31.8.12

Empire

Para quem acha que pedalar em SP é loucura, veja:

Empire

A insanidade das fixas!

Gostou? Quer mais?

MASH

Diário do Caminho de Santiago 2011 - 6


La Rioja em azulejos
Logroño a Santo Domingo de la Calzada - 30 de março

Na vida, muitas vezes, para que possamos andar e progredir, temos que nos livrar de algumas coisas, deixar de lado outras situações ou pessoas e seguirmos. Isso alivia a carga, nos dá velocidade e mais conforto. Aí vem o vigor e o progresso. Hoje se foi Emmanuelle, a pequena bike francesa. Depois de percorrer quase 200 km, Emanuelle ficou em Logroño, com Jose Luis.

A coisa aconteceu assim. 

No 5º dia, fiz 75 km com ela. Cansativos. Um problema no pneu me fez rodar 50 km com a bike quicando: pneu defeituoso e mal colocado, estourou em Logroño, a 200 m do hotel. Troquei. Além disso, o câmbio traseiro travou duas vezes, bloqueando os pedais. Tive que parar e mexer. Cheguei muito cansado, com os dedos machucados e mal humorado. Mal pude jantar e queria só dormir. Acordei mais cansado, com pensamentos pessimistas, querendo desistir. Então, resolvemos ir na loja de bicicletas onde Claudio trocou os pneus para comprar outro banco, com molas, mais confortável. Fizemos sucesso entre os clientes como os brasileiros loucos que cruzaram os Pirineus com uma pleable da Decathlon. O povo daqui não gosta muito da loja e da marca B'Twin, comercializada por ela. Até ganhei um abraço de um velocista que comprava peças para sua bike. Disse que precisava abraçar un hombre de aventuras

Voltemos umas horas no tempo. Quando subia sozinho, empurrando a bike, um dos montes do Caminho, pensei em abandonar a bike (a ideia inicial era de trazer as bikes para o Brasil). Faria o Caminho até o final e deixaria numa loja em Santiago por qualquer euro. Ela estava empacando minha vida. Ou iria até Fisterra, faria o ritual de renovação e deixaria a bike por lá, para algum peregino que quisesse fazer o "Caminho da Bruxa" (para explicações, consultem o são gugou). Estava decidido. Em Logroño, não falei nada com Claudio. Apenas fomos na loja. 

Depois desse auê todo de brasileiros loucos e eu ter perguntado à dona sobre umas "aro 700", Claudio se empolgou e me disse que devíamos vender as bikes e comprar umas maiores. O sol voltou a brilhar pra mim! Sou fã das 700c com pneus híbridos. A loja se tornou um mercado de Istambul e fizemos negócio com Jose Luis. Ele foi em casa buscar dinheiro e o carro, voltou e levou as duas B'Twin, a contra-gosto da mulher e filhos. De pronto, pegamos duas 700c de alumínio, com Shimano, suspensão dianteira e de modelo simples, mas bem funcionais. Ganhamos, com a compra, bagageiros, porta-caramanholas, bomba e bolsa de selim com kit câmara/bico e uns descontos em outras bugigangas da casa. No caminho para Navarretes, escolhi um nome para a nova bike e ela será a Amélia, que é a bicicleta de verdade (olha ela ali).

Resultado: nossa velocidade média estava em 11 km/h e passou para pouco mais de 15 hoje, dia de 55 km, com um desnível para cima (foi praticamente subidas o tempo todo) e vento contra. Além de que pude descer alguns pontos de terra a quase 30 por hora e a quase 50 no asfalto (mesmo tendo que descer pedalando, por conta do vento). Chegamos a Santo Domingo de la Calzada por volta de 6 e meia com a temperatura em torno dos 8 graus e baixando. E com uma chuva vindo em nossa direção, poucos quilômetros à frente. A intenção era ir até Belorado (mais 25), mas diante do quadro, um banho quente, o "menu" anunciado na porta do hotel (jantar espetacular) e calefação, qualquer ser humano pensa duas vezes e sossega. 



O tempo realmente estava feio e o frio vinha com força. No final das contas, encontramos o hotel "El Correjidor" e ali ficamos. Havia um outro, um castelo, com móveis e atendentes medievais, muito caro. Não merecia nosso dinheiro. E por conta do mal tempo, do cansaço e das emoções do dia, não visitamos a Catedral de Santo Domingo para ver o galo da lenda.

Olha o que nos espera amanhã, no trajeto para Burgos.

30.8.12

Recordista aos 100

Êê, seu Lauriano...
17/2/2012
"O francês Robert Marchand estabeleceu nesta sexta-feira, três meses depois de seu 100º aniversário, o primeiro recorde mundial de ciclismo entre atletas centenários. 

Em uma pista indoor na cidade suíça de Aigle, ele pedalou por 24,251 km, durante uma hora. 
- Eu poderia ter andado ainda mais rápido se quisesse. Não quero ser um campeão, apenas queria fazer algo no meu aniversário de 100 anos - disse o francês, que antes do desafio teve de pedir uma autorização a seu cardiologista. 

A União Ciclística Internacional (UCI) disse que está disposta a homologar o recorde. Para isso, Marchand terá de ser submetido a um exame antidoping".


Fonte: Globo Esporte

Diário do Caminho de Santiago 2011 - 5


Puente la Reina a Logroño - 27 e 28 de março

Jef com sua casa ambulante
Ficamos em Puente la Reina praticamente 2 dias. No domingo, depois de visitar as igrejas do Crucifixo e de Santiago e a Ponte Medieval do século XI, encontramos Jef, um holandês que vinha andando puxando um carrinho com suas coisas desde a Holanda. Saiu de lá em fevereiro, passou pela Bélgica, França e entrou no Caminho. 61 anos, bem humorado, com filhos, netos e cachorros. Disse estar com saudades deles. Tiramos uma foto. Quem me conhece bem sabe que já falei sobre a ideia de ir da Holanda para Portugal a pé. E olha o que vejo no Caminho.

O hotel tinha um restaurante na parte de trás, bem grande, com um barril gigante de onde saía vinho em torneiras. A comida era excelente. Então descobrimos que a cozinheira era baiana. E mais gente era do Brasil no hotel. Perguntei como foram parar lá e a resposta sempre é "a gente foi ficando, né..." O bom disso foi descobrir feijão no restaurante. A menina preparou um pratão de alubia roja, um tipo de feijão vermelho, e eu caí dentro com um pouco de pimenta e farinha. Podem roubar a roda da bike, parar de fazer pão ou acabar com o mundo, mas deixe o feijão bem cozido, com caldo grosso pra mim. É só o que peço.

O domingo foi modorrento, esperando a segunda para agir. Saí de Puente 9 da manhã. Parei para comprar ferramentas e frutas, saindo mesmo 9 e meia. O tempo estava nublado e choveu muito de noite. Mas a natureza é boa e peguei um pouco de sol até aqui. Foi eu chegar e choveu. Fiz o trajeto sozinho. Claudio resolveu ir para Logroño de ônibus para consertar a bike. Como eu disse que só ando motorizado no Caminho se for de ambulância ou carro funerário, então encarei os 75km só.

O guia de Juan Menéndez Granados sugere que esta é uma etapa de reflexão. A paisagem vai mudando e há muitos momentos sem praticamente nada, só campos e vinhedos. E os pensamentos, que ainda não se acalmaram. Entrei em La Rioja. Passei por algumas cidades interessantes. Parei em Estella para trocar os pneus da Emmanuelle. Comprei 2 de cross, com cravos, mas um foi mal colocado, criou um calombo e fui de Estella a Logroño com a bike quicando. Como andei praticamente só pela carretera, ficou pesado pedalar. Não parece, mas a diferença de um pneu de estrada mais fino para um de trilha pesa bastante.

Ponte de Peregrinos - séc. XI
Depois de muito vento frio, vento contra e esforço, cheguei a Logroño. Cansativo, mas gratificante.
Logroño é uma cidade bem receptiva. O dono da loja de bicicleta trocou um pneu pra mim de graça e ainda ganhei uma bala. Pedi informação do hotel na rua e dois homens arrumaram um mapa na polícia, me explicaram o trajeto e um deles marcou tudo com caneta marca-texto. E ganhei uma xérox de um guia para bicicleta. Um senhor que me viu na rua arrumando os alforjes, perto da oficina de bicicletas, chamou pra conversar e pediu para esperar ele ir em casa buscar algo. Eu estava sentado num banco da praça em frente ao prédio onde vive. Ele disse ter feito o Caminho 5 vezes de bike e ficou admirado em ver uma dobrável por aqui. Sugeriu algo que eu pensei muito hoje: trocar por uma MB. Hoje senti saudades da minha aro 700 de Balneário. O homem subiu, veio com a cópia do guia e se despediu emocionado, com olhos marejados.

Foi bem diferente o tratamento recebido em La Rioja do que vi na Navarra.

Praça de Peregrinos no Centro Antigo de Logroño
Amanhã seguimos para Belorado, a Etapa 3 do guia de Granados, com 75 km. Mais umas 6 ou 7 horas de sofrimento e pensamentos. Que Santo Domingo de la Calzada me dê forças. 

29.8.12

Diário do Caminho de Santiago 2011 - 4


Pamplona - 26 e 27 de março

Chegamos em Pamplona por uma bela ciclovia que corta os arredores da cidade desde Huarte, por mais de 8km dentro de um parque. Muito tranquilo e agradável de pedalar. Pamplona serviu para reorganizar ideias, mandar quase 2kg de coisas pro Brasil pelos Correios, comprar câmera fotográfica nova e deixar roupas pra lavar. Ficamos no hotel Maisonave, muito bom e com ótimo atendimento pela Pillar. Peregrinos têm desconto nas diárias e ganham um lanche (picnic) na saída. E as bikes podem ser guardadas dentro do hotel.

Pamplona é simplesmente demais! O Caminho entra pelo parque e sai na Puente de Magdalena. Passamos pelo albergue Paderborn, administrado por alemães. Pegamos informações novamente e quem surge? Marcos, é claro.

A cidade, também chamada de Iruña pelos bascos, é capital da província da Navarra. A divisão geo-política espanhola é um pouco complexa por conta das ideias autônomas de cada regiao. Assim, Pamplona, apesar de ser capital da Navarra, é uma das grandes cidades do país basco. Foi fundada em 74 a.C. e passou por várias dominações dentre bárbaros e muçulmanos.

A noite de Pamplona é muito interessante, com muita gente bonita e gente esquisita. Caímos na degustación de pintxos, uns "tapas" de Pamplona. No sábado, fomos atrás de uma livraria para comprar um guia espanhol para Caminho de bike e procuramos uma loja para comprar umas peças para bicicleta. Claudio entrou na loja e, como todo bom brasileiro, tem que tocar nas coisas para "ver" uma sacola verde e amarela. Resultado: derrubou quase todas as bikes enfileiradas nas prateleiras. O dono não gostou muito. E por conta disso nos tratou mal. Em determinado momento resolvi ir embora por ele dizer que "brasileiro é muito bom quando não leva nada..." Como estávamos no país basco, tive que engolir e me mandar. O pior é que ele tinha razão. Fazer o quê? Poucos detonam a reputação de muitos. Vale, como dizem por lá (leia-se bale...).

Saímos de Pamplona depois do meio-dia. A saída até Cizur Menor é muito bem sinalizada, passando pela universidade, com uma "pequena" subida. Logo em seguida, chegamos no rumo do Perdón. Subidas e subidas pela carretera nos aproximando dos moinhos de vento geradores de energia eólica. Não fomos ao Alto del Perdón. Claudio não quis pedalar mais os 6 km para chegar lá e ser perdoado. Mas o Caminho providencia tudo. Descemos 5 km a quase 30 por hora e, exatamente no último metro do último túnel antes do plano, ouvimos o barulho: foi-se o pneu traseiro da bike dele. Rasgou na lateral. E aí, por outros meios, o Alto del Perdón veio até nós. Só que isso é assunto para outro post, pois é o Caminho dos Outros e eu apenas pude observar.

Estamos em Puente la Reina esperando a segunda-feira para comprar pneus na próxima cidade que tem oficina de bikes. Erro nosso, sairmos apenas com câmaras reserva sem os pneus. O Caminho ensina.

Hotel Jakue - Puente la Reina

28.8.12

Diário do Caminho de Santiago 2011 - 3


Zubiri a Pamplona - 25 de março

Sem dar notícias por pouco mais de um dia, mas com muito movimento nesse período.

E o tal do suporte...
Saímos de Zubiri pouco depois das 11 horas. Zubiri é uma pequena cidade com a carretera passando em seu Centro. Uma ponte medieval inicia o Caminho, que vai cortando bosques com subidas pouco íngremes e cascalho. Passam-se algumas pontes sobre riachos e córregos e estradas cortando pueblos. Neste trajeto, percebi que o encaixe da presilha de um dos alforjes está gasto (com 3 dias apenas!) e, com isso e a trepidação da estrada, o alforje caiu 4 vezes. Num momento, cruzamos com um peregrino de camisa vermelha, mochila pequena e passos firmes. Cumprimentamos, mas ele parecia ser de poucas palavras. Falei com Claudio que o sujeito era muito mal humorado. Fiz um julgamento da pessoa em apenas um olhar. Começam as topadas do Caminho que nos ajudam a viver.

No pueblo seguinte, havia uma fonte na saída. Paramos para encher as garrafas e enxugar o suor. Estavam na fonte, Javier, o suposto mal humorado, e Marcos, figura cativante. Javier não era mal humorado, pelo contrário: muito simpático e atencioso, nos deu dicas do Caminho - era sua segunda vez. A primeira foi em 2010, no ano jacobeo (também chamado de ano santo compostelano, quando o dia de São Tiago cai em um domingo).

Voltemos aos alforjes. Na última vez que caiu, parei para prender. Tive que abrir o fecho e dar um jeito com chave philips. Estava terminando de arrumar a carga e chega Javier com meu casaco na mão. Agradeci e fiquei ali parado no meio do bosque pensando em como julgo e falo demais. Julguei um homem que nunca tinha visto logo de primeira e, graças a ele, não fiquei sem casaco, podendo passar frio pelo resto do dia. O Caminho conversa com a gente o tempo todo. Às vezes dá uns cutucões de leve, noutras, dizem ser um esporro daqueles. Por enquanto só tive o cutucão de leve.

Marcos: 67 anos, espanhol, mochila grande, 14ª vez fazendo o Caminho. Isso, 14ª vez. Começou em 99, quando fez 2 vezes. Caminha cerca de 40 km por dia (mais do que temos feito de bicicleta e mais do que a média geral). Pessoa cativante, sempre sorrindo, fala rápido e anda mais rápido. Faz o Caminho em 23 dias. Encontramos com ele mais duas vezes e com Javier uma vez, disse que perdeu Marcos de vista. Agora sempre brincamos perguntando onde estará Marcos. A resposta sempre é umas 10 cidades à frente ou já em Santiago. Quando perguntamos se ele não escreveu um livro, disse que o seu livro esta dentro do peito e que é só abri- lo para ler quando quiser.

Chegamos a Larrasoaña. A cidade é minúscula, mas com todo aquele ar medieval. Queríamos um café. Um senhor indicou a casa da Dona Elita. É um misto de ateliê e mercadinho, mas impecável. Há uns anos, tive um sonho. Nele, estava com Claudio fazendo o Caminho e, em determinado lugar, eu pagava por algo. Depois de uns minutos de conversa, peguei umas notas no bolso e perguntei à Dona Elita quanto era. Déjavu! Tirei a nota de 5 euros sabendo que seriam 4,50. Ela disse: "quatro con cincoenta". Comecei a rir por dentro. Já aconteceu outras vezes. Mas nessa foi tudo muito bem nítido.

Pamplona
Depois de mais uns quilômetros, Pamplona. Que cidade! É a cidade da festa de San Fermin, a famosa corrida dos touros. Mas Pamplona será o próximo post. São 4h10 da madrugada e o sono se foi há horas. Cabeça fervilhando de pensamentos e a lembrança do pesadelo que tive com uma prisão medieval.

Esse tal de Caminho é de pirar.

Para quem tem preguiça de ler e quer curtir um blog como revista Caras, estou postando fotos aos poucos em http://picasaweb.google.com/marciolauriano

Por que você está fazendo o que faz?

Assino alguns blogues e um deles hoje me mandou um texto pequeno e interessante. É algo que faz pensar.

Pare de prencher suas planilhas, correr de um lado pro outro e comece a se questionar.  

Em uma discussão sobre as resoluções de ano novo no Grupo LinkedIn Operational Excellence foi levantada uma questão muito importante e atual, que reproduzo aqui para a sua reflexão. A pergunta “por que?” desapareceu da mente das pessoas. Muitas organizações estão executando programas de inovação ou excelência, como o Kaizen, Six Sigma e Lean Manufacturing, e outros similares sem a compreensão do porque estão fazendo isto. Elas estão perdidas em sistemas que se auto-alimentam, felizes em produzir planilhas Excel e gráficos coloridos, sem resultados que justifiquem tanto dispêndio de recursos, energia e talentos. Algumas empresas só estão nestes programas para se mostrarem atualizadas e “modernas”, sem uma clara definição da conexão entre estas iniciativas e os objetivos do negócio. Não que “o que?”, “quando?” e “como?” não sejam importantes, mas devemos ter sempre em mente que é o “por que?” que nos leva a questionar e esclarecer o propósito de nossas ações e prover o foco e a perspectiva corretos para a tomada de iniciativas direcionadas pelos e para os objetivos do negócio. Por que você está fazendo o que faz?

Fonte: http://criatividadeaplicada.com/2012/08/27/por-que-voce-esta-fazendo-o-que-faz

27.8.12

Diário do Caminho de Santiago 2011 - 2


Continuando com o dário do Caminho, o primeiro dia.
San Jean Pied de Port a Zubiri - 24 de março

Sou um cara teimoso. E me considero forte. E insistente. Às vezes me dou mal por conta disso. Mas em outras me supero justamente por ser teimoso, insistente e por saber usar a força e o vigor que a natureza me deu.

9 horas, 60 km e muitas subidas no primeiro dia. Definitivamente, o Caminho é algo difícil. Saímos de SJPP às 9 horas, depois de uma estranha noite de sono na casa de Mme. Adina. É uma senhora que mora ao lado dos Les Amis du Chemin de Saint-Jacques Pyrénés-Atlantiques. Mme. Adina recebe peregrinos em sua casa com vários quartos confortáveis e simples, serve um café da manhã gostoso e é uma pessoa alegre e divertida. Na despedida, com o jeito brasileiro, tiramos fotos com ela, beijamos e abraçamos e isso a fez chorar, algo incomum diante da frieza característica do restante do mundo que por ali passa.

Erramos a saída da cidade. Coisa comum no Caminho. Já descobri que mapas e guias por aqui são confusos. A primeira etapa marca 28 km até Roncesvales ou Roncesvaux ou outro nome em basco que não me lembro. Esta etapa serpenteia entre França e Espanha e pelos limites invisíveis do País Basco. As placas estão em três idiomas e é algo bonito e estranho de se ver. De vez em quando surge uma placa pixada com um "Independentzia".

As bikes B'Twin Hoptown se comportaram muito bem, mesmo sendo empurradas na maior parte do tempo. Não pesei meu material, mas devo ter de 10 a 12kg de carga, que vou diminuir mandando umas coisas pro Brasil. Para Roncesvales, decidimos ir pela carretera, pois o Caminho da via napoleônica tem muito cascalho, subidas íngremes em terra e, ao avistarmos o monte de Ibañeta, víamos neve no topo. Passamos por pequenas cidades agradáveis, com arquitetura medieval e uma beleza indescritível. E eu descobri que deixei o carregador da câmera no Brasil. Ou seja, estou privado de fotos. Chegando a Pamplona, vou comprar outra.

O monte de Ibañeta - Puerto de Ibañeta
Chegando em Valcarlos, estamos a 12 km de Roncesvalles. Ótimo. O problema é que há uma "parede" de 12 km com desnível de quase 1200 m entre uma cidade outra. Foram boas horas empurrando e poucas pedalando. O topo do monte possui uma igreja com pequeno cemitério e uma pedra com altar e inscrições que não pude entender. E uma outra inscrição com os anos 693-1967. Algo emocionante. Ajoelhei e me prostrei nesse altar. Não sei por quê, se pelo cansaço, se pelo frio, o vento e a neve ou por me sentir amparado depois de tanto sofrimento, ali no meio do nada, chorei, sem pensar em nada. Apenas me prostei e deixei acontecer. É algo que, como num transe místico, só sabe o que é quem viveu.

Dali para Roncesvales dá 1,5 km de pura descida. A bike vai a quase 50 por hora. Não a deixei desenvolver mais pois os aros 20, pneus finos e 10 kg de carga deixam a menina Emmanuelle bem instável. E o vento corta a boca. É, o nome da minha francesinha rouge é Emmanuelle. Olha uma foto dela, sofrendo comigo nos Pirineus espanhois:

Subida dos Pirineus, já na Espanha

Em Roncesvalles, fizemos um lanche em um pequeno restaurante de um hotel que mais parecia um castelo medieval. O restaurante estava com lareira acesa, farta porção de presunto serrano, queijo curado e vinho tinto. Claudio queria parar e dormir por ali mesmo. Eu queria continuar, pois ainda eram 4 da tarde e teríamos muita luz do dia. A temperatura estava em torno dos 5 graus lá fora e eu estava gostando do papo que começava a surgir com a loirinha que nos servia. Mas saímos para seguir viagem.

Havia uma mesa com 6 pessoas na faixa dos 60 anos. Um dos homens saiu e veio falar conosco. Era um senhor francês, um pouco mais velho que os outros. Se apresentou e quando dissemos estar fazendo o Caminho e que éramos do Brasil, o homem ficou todo emocionado, nos abraçou e queria tirar fotos. Ele não se expressava muito bem em inglês e nem eu em francês. Mas, entre os humanos existe uma linguagem sem palavras que diz mais pelos olhos, sorrisos e toques do que pelo falar. Ele disse que sempre sonhou em fazer o Caminho, mas que a vida sempre o preteriu. Para ele era emocionante estar diante de pessoas que atravessaram um oceano e passavam dificuldades para realizarem um sonho.

Depois de abraços, apertos de mãos e os olhos úmidos do senhor de quem não me lembro o nome, seguimos até Zubiri, quase 40km distante dali. Começou o Caminho. O meu, em forma de preparo físico e paciência, e o do Claudio em forma de impaciência e superação. O frio e as subidas intermináveis é outra história. Chegando a Zubiri, o Caminho corta a Transpirenaica, que atravessa os Pirineus desde o Atlântico até o Mediterrâneo, e uma das rotas do Tour de France. Vários ciclistas paramentados passam a mais de 30 por hora, treinando por ali, no final da tarde. Zubiri nos aguardava com neblina, frio, um ótimo jantar, hotel aconchegante e muita dor nas pernas no dia seguinte.

24.8.12

Diário do Caminho de Santiago 2011 - 1


Nestes próximos posts, vou transcrever os textos que escrevi no ano passado, enquanto fazia o Caminho de Santiago Francês (saindo de San Jean Pied-Port).

Fiz o Caminho na companhia do meu amigo Cláudio, que mora em Fort Launderdale, FL e que saiu dos EUA para pedalar comigo pela Espanha. Para resumir, nos encontramos em Paris, onde compramos equipamentos e rumamos para a base dos Pirineus, lado francês. Compramos duas bikes dobráveis, da BTwin, aro 20. Eu queria pedalar numa dessas em estrada. E olha que a coisa aguenta! Quem não aguenta é o ciclista, pois ela não desenvolve. 

Começamos o pedal dia 24 de março de 2011. Não chegamos a Santiago juntos, pois cada um seguiu seu ritmo, respeitando seu próprio Caminho. Depois nos encontramos no Porto e seguimos por Lisboa e Madri para o restante das férias.

Os textos estavam em outro blog que acabou e agora estarão aqui para ajudar quem precise. Vou procurar transcrever o original que, muitas vezes, foi escrito no meio do Caminho, sentado em um café, em uma sombra, ou embaixo dos cobertores em hotel. Talvez faça algumas adaptações, caso lembre de detalhes importantes. Mas é praticamente o que vivi, recheado da emoção que todo o Caminho traz. Boa leitura!


Paris - Saint-Jean-Pied-Port - 23/3

Cheguei em Saint-Jean-Pied-Port! 

Saindo de Paris, pegamos o TGV na Gare Montparnasse, chegando em Biarritz às 17h30. Depois de descermos em Biarritz, balneário à beira do Atlântico, descobrimos que a conexão para SJPP se dá em Bayone, uma estação antes. Por sorte, sairia um trem voltando para Bayone com conexão para SJPP em 15 minutos. Bilhetes comprados, conseguimos pegar o trem. Vagão feio, com a cara do Japeri antes da Supervia (quem mora no Rio e anda ou andou de trem sabe do que eu falo). Conhecemos uma baiana com seu filho no vagão. Os dois moram em Bayone.

*Fica a dica: para quem parte de Paris, de Bourdeaux ou de Toulose, a conexão para SJPP é em Bayonne.

Depois, troca-se de trem e pega-se um da empresa Aquitaine (nome da região medieval do país). Este trem era pequeno, estilo VLT, com espaço para bicicletas e muito confortável. Entre Bayonne e SJPP há umas 7 cidades e o trem para em todas. O bilhete custa 8€40 e a viagem leva cerca de 1h30, bem devagar, para ir se acostumando com o ritmo do Caminho. É interessante ver a estrada secundária em excelente estado margeando a linha férrea e, do outro lado, o rio com suas corredeiras e sua água esverdeada. Mais interessantes são as placas em lojas, nas estações ou nomes de ruas com o texto em francês e basco. Estamos no País Basco!

Rue de la Citadelle
O trem chega a SJPP. A estação é uma bela casinha com um pátio lateral. A noite escureceu o dia e uma placa, abaixo do poste mostra um cartaz com um pouco de história do Chemin de Saint-Jacques de Compostele, e outro cartaz traz o mapa da cidade. 

Precisávamos de um hotel com lugar para guardar as bikes, ainda dobradas nas bolsas. Resolvemos montar as bikes para empurrarmos ladeira acima (Saint-Jean tem ladeiras bem íngremes). Então eis que surge um senhor bem branco, um pouco gordo, com uma boina basca e um sorriso. Ficou olhando aquelas bicicletas de rodas pequenas saírem de dentro de umas bolsas e tomarem forma. Ficou curioso. Perguntou de onde éramos. Respondi: Brèsil. O homem ficou maravilhado. Procurava ajudar de todo o jeito. Tentava falar inglês, disse ser professor aposentado e que um dia estudou espanhol, mas esqueceu tudo. Ofereceu-se para nos mostrar hotéis ou locais para ficar. Claudio, meio desconfiado, pensou que ele poderia nos enganar. Mas eu deixei minha intuição comandar e seguimos o homem de cabelos tão brancos quanto a sua camisa. Dava pra perceber no falar e no sorriso de monsieur Lambert que ele queria dar o melhor de sua cidade aos forasteiros brasucas com suas bikes dobráveis. Nos levou até a antiga casa de Mme. Debrill, hoje ponto de partida de peregrinos. Nos entregou às três senhoras que nos deram tudo o que precisávamos no momento: a credencial do peregrino, mapas, pontos de parada, mapas de altimetria, relação de lojas e oficinas de bike em todo o Caminho e uma vieira, símbolo de São Tiago e da peregrinação ao sagrado túmulo do apóstolo. E ainda nos indicaram a casa ao lado, de Mme. Adina (uma senhora muito divertida), quarto individual com tudo e café da manhã a 20€.

Levou alguns minutos para Claudio se dar conta do que venho dizendo desde domingo: "deixa que o Apóstolo resolve". O Caminho te dá tudo o que precisa. É só saber pedir e esperar. É algo mágico. Há algumas horas estava descendo na estação, num frio de 11 graus, montando uma bicicleta no meio da rua. Agora estou deitado num cama quente, de frente para esta bela cidade medieval, escrevendo este texto e pensando em como tudo é tão espetacular por aqui.

Já li em alguns guias de peregrinos que o melhor é sair de Roncesvales (Roncesvaux), na Espanha. Mas Saint-Jean-Pied-Port é algo indescritível. Só vindo para ver e sentir. E se encontrar um anjo de nome Jean Lambert, com hálito de conhaque, falando inglês misturado com francês e basco, sorria, você está no Caminho Sagrado!

23.8.12

de camelo

Estou sem carro. E sem carro penso em permanecer. A partir de agora, a força das pernas vai me locomover, além de outros artifícios, como o bilhete do metrô, o dinheiro do táxi e as turbinas do avião.

Mas e o camelo? Já li por aí que camelo é bicicleta em Brasília. E que o termo foi cunhado por Renato Russo nos anos 80. Eu fui morador da Ilha do Governador e, desde adolescente, quando pedalava pelo bairro, todos chamavam bicicleta de camelo. Não sei se Renato Russo levou este termo para o Rio, na época em que morou na Ilha, ou se o termo existia no Rio e foi parar em Brasília levado pelo cantor. Isso não importa muito.

O que importa atualmente é que tenho por hábito chamar bike de camelo e a que tenho aqui em SP tem nome, Amélia. Foi a 700C que comprei na Espanha e que me fez atravessar a Península, desde o País Basco até a Galícia, quase chegando a Portugal. Essa é outra história.

Esse blogue é para falar de bicicletas, de passeios, de viagens e de ideias sobre a bicicleta. Tenho arquivos do Caminho de Santiago que publiquei em março/abril de 2011 no antigo blogue e vou postar aqui em seguida. E o resto vai acontecendo. Gosto de escrever e gosto de compartilhar. Depois de ler muitos blogues de viajantes, cicloturistas e simpatizantes do uso da bicicleta, vi que escrever sobre o que se vive sobre uma bike ajuda muita gente. Me ajudou antes de viajar para a Espanha e espero poder ajudar quem quiser fazer o Caminho ou simplesmente passear por aí.