6.9.12

Diário do Caminho de Santiago 2011 - 9

Sahagún a León - 2 de abril

Sahagún é uma cidade feia. Não gostei de lá. Parece uma cidade do velho oeste dos filmes, mas com alguma coisa medieval. A saída é meio confusa e o caminho até Mansilla de las Mulas é monótono e "truncado". Mansilla tem uma pequena praça com esta estátua da foto - interessante. O cansaço, a posição dos personagens e o ar distante pareciam prenunciar o dia. 

Em Calzada del Coto tem que se escolher entre o caminho romano e o francês. Se quiser passar quase 12km sem nada em volta nem por perto, vá pelo romano. Aos que vão a pé, é um trecho bem duro, de umas 3 horas, mas com alguns locais de descanso e fontes. Leve água e comida.

Não sei se o tempo frio e nublado junto do trajeto enfadonho ou outros revezes me desanimaram, mas sei que foi complicado. Os pouco mais de 50 km até León foram difíceis. Mas cheguei.

Uma cena interessante me chamou a atenção hoje. O vento vinha da esquerda. Na estrada, apenas campos de trigo que serão plantados em breve. Um passarinho batia as asas com muita força, contra o vento, de modo que não saía do lugar. Lembrava um beija-flor, porém com menos velocidade nas asas. Pensei, "como é teimoso..." Nos poucos segundos que a cena durou, lembrei de como sou teimoso também, insistindo em situações que sei não terem resultado. É um dispêndio de energia. E algumas vezes perco muita energia com isso. Segundos depois, ele desistiu e se deixou levar pelo vento, no sentido contrário, voando com facilidade, dando seus rasantes sobre a terra e subindo para o céu com velocidade e beleza. Na hora, lembrei de uma frase do meu amigo Daros, certa vez escrita em um cartão postal que me presenteou, ainda guardado na minha caixa de fotos: "nossa liberdade ninguém compra". Mas não ligue pra isso, falta de açúcar no sangue, vento frio na cara e pernas doloridas trazem esse efeito à mente.

Caminho Romano, após Calzada

Alguns caminhos se cruzam, se soltam, se juntam e se transformam. Várias são as narrativas de pessoas que iniciaram o Caminho juntas e chegaram a Santiago sozinhas ou com outros peregrinos que conheceram no próprio Caminho. Assim também é a vida. A partir de amanhã, domingo, Claudio ficará em León e seguirá seu Caminho. Eu seguirei o meu, sozinho rumo a Santiago e Fisterre. Agradeço ao amigo que me ajudou a ver muita coisa da minha vida, mesmo sem se dar conta disso, que me fez enxergar detalhes com outros olhos e outros ânimos.

Suerte, siempre! Ultreya! Suseya!

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