente além dos sócios jogadores. Pouco antes, mais para baixo, nos deparamos com cena interessante. Passamos por uma casa de madeira bem simples. Um cachorro atravessou a estrada latindo e foi para dentro do terreno. Uns segundos depois, descia uma senhora com um fardo de folhas de bananeira dos ombros. A senhora estava com roupas bem sujas e rotas, um cigarro de palha no dedo e mal dava pra ver seu rosto que se escondia dentro das folhas. Subimos mais um pouco e ela voltava, já sem o fardo. Trazia na mão uma foice e fumava seu cigarro de palha. Ela ia passando e eu fiquei olhando para o seu rosto bem castigado, suas roupas rotas de trabalho e o lenço na cabeça. Ela manteve o olhar para o chão até que eu falei "bom dia". Ela respondeu bem baixinho, abaixou a cabeça e continuou. Pensei no motivo daquela discrição toda. Comentei com Ari e ele falou o mesmo que pensei: pelo fato de ser mulher, em sua cultura, não deve se dirigir a um homem. Caso eu não tivesse falado nada, ela passaria sem olhar para frente ou falar qualquer coisa. Sigfried confirmou isso, mesmo de maneira velada, em nossa conversa. A mulher tem uma posição diferente da nossa ideia ocidental contemporânea. Bebemos uma coca-cola que achei por bem comprar para ajudar o negócio do alemão tão atencioso e prestativo. Nos despedimos, desejamos boa sorte no campeonato que se desenrolava (sua cancha estava em primeiro) e seguimos na chuva.

Chegando em Indaial
Depois da descida alucinante (estreei o suporte de câmera que comprei para o guidão e fiz um vídeo que publicarei logo) a mais de 30 por hora, estamos chegando a Indaial, pelo bairro da Mulde. Do outro lado do rio já se pode ver a torre da igreja. Indaial seria o final do segundo dia do Circuito. Porém combinamos de emendar o segundo dia com o terceito, fazendo Indaial a Rodeio na parte da tarde. Como era pouco mais de 13 horas, daria para fazer um lanche, descansar um pouco e seguir viagem. O trecho do terceiro dia é curto e praticamente plano, 26 km. Paramos em uma lanchonete perto da ponte, comemos um ótimo sanduíche com suco de morango, depois café, conversamos um pouco e seguimos viagem. Ah, nem preciso dizer que o atendimento dado pelo dono do bar foi melhor do que já tive em muitos restaurantes onde deixei algumas notas de 50 reais por serviço mediano, senão ruim.

Ponte Pêncil
Começou o terceiro dia, só que no segundo. É um trecho fácil, mas é chato. Saindo de Indaial há uma avenida de pouco mais de 8 km. Ela começa com calçamento de paralelepípedo - horrível para pedalar -  vira terra, depois barro e muita lama por conta de uma obra, depois asfalto e aí fica mais fácil. Poucos quilômetros depois estamos na Ponte Pêncil. Ela não faz parte do trajeto, mas merece visita. Pedala-se mais 700 metros em uma estrada de terra para atravessá-la e daí é só voltar. A sensação de atravessar uma ponte sustentada por cabos de aço e feitas de tiras de madeira que se movimentam quando se passa por elas é algo meio assustador. Achei que o meu pânico em pontes fosse me impedir, mas passei tranquilamente. Depois dessa ponte, a pouco mais de um quilômetro, há uma ponte coberta. Europeus usam este tipo de cobertura em pontes de madeira (um simples telhado de metal) para conservar o emadeiramento do tempo. A partir daí, a estrada segue por um trecho longo, margeando o rio até cruzar com a rodovia. Dali atravessamos e vamos para Ascurra, cidade interessante e intrigante por um detalhe que presenciei.

Santo Ambrósio, Ascurra
Em 2011, quando estive em Castrojeriz, no Caminho de Santiago, me deparei com uma igreja (San Juan), que tinha em um dos seus vitrôs um pentagrama invertido (esta mesma igreja tem, em uma parede, um relevo de um crânio com dois ossos cruzados, como das bandeiras de pirata). Aquilo me intrigou, pois nunca havia visto este símbolo, o pentagrama invertido, atribuído aos satanistas, em um templo católico. Eu quis visitar a igreja, mas não pude. Tentei entrar, mas não pude. Passei um tempo tentando encontrar o significado, mas não achei nada. Então, hoje, pude parar em frente à igreja de Santo Ambrósio, na entrada de Ascurra e observar o templo imenso que se vê de muito longe, do outro lado do rio, do outro lado da rodovia. Olhei com mais atenção e acabei achando o pentagrama. Continuei o pedal querendo ir até a igreja e ver o que tinha ali. A curiosidade estava tomando conta de mim. Mas acabei seguindo, pois Ari estava mais à frente esperando. Como em Castrojeriz, não pude ver o que havia por dentro daquele templo. Mais detalhes sobre Castrojeriz estão no post do Diário do Caminho de Santiago.
O pentagrama

Subindo a avenida, pedalava pensando no pentagrama e passei por um ponto de ônibus. Ali estava sentada uma mulher. E posso dizer que foi uma das mulheres mais lindas que vi na vida. Olhamos no olho, ela desviou o olhar e eu segui pensando no que havia naquela cidade. Ato falho ou não, segui por uma rua errando o caminho. Só me dei conta quando ouvi Ari gritar. Voltei e seguimos pelos 6 km restantes até Rodeio.
Rodeio é uma cidade interessante. Pequena, ao pé do morro do Ipiranga, início do trajeto de amanhã, 4° dia do circuito (terceiro nosso). Foi povoada por tiroleses e percebe-se isso nas ruas, nos restaurantes e nas pessoas. O ponto final do trajeto é em frente à prefeitura. Paramos ali, sentamos no banco na calçada, bebemos água e descansamos pensando no que fazer. Então, um homem nos olha e pergunta se precisamos de carimbo no passaporte do Circuito. Digo que sim e ele pede para esperar. João voltou, abriu o prédio ao lado da prefeitura e nos chamou para ir. Eu fui e Ari ficou com as bikes. João carimbou e falou que se sentia grato por ajudar quem estava precisando. Deu dica de hospedagem e onde comer. Mais uma vez, fui tratado muito bem por alguém que nunca me viu e que desviou de seu caminho simplesmente para ajudar. Acabamos parando no Cama & Café Stolf. Quem nos recebeu foi o Sr. Dante e sua esposa Irene. Tratamento melhor não há! S. Dante disponibilizou logo água para lavarmos as bikes antes que o barro secasse e travasse tudo. A hospedagem é sua própria casa e o quarto fica no segundo andar. Tem um ótimo preço e atenção especial dos donos. Eu sugiro fazer reserva antes de vir. Nem tanto por conta de vaga, mas sim porque eles precisam se preparar para receber gente. Felizmente havia vaga e muito carinho.

Há pouco, Ari falou algo que eu já havia pensado muito rapidamente enquanto pedalava: parece que estamos há uma semana aqui, apesar de serem só dois dias. A relatividade do tempo na cabeça de uma pessoa, algo a se pensar. Amanhã tem mais. A mente começa a aquieta-se e o que vem de dentro passa a me falar com mais clareza. Ou eu estou ouvindo o que não consigo ouvir por conta da poluição que o mundo nos força a digerir diariamente.


3.10.12

Vale Europeu -1° dia: Blumenau - Timbó - Pomerode

Início do Circuito, Timbó
Eis que mais uma vez coloco Amelia pra rodar pelo mundo. Dessa vez foi no Circuito Vale Europeu, em Santa Catarina. O circuito abrange 7 dias de pedal por belas regiões, com algumas subidas de desanimar e muita terra, pedra e bons momentos. Meu companheiro de empreitada é o Ari, ex-colega de trabalho, gaúcho aventureiro de mão cheia, já tendo ido até Ushuaia de moto sozinho, a Manaus de microônibus, a Cuzco de carro (sem contar a Trilha Inca com um trekking de 4 dias) e umas semanas na Índia . Agora o Chê tá inventando de irmos para Cuba pedalar por 30 dias.

Saí de SP de ônibus leito e, de cara, já criaram caso para eu levar a bike desmontada dentro da bolsa. Coisa natural. Mas no final das contas tudo se resolveu. Cheguei em Itajaí na terça de manhã, montei a bike na frente da rodoviária e fui pedalando até a casa do Chê, cerca de 3 km. O povo fica olhando um cara abrir 2 bolsas, e tirar rodas, uma bicicleta e umas bolsas menores engraçadas que se prendem do lado da bike. 15 minutos depois o cara sobe na bike e sai pedalando na chuva. Cada uma... Além disso, já tinha me esquecido do sotaque catarinense do litoral norte. Conheço gente que odeia quando alguém diz bem "rapidinho que é só seguir reto toda vida se queres chegar logo ali..."
Eu acho graça - até senti saudades e me peguei rindo quando alguém falava algo.
Ponte sobre o rio Itajaí-açu, Blumenau
Tínhamos um problema: o Circuito começa em Timbó, a 30 km de Blumenau. Ônibus de Itajaí para Timbó que pudesse transportar a bike, só à noite. Então resolvemos que iríamos até Blumenau de ônibus e depois pedalando até Timbó para então iniciarmos o Circuito.E foi o que fizemos. 5h20 da manhã já estava de pé preparando tudo para sair. Pegamos o ônibus de 6h55 que chega em Blumenau por volta das 9. E saímos. Como estamos em SC, na parte povoada por europeus, não é difícil encontrar ciclovia bem sinalizada que corta praticamente toda a cidade. Seguimos então até a rodovia e, 30km e pouco menos de duas horas depois, estávamos em Timbó. Bastava encontrar o restaurante Tapyoca, ponto de partida do Circuito.

Entrei no Museu do Imigrante e fui muito bem recebido por uma senhora do atendimento. Ela explicou que as credenciais, mapas e etc poderiam ser pegas no próprio restaurante, na porta dos fundos. Chamei alguém e logo uma pessoa veio atender. Temos que entrar pelos fundos, passando pela cozinha e dali chegamos no salão onde uma mulher nos atendeu, explicou alguns detalhes e nos entregou formulários e o material. Custo: 10 reais. Este detalhe não estava no site, ou estava e eu não vi. Pagamos e seguimos.

Resolvi parar para um café em uma lanchonete logo depois do início e ali fui atendido pela Dona Neuza, uma gaúcha que me explicou que o rapaz que fazia os lanches tinha ido ao supermercado, mas voltaria logo. E que havia um café ali muito bom que ela prepararia para mim enquanto eu esperava o menino lancheiro. Conversamos um pouco e ela achou que eu estava em um grupo com carro de apoio, mecânico de bicicletas e todas as facilidades. Quando disse que estava em dupla com um amigo gaúcho que esperava lá fora, ela ficou meio assustada. Mas assustou-se mesmo quando soube que eu cruzei a Espanha na mesma bicicleta que estava ali fora, no ano passado. Disse que sou uma pessoa abençoada, me encheu de elogios que abasteceram meu ego para seguir viagem bem animado. Prometi a Dona Neuza voltar na lanchonete no final do circuito para comer o lanche anunciado que parecia ser algo muito bom. Não pude esperar. Ainda teríamos quase 50 km de estrada de terra pela frente com algumas subidas íngremes.

Enxaimel
Saindo de Timbó, senti o pneu traseiro meio baixo. Parei em um posto, enchi  e seguimos. Mas, pouco antes de passar perto de Rio dos Cedros, vi que o pneu estava mesmo baixo de novo. Acabamos errando o caminho e aumentando em quase 5 km o trajeto original, indo para dentro de Rio dos Cedros. Foi providencial. Encontramos uma loja de bicicletas com oficina e o seu Tarcízio resolveu tudo em menos de 15 minutos. Depois de Rio dos Cedros teríamos que reencontrar o circuito e seguir por ele na parte mais difícil do dia. O caminho segue por quase 30km por dentro das montanhas, com algumas casas estilo enxaimel. O guia indica pegar a Estrada Carolina para Pomerode. Esta estrada é algo bem cansativo e desanimador. Mas compensa o esforço. Suei muito, pensei muito, senti escorrer pelo nariz todo o lixo respirado na poluição de SP. Parece que os pulmões não cabem tanto ar puro. Na descida, com o dedo colado nos freios, é difícil segurar a bike a menos de 30 km/h. Logo estamos na parte baixa, passando ao lado da Rota Enxaimel, a poucos quilômetros de Pomerode.

Fim do 1° dia!
Chegamos a Pomerode: alegria de ter "fechado" o primeiro dia - este seria de apenas 43 km, mas por conta do pedal entre Blumenau e Timbó, dos caminhos errados e da entrada em Rio dos Cedros, o total do dia chegou perto dos 88 km. Pomerode é uma bela cidade onde o ciclista é muito valorizado. A ciclovia praticamente corta toda a cidade, com mais de 5 km. Fomos jantar no Restaurante Lunge. Excelente comida, caseira, com preço fixo (bem barato) para se comer o quanto quiser e receber um ótimo tratamento. Aliás, o povo dessa região é muito educado e receptivo. Em todos, eu disse todos, os lugares onde entrei, pedi informação ou comprei algo, fui muito bem atendido, com sorrisos, conversa e informações precisas. É interessante como cordialidade e boa educação podem ser dadas assim, de graça, com graça e simpatia.

Amanhã seguimos para Indaial e vamos emendar com o que seria o 3° dia: Indaial - Rodeio, trecho curto, praticamente plano e de uma beleza sem igual. Lá é que está o sr. Paulo Notari, o homem mais feliz do mundo, com seus 14 km de hortênsias plantadas em quase duas décadas. A previsão para estes dias era de um pouco de chuva. Hoje ela não deu a graça. E que continue assim!

Ponte coberta