23.9.12

Dia do Carro

Agora, todo dia é dia de alguma coisa.

Semana passada, enquanto pedalava pela ciclofaixa da Paulista, ao parar em um cruzamento, a senhora que fazia a sinalização disse que neste sábado, 22, haveria ciclofaixa novamente, pois seria Dia do Carro e isso poderia servir para trabalhar a cabeça dos motoristas.

Cadillac Eldorado - Batel, Curitiba
Não sou cicloativista, não condeno os carros e não tenho posição a respeito do assunto. Apenas gosto de pedalar sem incomodar e sem ser incomodado. Há umas semanas, me livrei do carro que tinha. Quando morei no Rio, também não tive carro. Comprei um apenas um pouco antes de ir morar em SC, pois seria útil para carregar minhas coisas na mudança e me deslocar por lá. Agora, voltei a andar a pé. Na época do Rio, pensei muito sobre o que um conhecido disse e fez lá pelo final dos anos 90. Certa vez, conversando sobre a vida, ele disse que passou 1 ano anotando tudo o que gastava com o carro, desde um pequeno parafuso até os gastos com gasolina, aditivos e tributos. Resolveu vender e andar de táxi e metrô. Eu fiz o mesmo em 2009. Atualmente, moro a 900 metros do trabalho e, caso quisesse ir de carro, de metrô ou de ônibus, teria que andar mais do que indo a pé. E, mesmo agora, já com quase 1 ano de SP, caso morasse mais afastado do trabalho, não teria carro. Rodaria de táxi, transporte público e bike.

Acho interessante o ponto de vista da grande maioria das pessoas com relação ao carro. Lembro de ter lido textos na faculdade que remetiam ao pós-segunda guerra e ao alinhamento do Brasil com os EUA, incentivos ao crescimento do parque industrial e a discursos de Getúlio Vargas no sentido de se expandir a produção e comercialização dos bens de consumo. E, dentre geladeiras, eletrodomésticos e outros, estava o carro. Ou seja, carro é bem de consumo e não "patrimônio" ou "investimento" como muitos pensam. Carro só é investimento para revendedores e locadoras. Para nós, simples contribuintes, é um bem de consumo que perde seu valor com o tempo e o uso. Experimente comprar um carro zero quilômetro hoje e levar na semana seguinte na loja onde comprou. Você pagou 60 mil em um novo e a loja vai te pagar 50 mil (sendo muito generosa). Mas a grande massa pensa no carro como investimento e símbolo de status. É comum (e engraçado) ouvir as pessoas dizerem "meu retrovisor quebrou", "meu banco é de couro", "meu parachoque amassou". Pessoas que têm peças de carro nos seus corpos. Estranho e cômico. As peças são do carro e não da pessoa! Mas, deixa isso pra lá.

Porsche 356 - Batel
O que mais me fez pensar e me convenceu a ficar sem carro foi o cálculo de quanto se gasta para ter um parado na garagem.  O que eu fiz? Somei todos os custos que envolvem ter um carro de 60 mil no período de 2 anos. Estes custos englobam depreciação, IPVA, estacionamento, multas, Controlar, taxas do Detran, pequenos reparos, gasolina, manutenção, revisões e mais alguns itens que um carro demanda. A conta chegou a cerca de 16 mil reais por ano. Somando o valor do carro, 60 mil (considerando que seja comprado à vista - financiado essa conta aumenta), com a despesa anual, teremos desembolsado 92 mil reais (60.000,00 + 16.000,00 x 2 anos). Se usarmos o carro todos os dias do ano, sem folga, a conta resulta em cerca de 252 reais por dia.

R$ 252,00 por dia? Mas isso daria pra andar de táxi pra todo lado e ainda sobraria!

É, sobraria. Mas o mais interessante dessa conta é o tempo que se perde. Outro dia, voltando do Ibirapuera, subi a Campinas rumo Paulista. Marquei um carro e observei quem chegaria primeiro. O carro, com seu motor 2.0, subia a alameda e me passava. O sinal fechava, eu o passava, com minha bike 21 marchas, pedalando devagar na marcha mais leve e sem fazer muita força. O sinal abria, o 2.0 me passava e logo empacava, eu passava de novo e seguia minha vida de lesma. Cheguei na Paulista e, depois de passar a próxima quadra, vi o 2.0 seguir seu avança/para eterno.

Chevelle Malibu - Batel
Em outras ocasiões, quando saí na noite, vi como é difícil chegar em alguns lugares. 4 pessoas no carro conversando, ouvindo música e esperando o trânsito andar. Quando se chega ao destino, tem que achar lugar pra parar, pagar e depois entrar. Na saída, ou espera o carro vir ou vai até ele. Sexta-feira passada, fui a 3 lugares diferentes: da Vila Mariana para o Itaim, dali para a Vila Mariana e depois pra casa, na Bela Vista. Cada viagem custou 10 reais e quem tinha que se preocupar com a direção, onde parar e como seguir era o taxista. Bastava sair da porta do bar, abrir a porta do táxi e dizer a direção. Prático, né?

Bom, hoje é o dia do carro e vai ter muita gente dentro dele esperando por alguma coisa que nunca chega. Eu quero propor o Dia do Sofrimento do Motorista que é a figura principal dessa história, o ser humano, a pessoa, e não esse monte de metal e plástico tão idolatrado por todos.

Pra comemorar o dia do carro, neste domingo vou a Embu das Artes ver artesanato, comer alguma coisa e me divertir. E vou pedalando.


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