SP-RJ - 570 km por boa parte do litoral. Antes do natal. Será que vira realidade?
21.11.12
17.10.12
Ideias e projetos
O povo do cicloturismo chama viagem de projeto. Eu penso em uma ideia e imagino uma viagem. Esta viagem torna-se um projeto no papel, no computador, com valores, distâncias, datas, altitudes e horários. Mas quando coloco a bike na estrada e saio deixa de ser projeto e vira diversão. Algumas ideias pululam na minha mente e quero colocá-las em prática antes dos 50 anos. Uma delas é a Volta na França.
Semana passada, em uma padaria de Itajaí, enquanto tomava um café e comia um sanduíche, folheei uma revista disponível para leitura e vi uma matéria sobre a 18 Vélo Vintage. Em 2011, antes do Caminho de Santiago, estive em Paris por 2 dias. Fiquei hospedado no Ibis Montmartre. Olhando a matéria, descobri que a loja de bikes fica na mesma rua do hotel. A 18 Vélo Vintage é uma pequena oficina/loja de dois sócios que resolveram vender suas bikes reformadas ou restauradas. Eles saem pelo interior do país em busca de bikes antigas, reformam/restauram e vendem.
Mas e a minha ideia, meu projeto?
Quando estive em Saint-Jean-Pied-de-Port, ponto de partida do Caminho Francês, pensei que um dia poderia dar a volta pela França, pedalando. Aliás, inicialmente eu pensei em sair de Paris e pedalar até Santiago, mas não havia tempo hábil. Lendo a matéria, olhando as bikes, pensei: por que não fazer uma volta na França em uma bike vintage? O trajeto que pensei sai de Paris, dirige-se aos Pirineus, passando por Nantes, Bourdeaux, Toulouse, Montpellier, Cote d'Azur, dá uma entradinha na Itália, pois quero conhecer a cidade de Lauriano, subindo até Dijon, Strasbourg, norte do país e retorno a Paris. É algo em torno de 3.700 km. Precisaria de pelo menos 50 dias para parar em cidades, curtir a culinária, os vinhos e visitar museus e outros atrativos.
A ideia está na cabeça, o projeto começa a ir para o papel e, tendo patrocínio e férias sobrando, quero fazer em 2013.
Semana passada, em uma padaria de Itajaí, enquanto tomava um café e comia um sanduíche, folheei uma revista disponível para leitura e vi uma matéria sobre a 18 Vélo Vintage. Em 2011, antes do Caminho de Santiago, estive em Paris por 2 dias. Fiquei hospedado no Ibis Montmartre. Olhando a matéria, descobri que a loja de bikes fica na mesma rua do hotel. A 18 Vélo Vintage é uma pequena oficina/loja de dois sócios que resolveram vender suas bikes reformadas ou restauradas. Eles saem pelo interior do país em busca de bikes antigas, reformam/restauram e vendem.
Mas e a minha ideia, meu projeto?
![]() |
| Cote d'Azur |
A ideia está na cabeça, o projeto começa a ir para o papel e, tendo patrocínio e férias sobrando, quero fazer em 2013.
| O traçado da viagem |
14.10.12
Itapema Drift Trike
Quando criança, no Rio, havia os carrinhos de rolimã que desciam ladeiras. Eu tinha um par de patins e saltava em uma rampa construída por mim e pelo Fábio Pastel. Era muito suor, sangue, adrenalina e diversão. Depois passei para a Caloi Cross Extralight, como a da foto, e gostava de descer as ladeiras do Jardim Guanabara derrapando na roda traseira. Dia de chuva era o melhor. Também havia a calçada lisa de uma casa na Lélio de Souza. No final da manhã, era só listra de marca de pneu riscada no piso. Bons tempos os de deslizar pelo asfalto (nem sempre em cima da bike).
O Drift Trike é uma modalidade em que a pessoa senta em um triciclo, geralmente com as rodas traseiras forradas por um tubo de PVC para poder derrapar, e desce ladeiras, morros ou tudo que dê velocidade. A graça da coisa é mexer a cadeira e o guidão e fazer a bike derrapar. Ou desenvolver a maior velocidade possível - o que se torna difícil justamente pela facilidade de derrapagem. Conhecer o Fisher e sua bike foi bom para relembrar aqueles tempos divertidos quando a maior preocupação era chegar lá em cima e descer na toda.
Quem passou naquela hora na avenida e viu dois caras de mais de 1,80m empurrando um triciclo que parecia de criança e dando cavalo de pau no meio da rua ficava sem entender muita coisa quando o povo gritava.
Será que um dia serei adulto? =)
Quem passou naquela hora na avenida e viu dois caras de mais de 1,80m empurrando um triciclo que parecia de criança e dando cavalo de pau no meio da rua ficava sem entender muita coisa quando o povo gritava.
Será que um dia serei adulto? =)
9.10.12
Vale Europeu - último dia: Alto Cedros - Palmeiras - Timbó
Acordamos no chalezinho alugado pelo Raulino bem cedo, pouco depois das 6. O café da manhã já estava pronto. Pegamos algumas recomendações, preparamos sanduíches para mais tarde e fomos para a travessia de bote.
Raulino transporta seus hóspedes até um ponto próximo ao Hotel Parador, lugar de início do sexto dia. A canoa maior não estava na beira da água e tivemos que fazer duas viagens. Primeiro foi o Ari e fiquei esperando. Depois seguimos, Raulino, Amelia e eu. Como o nível da água estava muito mais baixo que o normal, só dá pra atravessar com remo e, uma vez na beira, tem que se empurrar a bike até a estrada. Foi o que aconteceu. Mas correu tudo tranquilamente. Com pouca água na barragem, algumas remadas são suficientes até a margem oposto. Bicicletas na estrada, nos despedimos do nosso anfitrião e seguimos para mais um dia cheio de incertezas e dúvidas. Para quem pretende ficar em Alto Cedros, é extremamente recomendável telefonar para o Raulino e fazer a reserva. O telefone é o (47) 3057-5581. Em Alto Cedros, o celular não pega. Portanto, ligue quando estiver em Rodeio ou Doutor Pedrinho para garantir. Do contrário, poderá ficar em situação delicada.
Mais uns minutos e é possível avistar a barragem Rio Bonito. Após a descida, há uma entrada à esquerda com algumas casas. Não se engane, é mais para frente, seguindo pela direita. Pedale por mais uns quilômetros e quando chegar no calçamento, o mercado do Faustino estará à esquerda. Ali é Palmeiras. Quem nos atendeu foi o Leonardo, sujeito muito prestativo e atencioso. Ele nos explicou a questão de não receber mais hóspedes: o hotel está desativado. Mas disse que, após a reforma que pretende fazer, vai receber novamente viajantes e ciclistas. Perguntamos como fazer para conseguir hospedagem e ele nos desanimou.
No final das contas nos restavam 3 opções:
1) pedalar até Cedro Alto pelo circuito e dali desviar até o Centro de Rio dos Cedros para dormir, voltando ao circuito no dia seguinte, pela subida-monstro de Rio Cunha;
2) fazer todo o sétimo dia dali pra frente, opção descartada por ser muito dura por conta justamente da subida monstro e do tempo que despenderia - já eram quase 3 da tarde;
3) acatar a sugestão de Leonardo: pedalar direto pela estrada geral sem seguir a seta que desvia para o circuito e chegar até Timbó finalizando a viagem.
Parênteses para críticas
Comentamos com algumas pessoas sobre o estado da sinalização e sobre a falta de atualização das informações, e muitos concordaram que a situação já foi melhor. Fica um alô para o pessoal do turismo da região: há muito o que melhorar no quesito informação. O guia está desatualizado, principalmente na parte alta, nem tudo coincide com o descrito e algumas placas sumiram. Raulino confirmou a mesma coisa com a placa que existia há um tempo no final da descida da Pedra Branca. Algumas placas simplesmente não têm mais o texto ou a seta, pois o tempo apagou tudo. É desanimador chegar em um ponto e não se saber para onde ir. Quem não usa agências de turismo fica um pouco à mercê da sorte. Além disso, um bom guia é escrito por quem fez o trajeto, sem ser necessário o uso de floreamentos e figuras de estilo. O que o ciclista ou o caminhante querem é informação técnica e precisa. Um bom guia foge dos padrões "guia de turismo" com texto para atrair clientes. O ciclista ou mochileiro já está no circuito e não precisa ser convencido de ir ou de que há "águas cristalinas" e "campos verdejantes". Ele já está lá. Se alguém pensar nisso, talvez muita coisa possa melhorar. Fica a sugestão.
Pronto, falei!
Diante de toda essa confusão, foi mais seguro seguir o conselho do Leonardo e finalizar a viagem. Aliás, a paisagem da estrada geral é bem bonita e esta cruza o trajeto original em dois pontos, além de ser uma descida alucinante, acompanhando o rio e passando por lugares bem agradáveis, com mais comércio e gente.Algo curioso aconteceu neste trecho. Estava subindo uma pequena ladeira entre os trechos de descida e um carro encostou ao lado da bicicleta. O motorista cumprimentou e perguntou se eu estava fazendo o Vale Europeu. Disse que sim, mas já estava voltando para Timbó. Ele queria confirmar pois pensou que estávamos fora do circuito original. Achei bem educado da parte dele mostrar esta preocupação. Agradeci e o carro seguiu. Olhei no vidro traseiro e a foto do motorista estava estampada. Era candidato a vice de alguma prefeitura.
Bom pedal a todos!
Ultreya!
| A travessia para a estrada |
| Chegando na Barragem Rio Bonito, Palmeiras |
O sexto dia segue com algumas subidas e poucas descidas. Sobe-se bastante, mas nada acentuado ou difícil. Apenas é necessário um pouco mais de preparo físico, paciência e, como já disse antes, uma 34. A paisagem não é tão bela quanto diz o guia. Achei um pouco cansativa, com poucas casas, vegetação abundante, mas sem muita variedade. E o sol estava castigando os miolos. Às 10 da manhã, o protetor solar já não fazia tanto efeito. Até se chegar nos portais da fazenda Custódio Bona, o corpo vai sofrer um bocado. Tenha paciência e disposição. Depois do portal, começa uma descida para Palmeiras. Há um ponto onde a descida torna-se bem acentuada. Quase no final, antes de uma curva, há um pequeno santuário com queda d´água sob uma marquise de pedra. É um ótimo lugar para parar, refrescar a cabeça na água gelada e rezar, se for o caso.
Mais uns minutos e é possível avistar a barragem Rio Bonito. Após a descida, há uma entrada à esquerda com algumas casas. Não se engane, é mais para frente, seguindo pela direita. Pedale por mais uns quilômetros e quando chegar no calçamento, o mercado do Faustino estará à esquerda. Ali é Palmeiras. Quem nos atendeu foi o Leonardo, sujeito muito prestativo e atencioso. Ele nos explicou a questão de não receber mais hóspedes: o hotel está desativado. Mas disse que, após a reforma que pretende fazer, vai receber novamente viajantes e ciclistas. Perguntamos como fazer para conseguir hospedagem e ele nos desanimou.
No final das contas nos restavam 3 opções:
1) pedalar até Cedro Alto pelo circuito e dali desviar até o Centro de Rio dos Cedros para dormir, voltando ao circuito no dia seguinte, pela subida-monstro de Rio Cunha;
2) fazer todo o sétimo dia dali pra frente, opção descartada por ser muito dura por conta justamente da subida monstro e do tempo que despenderia - já eram quase 3 da tarde;
3) acatar a sugestão de Leonardo: pedalar direto pela estrada geral sem seguir a seta que desvia para o circuito e chegar até Timbó finalizando a viagem.
Parênteses para críticas
Comentamos com algumas pessoas sobre o estado da sinalização e sobre a falta de atualização das informações, e muitos concordaram que a situação já foi melhor. Fica um alô para o pessoal do turismo da região: há muito o que melhorar no quesito informação. O guia está desatualizado, principalmente na parte alta, nem tudo coincide com o descrito e algumas placas sumiram. Raulino confirmou a mesma coisa com a placa que existia há um tempo no final da descida da Pedra Branca. Algumas placas simplesmente não têm mais o texto ou a seta, pois o tempo apagou tudo. É desanimador chegar em um ponto e não se saber para onde ir. Quem não usa agências de turismo fica um pouco à mercê da sorte. Além disso, um bom guia é escrito por quem fez o trajeto, sem ser necessário o uso de floreamentos e figuras de estilo. O que o ciclista ou o caminhante querem é informação técnica e precisa. Um bom guia foge dos padrões "guia de turismo" com texto para atrair clientes. O ciclista ou mochileiro já está no circuito e não precisa ser convencido de ir ou de que há "águas cristalinas" e "campos verdejantes". Ele já está lá. Se alguém pensar nisso, talvez muita coisa possa melhorar. Fica a sugestão.
Pronto, falei!
| Ponte coberta, Rio Milanês, na estrada geral |
| Timbó |
Em pouco menos de uma hora, chegamos a Rio dos Cedros e seu calçamento de matar qualquer glúteo. Paramos em uma padaria para um café e foi engraçado ver a cara da dona quando viu dois mulambos com o cabelo amarelo de poeira, a cara toda queimada de sol e as roupas imundas. O café estava bom e deu pra descansar um pouco do calor de verão que fazia. Com alguns quilômetros a mais de asfalto, estávamos dentro de Timbó, no mesmo ponto onde tudo começou, há 5 dias. O café e a vontade de chegar logo me deram energia extra e pedalei forte até a entrada da cidade. Parte da Avenida Getúlio Vargas estava fechada, enfeitada com bandeiras, aguardando o resultado das eleições. A cidade estava em festa.
Mais um roteiro completo, mais uma viagem vencida e a alegria de ter superado tantos obstáculos. Para quem quer se aventurar neste circuito, recomendo fazer. Apesar das dificuldades, vale a pena. Prepare-se, tenha fé, faça as reservas e soque a bota. É recompensador.
Daqui a uns dias farei um post com mais detalhes e informações que colhi nestes dias que vivi nestas belas montanhas. Espero que sejam úteis.
Daqui a uns dias farei um post com mais detalhes e informações que colhi nestes dias que vivi nestas belas montanhas. Espero que sejam úteis.
Bom pedal a todos!
Ultreya!
| O ponto zero do sexto dia - a placa já era! |
8.10.12
Vale Europeu - 4° dia: Doutor Pedrinho - Alto Cedros
Doutor Pedrinho é uma cidade muito, mas muito pequena. Com pouco menos de 4 mil habitantes, tem a hospitalidade já falada por aqui e mulheres bonitas. O Hotel Cristofolini é bem simples e tem boa hospitalidade. O Oscar atende com toda presteza e dá dicas de tudo o que se precise.
Saímos de Doutor Pedrinho 8 horas e pegamos o caminho errado. Na parte alta do trajeto, a sinalização começa a ficar precária e já se percebe o abandono do local. Como ouvi de um dono de restaurante, o (des)interesse político de uns faz a coisa não acontecer. Mas isso será assunto para o post final.
Partindo do ponto de término do dia anterior, seguimos sentido Cachoeira Véu de Noiva. Depois de um quilômetro pedalado, vimos que os pontos não batiam com a planilha. Resolvemos voltar. Descobrimos que estávamos no trajeto errado. O correto é cruzar a ponte ao lado da prefeitura, passar em frente a ela e seguir até o final da avenida. Logo depois do posto de gasolina, dobrar à direita e atravessar a ponte. Novamente direita e seguimos sentido cachoeira. Na verdade, a estrada segue paralela à primeira que pegamos, com arrozais no meio. Lá na frente elas se encontram. O trajeto passa ao largo de plantações de arroz e depois entra em bosques de pinheiros, praticamente plano por 10 km. Logo em seguida surge uma subida, a do Rio Lima até o Rio Palmito. Estas são um pouco mais duras, mas nada muito assustador.
A região é bem isolada. Vimos algumas casas abandonadas ou vazias que devem servir para veraneio. A maioria das propriedades é de cultivo de árvores para corte. Sinceramente não achei a paisagem tão deslumbrante como descrevem. É um pouco cansativo. O terreno é bem irregular, com muita pedra e lama graças à umidade dos bosques e ao deslocamento dos tratores da extração. Até chegar à Pedra Branca, será praticamente essa pulação de pedras, lama e, quando paramos para lanchar, descansar ou beber água, borrachudos. Muitos! Portanto, leve repelente e filtro solar. Serão extremamente necessários.
Já no final desse tormento de pedras, lama, subidas, descidas e borrachudos, finalmente começamos a descida da serra para o Alto Cedros, onde há uma barragem imensa, a Barragem do Pinhal. É uma região de veraneio, com casas em volta do imenso lago e pouca infraestrutura. Vá preparado. Ao chegar em Alto Cedros, a estrada abre em duas vias, direita e esquerda. A seta amarela no poste manda ir para a esquerda. E fomos. E nos demos mal. Dali até o final do loteamento são mais ou menos 6 km no sobe e desce cansativo. Chegando lá, quase no Hotel Parador da Montanha, descobrimos que praticamente não havia viva alma por ali. Parei em frente a uma casa com três pessoas conversando e acabei sabendo, através da Dona Marlene, que o local para onde deveria ir ficava do outro lado da barragem. Ou seja, voltando 6 quilômetros e pedalando mais um pouquinho. Dona Marlene nos levou até sua casa e se prontificou a telefonar para o Raulino, a pessoa indicada no guia para nos dar pernoite e refeições. O telefone dele não atendia. Nos vimos em uma enrascada: eram mais de 2 da tarde, o sol estava cansando, o trajeto de serra com pedras e lama nos havia extenuado a mente e o moral da tropa estava abalado. Tínhamos poucas alternativas: entrar no 7° dia, quase sem água, sem comida e com pelo menos 30 km adiante e poucas horas para fazê-lo; ir até o outro lado da barragem, procurar a "feirinha" para comprar água e algo para comer; encontrar o Bar do Mendes, onde teria uma mercearia e ali perguntar sobre lugar para pousar; seguir até Palmeiras (distante 12 km do Bar do Mendes), pulando o 6° dia; no caso de dar tudo errado, voltar ao loteamento e ficar na casa do José, um dos três que estavam conversando e que nos ofereceu hospedagem se fosse necessário. Decidimos seguir para a "feirinha".
Seis quilômetros depois, achamos a feirinha. É uma casa com produtos de fabricação local, como queijos, vinho, sucos, pães e outros. Fomos atendidos pela Dona Carmen, com seu sotaque carregado e simpatia extrema. Tentei convencê-la a voltar a andar de bicicleta, pois disse que caiu uma vez e não quer mais saber. Rimos um pouco, falamos da vida e pude comprar água e guaraná (estupidamente gelados, pra minha alegria). Sentei no ponto de ônibus. Ari e eu fizemos um lanche com os pães, queijo e salame que compramos no supermercado em Doutor Pedrinho. Dali seguimos para o Bar do Mendes, que fica alguns metros depois. Aí a coisa começa a ficar divertida.
Havia ali uns cinco homens bebendo. Quando falo bebendo é que devem ter começando quando Ari e eu saímos de Doutor Pedrinho. A tarde já ia forte e todos falavam ao mesmo tempo. Um deles disse que teríamos a pousada ao lado como alternativa, mas era muito cara e que o ideal seria pedalar até Palmeiras e ficar lá, onde havia um hotel. Cinco homens falando alto ao mesmo tempo, rindo e fazendo piada de si mesmos era cômico. Fiquei olhando e esperando surgir uma solução. Aí um deles, que não me lembro do nome, saiu do bar e veio na rua apontar a direção que seguiríamos. Falou que não tinha erro. Eu disse que faria o recomendado e que, na verdade, estava procurando o Raulino, mas o telefone não atendia. O homem ia apontar para a pousada quando viu o fusquinha azul vindo pela estrada. Era o Raulino. Que gritaria! Foi a hora mais engraçada do dia. O homem foi pro meio da pista e parou o carro do Raulino para eu tratar de hospedagem. O problema estava resolvido. Se eu não tivesse dado papo para bebedores como sempre faço, teria sido aquela cena de filme: eu e Ari passando pelo fusquinha azul e Raulino indo para casa. O problema vai para um lado, a solução para o outro e ambos se cruzam na cena. E o espectador lamentando no sofá.
Raulino tem a minha idade e mora em Alto Cedros desde os 2 anos de idade. Ou seja, conhece tudo. Recebe ciclistas em sua casa ou os hospeda em casas de aluguel no entorno. Disse para seguirmos seu carro até sua casa e que nos esperaria nas bifurcações. Então fomos. Era o que tínhamos no momento. A casa do Raulino fica mais ou menos na altura do loteamento de onde viemos, 5 quilômetros depois, só que do outro lado da barragem. Quando ciclistas vão a Alto Cedros, fazem reserva com dias de antecedência e Raulino vai buscar em um ponto, às margens da barragem atravessando o lago com alguns metros em seu pequeno barco a motor. Só que os dois aqui não reservaram nada, contaram com a sorte (que sempre está do lado dos tranquilos). Suamos muito para chegar na casa, mas valeu. Raulino e sua família nos receberam muito bem e ficamos em uma das casas de aluguel.
Conversamos por quase uma hora enquanto jantávamos e Raulino nos explicou como anda a situação do local, de Palmeiras e do restante do Circuito, parte alta. Em Palmeiras havia o hotel do Faustino, mas não está mais funcionando. Há uma pessoa chamada Duda que tem um chalé e aluga para ciclistas. Mas, sendo final de semana de eleições, ninguém estaria disponível. Raulino ligou paga Palmeiras para saber o que estaria disponível e nenhum local poderia nos receber. Ou seja, se tivéssemos ido para Palmeiras, nos veríamos em uma situação muito difícil: sem água, sem comida, já à noite e sem local para dormir. Os bêbados salvaram nossa pele!
Naquela noite, fui dormir cedo, pois o estresse do dia tinha me minado as forças. Antes das 9 já estava na cama. Ari e eu conversamos sobre as alternativas do domingo. Teríamos que ir a Palmeiras, fazendo o 6° dia do circuito, nosso 5° dia, achar uma zona eleitoral para justificar o voto, comprar água, achar um local que servisse comida ou lanche, saber se realmente não havia hospedagem e, se fosse o caso, seguir viagem, entrando no 7° dia até Cedro Alto, 6 km antes do Centro de Rio dos Cedros para poder achar hotel e dormir. O restante do 7° dia seria feito na segunda-feira, voltando a Cedro Alto, ponto onde teríamos parado no domingo, para dali fazer o Rio Cunha e seguir até Timbó pelo traçado original.
O sono veio e uma solução surgiria durante o domingo. Deixe o caminho te dar as respostas.
Saímos de Doutor Pedrinho 8 horas e pegamos o caminho errado. Na parte alta do trajeto, a sinalização começa a ficar precária e já se percebe o abandono do local. Como ouvi de um dono de restaurante, o (des)interesse político de uns faz a coisa não acontecer. Mas isso será assunto para o post final.
A vegetação começa a mudar, tornando-se um pouco mais densa, passando entre bosques, ora de pinheiros, ora de eucaliptos, com algumas araucárias. A extração de madeira é forte nessa região e é comum encontrarmos tratores colocando toras em caminhões ou pilhas de toras aguardando para serem recolhidas. Logo chegamos na divisa de cidades - Doutor Pedrinho/Rio dos Cedros. Os dois últimos dias serão praticamente dentro do município de Rio dos Cedros, serpenteando as montanhas, com um sobe-e-desce infinito. Prepare as pernas e, mais uma vez, fica a dica preciosa: catraca 34! Lembre-se disso!
A região é bem isolada. Vimos algumas casas abandonadas ou vazias que devem servir para veraneio. A maioria das propriedades é de cultivo de árvores para corte. Sinceramente não achei a paisagem tão deslumbrante como descrevem. É um pouco cansativo. O terreno é bem irregular, com muita pedra e lama graças à umidade dos bosques e ao deslocamento dos tratores da extração. Até chegar à Pedra Branca, será praticamente essa pulação de pedras, lama e, quando paramos para lanchar, descansar ou beber água, borrachudos. Muitos! Portanto, leve repelente e filtro solar. Serão extremamente necessários.
| Barragem do Pinhal, Alto Cedros, lá em baixo |
| Quando vir essa pedra, vire à direita! |
Havia ali uns cinco homens bebendo. Quando falo bebendo é que devem ter começando quando Ari e eu saímos de Doutor Pedrinho. A tarde já ia forte e todos falavam ao mesmo tempo. Um deles disse que teríamos a pousada ao lado como alternativa, mas era muito cara e que o ideal seria pedalar até Palmeiras e ficar lá, onde havia um hotel. Cinco homens falando alto ao mesmo tempo, rindo e fazendo piada de si mesmos era cômico. Fiquei olhando e esperando surgir uma solução. Aí um deles, que não me lembro do nome, saiu do bar e veio na rua apontar a direção que seguiríamos. Falou que não tinha erro. Eu disse que faria o recomendado e que, na verdade, estava procurando o Raulino, mas o telefone não atendia. O homem ia apontar para a pousada quando viu o fusquinha azul vindo pela estrada. Era o Raulino. Que gritaria! Foi a hora mais engraçada do dia. O homem foi pro meio da pista e parou o carro do Raulino para eu tratar de hospedagem. O problema estava resolvido. Se eu não tivesse dado papo para bebedores como sempre faço, teria sido aquela cena de filme: eu e Ari passando pelo fusquinha azul e Raulino indo para casa. O problema vai para um lado, a solução para o outro e ambos se cruzam na cena. E o espectador lamentando no sofá.
Raulino tem a minha idade e mora em Alto Cedros desde os 2 anos de idade. Ou seja, conhece tudo. Recebe ciclistas em sua casa ou os hospeda em casas de aluguel no entorno. Disse para seguirmos seu carro até sua casa e que nos esperaria nas bifurcações. Então fomos. Era o que tínhamos no momento. A casa do Raulino fica mais ou menos na altura do loteamento de onde viemos, 5 quilômetros depois, só que do outro lado da barragem. Quando ciclistas vão a Alto Cedros, fazem reserva com dias de antecedência e Raulino vai buscar em um ponto, às margens da barragem atravessando o lago com alguns metros em seu pequeno barco a motor. Só que os dois aqui não reservaram nada, contaram com a sorte (que sempre está do lado dos tranquilos). Suamos muito para chegar na casa, mas valeu. Raulino e sua família nos receberam muito bem e ficamos em uma das casas de aluguel.
Conversamos por quase uma hora enquanto jantávamos e Raulino nos explicou como anda a situação do local, de Palmeiras e do restante do Circuito, parte alta. Em Palmeiras havia o hotel do Faustino, mas não está mais funcionando. Há uma pessoa chamada Duda que tem um chalé e aluga para ciclistas. Mas, sendo final de semana de eleições, ninguém estaria disponível. Raulino ligou paga Palmeiras para saber o que estaria disponível e nenhum local poderia nos receber. Ou seja, se tivéssemos ido para Palmeiras, nos veríamos em uma situação muito difícil: sem água, sem comida, já à noite e sem local para dormir. Os bêbados salvaram nossa pele!
Naquela noite, fui dormir cedo, pois o estresse do dia tinha me minado as forças. Antes das 9 já estava na cama. Ari e eu conversamos sobre as alternativas do domingo. Teríamos que ir a Palmeiras, fazendo o 6° dia do circuito, nosso 5° dia, achar uma zona eleitoral para justificar o voto, comprar água, achar um local que servisse comida ou lanche, saber se realmente não havia hospedagem e, se fosse o caso, seguir viagem, entrando no 7° dia até Cedro Alto, 6 km antes do Centro de Rio dos Cedros para poder achar hotel e dormir. O restante do 7° dia seria feito na segunda-feira, voltando a Cedro Alto, ponto onde teríamos parado no domingo, para dali fazer o Rio Cunha e seguir até Timbó pelo traçado original.
O sono veio e uma solução surgiria durante o domingo. Deixe o caminho te dar as respostas.
| O dia seguinte prometia... |
6.10.12
Vale Europeu - 3° dia: Rodeio - Doutor Pedrinho
| Alto do Ipiranga, Rodeio |
Dormimos no Cama & Café Stolf. O lugar é excelente, casa de Seu Dante e Dona Irene. Fomos muito bem recebidos quando chegamos. Seu Dante tratou de providenciar uma mangueira com jato de água para lavarmos as bikes e bolsas. De manhã, um café da manhã excelente com ovos das galinhas criadas no quintal e pão caseiro. Ainda recomendaram fazer sanduíche para levar com frutas pois o dia é mais isolado que os demais. Saímos de Rodeio 8 horas em ponto para encararmos os 8,5 km de serra até o alto do bairro Ipiranga. Recomendo fazer reserva antes para que eles se preparem e sirvam o que há de melhor em hospitalidade italiana da região.
| Pequeno Paraíso |
Levamos praticamente 3 horas para subir e, chegando no topo, pegamos uma chuva bem leve e gelada. Uma dica dada pelo Seu Dante, de Rodeio, foi encher as garrafas com água de uma fonte em uma biquinha na beira da estrada. Na verdade, a biquinha é um cano branco que sai do barranco ao lado esquerdo do caminho, logo depois da casa da foto maior lá em cima. Não há qualquer sinalização. Mas, ao avistar esta fonte, pode parar, encher a caramanhola, beber a água gelada e pedalar mais 100 metros. Chegou-se ao topo. Há um pequeno platô em frente a uma casa. Dali, em dias de céu claro, pode-se ver toda a região ao redor. Pare, relaxe, estique-se, coma alguma coisa e depois siga por uma descida alucinada de uns 5 minutos com curvas fechadas e inclinação considerável. Se passar dos 45 por hora não estranhe. Só não vá derrapar e cair nas pedras.
Depois desse pequeno downhill, a estrada vai serpenteando propriedades, bosques de pinheiros e começam a surgir as madeireiras. São várias pela estrada. Não espere encontrar comércio ou locais para comprar alguma coisa pois não há. Somente perto do km 20 do guia é que encontramos uma pequena "venda" com água gelada e coisas para comprar. Como já estava na hora do "almoço", os sanduíches de Dona Irene caíram muito bem. Dali pra frente, subidas e descidas são algo bem comum. A coisa vai bem chata até se chegar ao Salto Donner, pouco antes de Doutor Pedrinho. Há uma subida monstro até o bairro. Depois disso, um pouco de descida. Quando se chegar aos campos de arrozal, basta mais uns 3 km para o destino final.
Em algum ponto da estrada, há um pequeno desvio (200 metros) para se visitar a única igreja em estilo enxaimel do Brasil. Esta igreja é luterana, como boa parte das que vi por estes dias. A melhor visão que se tem dela é do alto da subida após cruzar o rio e subir para o outro lado do morro. Se o dia estiver chuvoso ou tiver chovido antes, a quantidade de lama será absurda. É tanta lama que a bike do Ari quase não andava mais. Ficou pesada com o barro agarrando tudo. E esse barro seca bem rápido, parecendo um tijolo. Tivemos que parar e mexer nisso com chave de fenda pra soltar o grosso das partes móveis.
Chegamos em Doutor Pedrinho. A cidade é bem pequena, praticamente com 2 ruas, tem pouco mais de 3 mil habitantes e é mais fria que as que visitamos nos últimos dias. Fiquei curioso com o nome e descobri que Doutor Pedrinho foi pai do governador Aderbal Ramos e este foi sobrinho de Nereu Ramos e Celso Ramos, nomes famosos no estado. Chegamos cedo, antes das 3 da tarde. Há uma confeitaria pequena e bem bonita logo na entrada da cidade, a alguns metros da prefeitura e ao lado dos Correios. Peça uma fatia de torta das várias que estão na vitrine, sente na mesa de pedra do lado de fora e aprecie o "movimento" da cidade.
As bikes precisavam de um trato. Recomendaram o único lugar onde se conserta bicicleta na cidade: a "lojinha" do Jerônimo (que tem um apelido que não lembro, acho que Luni, Loni). Ele deu uma limpeza e lubrificação caprichadas no equipamento e a bike parecia nova! Total do serviço: 5 reais! Quase inacreditável. Pronto. Agora é curtir Doutor Pedrinho até amanhã, dia de pedal mais isolado por entre represas, propriedades e um pouco mais de barro.
4.10.12
Vale Europeu - 2° dia: Pomerode - Indaial - Rodeio
Esta foto ilustra bem como foi o dia de hoje:
O dia começou cedo, pouco antes das 7. O café da manhã da Pousada Max estava muito bom. Com a chuva fraca lá fora, montamos as bikes e seguimos pela ciclovia até o ponto de início do 2° dia, a 3,5 km do Centro de Pomerode.
Pomerode é uma cidade interessante. Praticamente todos são descendentes de alemães. Os cartazes da política mostram os nomes complexos e os rostos bem característicos. Aí vem a ideia de que todos são fechados e andam de cara amarrada. Pelo contrário: em todos os estabelecimentos onde estivemos, em todos os pedidos de informação e em qualquer contato com locais, fomos muito bem tratados, com muita educação, atenção e sorrisos. Não sei se isso se deve ao efeito bicicleta. Mas causou uma ótima impressão. Pouco antes de entrar na "estrada de chão", parei em uma pequena mercearia para comprar água e fui muito bem recebido pela senhora que atendia. Quando saí, comentei com o Ari que é algo bem diferente do modo como sou tratado nos grandes centros, repletos de "cultura", "gente civilizada" e com "alto nível de educação". Na verdade, todos vivem morrendo de medo de tudo e acabam se tornando pessoas secas, amargas e desconfiadas. Fazer o quê, né?
| Subida para o Wunderwald |
As paisagens de hoje foram muito mais belas, o trajeto muito mais agradável e o contato com as pessoas mais interessante. Saindo de Pomerode rumo Indaial (o segundo dia do Circuito), sobe-se uma serra pelo bairro de Wunderwald. As paisagens são como a foto ao lado. Em muitos lugares dá vontade de parar e ficar por ali. Comentei com Ari que a câmera não consegue captar o que vimos. Além dos sons, dos cheiros, das texturas, umidade e luz, só mesmo o corpo humano consegue sentir o local. É algo quase inexplicável e bem pessoal. Em determinado momento, paramos para comer uns cereais e comentei o que deveria significar wunderwald em alemão. Imaginei ser algo como Bela Vista ou algo semelhante. Há pouco descobri tratar-se de "bela floresta". Em uma parte da subida, mais para o final, paramos para identificar um som diferente. Ari falou que eram bugios. Minutos depois sobe um colono com suas enxadas e facão e resolvi perguntar. Ele confirmou: bugios. Os gritos dos bugios mostram ao grupo quem é o líder. Brinquei com Ar que o bugio gritão era o macho alfa do grupo. Daí fomos conversando e discorrendo sobre a necessidade que os homens têm em explorar, em descobrir e "caçar". Isto, em parte, diferencia os alfa dos beta, os que procuram algo, dos habitantes de sofá e programas de tv. No final das contas, senti que eu queria estar exatamente ali, com chuva, frio, suado, enlameado e feliz.
Pouco depois paramos em uma cancha de bocha que fica no meio da serra. Conhecemos Sigfried, dono da cancha. Não muito diferente de outros, mal fala português. Conversamos um pouco e ele falou da rotina da cancha, dos campeonatos e dos momentos de diversão que os sócios têm, a grande maioria colonos e moradores do alto. Fiquei imaginando aquela cancha numa quinta ou sexta à noite, repleta de alemães bebendo cerveja, rindo alto e conversando em sua língua materna. Algo foi interessante de observar. Perguntei a Sigfried se os sócios levavam família nos encontros. Ele disse que quase não ia gente além dos sócios jogadores. Pouco antes, mais para baixo, nos deparamos com cena interessante. Passamos por uma casa de madeira bem simples. Um cachorro atravessou a estrada latindo e foi para dentro do terreno. Uns segundos depois, descia uma senhora com um fardo de folhas de bananeira dos ombros. A senhora estava com roupas bem sujas e rotas, um cigarro de palha no dedo e mal dava pra ver seu rosto que se escondia dentro das folhas. Subimos mais um pouco e ela voltava, já sem o fardo. Trazia na mão uma foice e fumava seu cigarro de palha. Ela ia passando e eu fiquei olhando para o seu rosto bem castigado, suas roupas rotas de trabalho e o lenço na cabeça. Ela manteve o olhar para o chão até que eu falei "bom dia". Ela respondeu bem baixinho, abaixou a cabeça e continuou. Pensei no motivo daquela discrição toda. Comentei com Ari e ele falou o mesmo que pensei: pelo fato de ser mulher, em sua cultura, não deve se dirigir a um homem. Caso eu não tivesse falado nada, ela passaria sem olhar para frente ou falar qualquer coisa. Sigfried confirmou isso, mesmo de maneira velada, em nossa conversa. A mulher tem uma posição diferente da nossa ideia ocidental contemporânea. Bebemos uma coca-cola que achei por bem comprar para ajudar o negócio do alemão tão atencioso e prestativo. Nos despedimos, desejamos boa sorte no campeonato que se desenrolava (sua cancha estava em primeiro) e seguimos na chuva.
| Chegando em Indaial |
Depois da descida alucinante (estreei o suporte de câmera que comprei para o guidão e fiz um vídeo que publicarei logo) a mais de 30 por hora, estamos chegando a Indaial, pelo bairro da Mulde. Do outro lado do rio já se pode ver a torre da igreja. Indaial seria o final do segundo dia do Circuito. Porém combinamos de emendar o segundo dia com o terceito, fazendo Indaial a Rodeio na parte da tarde. Como era pouco mais de 13 horas, daria para fazer um lanche, descansar um pouco e seguir viagem. O trecho do terceiro dia é curto e praticamente plano, 26 km. Paramos em uma lanchonete perto da ponte, comemos um ótimo sanduíche com suco de morango, depois café, conversamos um pouco e seguimos viagem. Ah, nem preciso dizer que o atendimento dado pelo dono do bar foi melhor do que já tive em muitos restaurantes onde deixei algumas notas de 50 reais por serviço mediano, senão ruim.
![]() |
| Ponte Pêncil |
Começou o terceiro dia, só que no segundo. É um trecho fácil, mas é chato. Saindo de Indaial há uma avenida de pouco mais de 8 km. Ela começa com calçamento de paralelepípedo - horrível para pedalar - vira terra, depois barro e muita lama por conta de uma obra, depois asfalto e aí fica mais fácil. Poucos quilômetros depois estamos na Ponte Pêncil. Ela não faz parte do trajeto, mas merece visita. Pedala-se mais 700 metros em uma estrada de terra para atravessá-la e daí é só voltar. A sensação de atravessar uma ponte sustentada por cabos de aço e feitas de tiras de madeira que se movimentam quando se passa por elas é algo meio assustador. Achei que o meu pânico em pontes fosse me impedir, mas passei tranquilamente. Depois dessa ponte, a pouco mais de um quilômetro, há uma ponte coberta. Europeus usam este tipo de cobertura em pontes de madeira (um simples telhado de metal) para conservar o emadeiramento do tempo. A partir daí, a estrada segue por um trecho longo, margeando o rio até cruzar com a rodovia. Dali atravessamos e vamos para Ascurra, cidade interessante e intrigante por um detalhe que presenciei.
Subindo a avenida, pedalava pensando no pentagrama e passei por um ponto de ônibus. Ali estava sentada uma mulher. E posso dizer que foi uma das mulheres mais lindas que vi na vida. Olhamos no olho, ela desviou o olhar e eu segui pensando no que havia naquela cidade. Ato falho ou não, segui por uma rua errando o caminho. Só me dei conta quando ouvi Ari gritar. Voltei e seguimos pelos 6 km restantes até Rodeio.
Rodeio é uma cidade interessante. Pequena, ao pé do morro do Ipiranga, início do trajeto de amanhã, 4° dia do circuito (terceiro nosso). Foi povoada por tiroleses e percebe-se isso nas ruas, nos restaurantes e nas pessoas. O ponto final do trajeto é em frente à prefeitura. Paramos ali, sentamos no banco na calçada, bebemos água e descansamos pensando no que fazer. Então, um homem nos olha e pergunta se precisamos de carimbo no passaporte do Circuito. Digo que sim e ele pede para esperar. João voltou, abriu o prédio ao lado da prefeitura e nos chamou para ir. Eu fui e Ari ficou com as bikes. João carimbou e falou que se sentia grato por ajudar quem estava precisando. Deu dica de hospedagem e onde comer. Mais uma vez, fui tratado muito bem por alguém que nunca me viu e que desviou de seu caminho simplesmente para ajudar. Acabamos parando no Cama & Café Stolf. Quem nos recebeu foi o Sr. Dante e sua esposa Irene. Tratamento melhor não há! S. Dante disponibilizou logo água para lavarmos as bikes antes que o barro secasse e travasse tudo. A hospedagem é sua própria casa e o quarto fica no segundo andar. Tem um ótimo preço e atenção especial dos donos. Eu sugiro fazer reserva antes de vir. Nem tanto por conta de vaga, mas sim porque eles precisam se preparar para receber gente. Felizmente havia vaga e muito carinho.
| Santo Ambrósio, Ascurra |
Em 2011, quando estive em Castrojeriz, no Caminho de Santiago, me deparei com uma igreja (San Juan), que tinha em um dos seus vitrôs um pentagrama invertido (esta mesma igreja tem, em uma parede, um relevo de um crânio com dois ossos cruzados, como das bandeiras de pirata). Aquilo me intrigou, pois nunca havia visto este símbolo, o pentagrama invertido, atribuído aos satanistas, em um templo católico. Eu quis visitar a igreja, mas não pude. Tentei entrar, mas não pude. Passei um tempo tentando encontrar o significado, mas não achei nada. Então, hoje, pude parar em frente à igreja de Santo Ambrósio, na entrada de Ascurra e observar o templo imenso que se vê de muito longe, do outro lado do rio, do outro lado da rodovia. Olhei com mais atenção e acabei achando o pentagrama. Continuei o pedal querendo ir até a igreja e ver o que tinha ali. A curiosidade estava tomando conta de mim. Mas acabei seguindo, pois Ari estava mais à frente esperando. Como em Castrojeriz, não pude ver o que havia por dentro daquele templo. Mais detalhes sobre Castrojeriz estão no post do Diário do Caminho de Santiago.
| O pentagrama |
Subindo a avenida, pedalava pensando no pentagrama e passei por um ponto de ônibus. Ali estava sentada uma mulher. E posso dizer que foi uma das mulheres mais lindas que vi na vida. Olhamos no olho, ela desviou o olhar e eu segui pensando no que havia naquela cidade. Ato falho ou não, segui por uma rua errando o caminho. Só me dei conta quando ouvi Ari gritar. Voltei e seguimos pelos 6 km restantes até Rodeio.
Rodeio é uma cidade interessante. Pequena, ao pé do morro do Ipiranga, início do trajeto de amanhã, 4° dia do circuito (terceiro nosso). Foi povoada por tiroleses e percebe-se isso nas ruas, nos restaurantes e nas pessoas. O ponto final do trajeto é em frente à prefeitura. Paramos ali, sentamos no banco na calçada, bebemos água e descansamos pensando no que fazer. Então, um homem nos olha e pergunta se precisamos de carimbo no passaporte do Circuito. Digo que sim e ele pede para esperar. João voltou, abriu o prédio ao lado da prefeitura e nos chamou para ir. Eu fui e Ari ficou com as bikes. João carimbou e falou que se sentia grato por ajudar quem estava precisando. Deu dica de hospedagem e onde comer. Mais uma vez, fui tratado muito bem por alguém que nunca me viu e que desviou de seu caminho simplesmente para ajudar. Acabamos parando no Cama & Café Stolf. Quem nos recebeu foi o Sr. Dante e sua esposa Irene. Tratamento melhor não há! S. Dante disponibilizou logo água para lavarmos as bikes antes que o barro secasse e travasse tudo. A hospedagem é sua própria casa e o quarto fica no segundo andar. Tem um ótimo preço e atenção especial dos donos. Eu sugiro fazer reserva antes de vir. Nem tanto por conta de vaga, mas sim porque eles precisam se preparar para receber gente. Felizmente havia vaga e muito carinho.
Há pouco, Ari falou algo que eu já havia pensado muito rapidamente enquanto pedalava: parece que estamos há uma semana aqui, apesar de serem só dois dias. A relatividade do tempo na cabeça de uma pessoa, algo a se pensar. Amanhã tem mais. A mente começa a aquieta-se e o que vem de dentro passa a me falar com mais clareza. Ou eu estou ouvindo o que não consigo ouvir por conta da poluição que o mundo nos força a digerir diariamente.
3.10.12
Vale Europeu -1° dia: Blumenau - Timbó - Pomerode
| Início do Circuito, Timbó |
Eis que mais uma vez coloco Amelia pra rodar pelo mundo. Dessa vez foi no Circuito Vale Europeu, em Santa Catarina. O circuito abrange 7 dias de pedal por belas regiões, com algumas subidas de desanimar e muita terra, pedra e bons momentos. Meu companheiro de empreitada é o Ari, ex-colega de trabalho, gaúcho aventureiro de mão cheia, já tendo ido até Ushuaia de moto sozinho, a Manaus de microônibus, a Cuzco de carro (sem contar a Trilha Inca com um trekking de 4 dias) e umas semanas na Índia . Agora o Chê tá inventando de irmos para Cuba pedalar por 30 dias.
Eu acho graça - até senti saudades e me peguei rindo quando alguém falava algo.
| Ponte sobre o rio Itajaí-açu, Blumenau |
Entrei no Museu do Imigrante e fui muito bem recebido por uma senhora do atendimento. Ela explicou que as credenciais, mapas e etc poderiam ser pegas no próprio restaurante, na porta dos fundos. Chamei alguém e logo uma pessoa veio atender. Temos que entrar pelos fundos, passando pela cozinha e dali chegamos no salão onde uma mulher nos atendeu, explicou alguns detalhes e nos entregou formulários e o material. Custo: 10 reais. Este detalhe não estava no site, ou estava e eu não vi. Pagamos e seguimos.
Resolvi parar para um café em uma lanchonete logo depois do início e ali fui atendido pela Dona Neuza, uma gaúcha que me explicou que o rapaz que fazia os lanches tinha ido ao supermercado, mas voltaria logo. E que havia um café ali muito bom que ela prepararia para mim enquanto eu esperava o menino lancheiro. Conversamos um pouco e ela achou que eu estava em um grupo com carro de apoio, mecânico de bicicletas e todas as facilidades. Quando disse que estava em dupla com um amigo gaúcho que esperava lá fora, ela ficou meio assustada. Mas assustou-se mesmo quando soube que eu cruzei a Espanha na mesma bicicleta que estava ali fora, no ano passado. Disse que sou uma pessoa abençoada, me encheu de elogios que abasteceram meu ego para seguir viagem bem animado. Prometi a Dona Neuza voltar na lanchonete no final do circuito para comer o lanche anunciado que parecia ser algo muito bom. Não pude esperar. Ainda teríamos quase 50 km de estrada de terra pela frente com algumas subidas íngremes.
| Enxaimel |
Saindo de Timbó, senti o pneu traseiro meio baixo. Parei em um posto, enchi e seguimos. Mas, pouco antes de passar perto de Rio dos Cedros, vi que o pneu estava mesmo baixo de novo. Acabamos errando o caminho e aumentando em quase 5 km o trajeto original, indo para dentro de Rio dos Cedros. Foi providencial. Encontramos uma loja de bicicletas com oficina e o seu Tarcízio resolveu tudo em menos de 15 minutos. Depois de Rio dos Cedros teríamos que reencontrar o circuito e seguir por ele na parte mais difícil do dia. O caminho segue por quase 30km por dentro das montanhas, com algumas casas estilo enxaimel. O guia indica pegar a Estrada Carolina para Pomerode. Esta estrada é algo bem cansativo e desanimador. Mas compensa o esforço. Suei muito, pensei muito, senti escorrer pelo nariz todo o lixo respirado na poluição de SP. Parece que os pulmões não cabem tanto ar puro. Na descida, com o dedo colado nos freios, é difícil segurar a bike a menos de 30 km/h. Logo estamos na parte baixa, passando ao lado da Rota Enxaimel, a poucos quilômetros de Pomerode.
| Fim do 1° dia! |
Amanhã seguimos para Indaial e vamos emendar com o que seria o 3° dia: Indaial - Rodeio, trecho curto, praticamente plano e de uma beleza sem igual. Lá é que está o sr. Paulo Notari, o homem mais feliz do mundo, com seus 14 km de hortênsias plantadas em quase duas décadas. A previsão para estes dias era de um pouco de chuva. Hoje ela não deu a graça. E que continue assim!
| Ponte coberta |
24.9.12
Por aí... Embu das Artes
Neste domingo, 23, resolvi ir a Embu das Artes, coisa que já planejava há umas semanas. Baseei-me no roteiro SP-Sorocaba do Bikely. É um trajeto cansativo, com muito trânsito, muita poluição, trechos de rodovia e locais absurdos para se passar. Mas venci.
O lugar é bem movimentado e até se chegar ao Centro Histórico, há que se subir um pouco. Mas nada que a boa relação de marchas da Amelia não resolva. Cheguei ao Centro e à praça onde acontece a feira de artes e artesanato. O lugar é agradável, com muita gente circulando, olhando e curtindo o domingo. O clima estava ameno, mais para frio, nublado e agradável. Depois de 2 horas e 28 km pedalados, queria lavar o rosto, lavar as mãos e beber algo bem gelado. Andei por umas ruas e resolvi parar numa lanchonete para comer um lanche. Deixei a bike junto da cadeira, o que fazia as pessoas olharem e fazerem algum comentário. Não vi ciclistas por lá, só no trajeto, voltando. Comi meu lanche, fiquei por ali uns bons minutos ouvindo o sambinha que o trio do restaurante tocava e resolvi andar mais.
Restava-me pedalar mais 28 km de volta. Errei a entrada por onde vim e acabei saindo no trevo principal de Embu. O movimento de caminhões estava absurdo na BR e ainda havia um pequeno acidente entre um carro e um caminhão. Depois disso, foi descida até o Rodoanel, uns 2 km. Descobri que era impossível seguir pela BR pois não havia acostamento. Peguei a subida do Rodoanel e vi que havia uma pista paralela. Pensei que esta sairia na BR. Acertei. Antes da curva que leva ao viaduto, há uma passagem na grama que leva para a paralela. Entrei e consegui sair na BR novamente, depois do Rodoanel. Uma descida de uns 500 metros chega na passarela. Pensei que seria melhor atravessar e pegar a marginal do outro lado até a ciclovia de Taboão, por onde vim. Melhor escolha. Depois disso, seria vencer a Francisco Morato até a ponte Eusébio Matoso e estaria na Rebouças.
Depois foi só ir até o cruzamento com a Brigadeiro e aproveitar a ciclovia do canteiro central até a Cidade Jardim, pegar a 9 de Julho e subir para casa. Cheguei em casa 6h10 da tarde, bem cansado, com fome e satisfeito. Foram 62 km pedalados, praticamente 6 horas de passeio e um pouco mais de experiência. Agora, que venha o Valeu Europeu!
| Na ponte sobre o Pinheiros |
Saí de casa meio-dia em ponto. Antes tinha outras coisas pra fazer, ajustes na bike e mais arrumações. Parti rumo 9 de Julho, subi a ladeira que sai atrás do MASP, entrei na Itapeva e, mais uma vez, o guardador de carros me cumprimentou pela pequena subida. Atravessei a Paulista (dia de ciclofaixa), desci a Casa Branca até a Estados Unidos e dali para a Rebouças até a Ponte da Eusébio, sobre o Rio Pinheiros. Estava um pouco frio, um ventinho incômodo. Em determinado trecho, fui dar uma puxada no guidão para subir calçada e senti a lombar. A dor me acompanhou até a volta. Mas deu pra levar. Em menos de 20 minutos estava sobre o rio.
| Ciclovia de Taboão |
Cheguei ao outro lado sabendo que teria que enfrentar bons quilômetros de Francisco Morato até Taboão. Foi a parte mais chata do trajeto. Em alguns trechos quase não há calçada e andar na pista é arriscado pois é faixa de ônibus e estes estão sempre com muita pressa. Como eu não estava com pressa e passeando, fiquei pela calçada enquanto deu, parando, desviando e esperando pedestres passarem. Logo estava na divisa de Taboão, onde começa a Régis Bittencourt ou BR-116. Esta começa cortando Taboão numa pequena subida bem movimentada. Era domingão, horário de almoço e tudo estava cheio: restaurantes, filas para comprar o frango de "televisão de cachorro", igrejas e pontos de ônibus. Pouco antes de começar a subir, bem na divisa, há uma feira. Parei para tomar um caldo de cana com abacaxi muito gostoso. É combustível precioso para mais uma hora de pedal.
| Pouco antes do Rodoanel |
Segui a rota da Bikely que sugere usar a ciclovia de Taboão. Esta segue margeando o Córrego Poá até alguns quilômetros antes da divisa de muncípios. Terminando a ciclovia, sobe-se uma pequena rua e já estamos na BR. Há uma via marginal (muito mal cuidada) que dá pra ir quase até a entrada do Rodoanel (onde há o primeiro trevo de Embu). Uma vez na rodovia, segue-se pelo acostamento por menos de 1 km, passando por uma placa que diz: "PROIBIDO TRÂNSITO DE PEDESTRES E CICLISTAS A PARTIR DESTE PONTO". a Bikely indicava descer uma pequena rua após um posto de gasolina e pegar uma avenida chamada Paulista. Não achei a entrada e prossegui burlando a lei. Menos de 500m depois, ao passar por baixo do Rodoanel, em uma descida frenética, a saída encontra com esta Avenida Paulista. Já estou em Embu das Artes.
| Café e Pensamentos |
Parei para um café em uma cafeteria com uma cara boa, escrevi alguma coisa no meu caderninho de anotações e deixei os pensamentos fluírem enquanto ouvia um grupo de música andina tocar. O bom é que esse grupo tocava realmente música andina e não Roberto Carlos ou Julio Iglesias como a maioria faz nas praças das cidades. Lembrei de pessoas que poderiam estar ali comigo, lembrei de gente que estava longe e teria curtido um pedal desses, pensei de algumas oportunidades perdidas, companhias que se vão e sentimentos que escorrem e evaporam como o suor. Terminei o café e senti o vento que esfriava e poderia trazer chuva. Tratei de pagar, recolher minhas coisas e botar o pé na estrada. Já estava há quase uma hora lá. Meus planos era de voltar no máximo às 4 da tarde para não pegar o trajeto de noite.
Depois foi só ir até o cruzamento com a Brigadeiro e aproveitar a ciclovia do canteiro central até a Cidade Jardim, pegar a 9 de Julho e subir para casa. Cheguei em casa 6h10 da tarde, bem cansado, com fome e satisfeito. Foram 62 km pedalados, praticamente 6 horas de passeio e um pouco mais de experiência. Agora, que venha o Valeu Europeu!
23.9.12
Dia do Carro
Agora, todo dia é dia de alguma coisa.
Semana passada, enquanto pedalava pela ciclofaixa da Paulista, ao parar em um cruzamento, a senhora que fazia a sinalização disse que neste sábado, 22, haveria ciclofaixa novamente, pois seria Dia do Carro e isso poderia servir para trabalhar a cabeça dos motoristas.
Não sou cicloativista, não condeno os carros e não tenho posição a respeito do assunto. Apenas gosto de pedalar sem incomodar e sem ser incomodado. Há umas semanas, me livrei do carro que tinha. Quando morei no Rio, também não tive carro. Comprei um apenas um pouco antes de ir morar em SC, pois seria útil para carregar minhas coisas na mudança e me deslocar por lá. Agora, voltei a andar a pé. Na época do Rio, pensei muito sobre o que um conhecido disse e fez lá pelo final dos anos 90. Certa vez, conversando sobre a vida, ele disse que passou 1 ano anotando tudo o que gastava com o carro, desde um pequeno parafuso até os gastos com gasolina, aditivos e tributos. Resolveu vender e andar de táxi e metrô. Eu fiz o mesmo em 2009. Atualmente, moro a 900 metros do trabalho e, caso quisesse ir de carro, de metrô ou de ônibus, teria que andar mais do que indo a pé. E, mesmo agora, já com quase 1 ano de SP, caso morasse mais afastado do trabalho, não teria carro. Rodaria de táxi, transporte público e bike.
Acho interessante o ponto de vista da grande maioria das pessoas com relação ao carro. Lembro de ter lido textos na faculdade que remetiam ao pós-segunda guerra e ao alinhamento do Brasil com os EUA, incentivos ao crescimento do parque industrial e a discursos de Getúlio Vargas no sentido de se expandir a produção e comercialização dos bens de consumo. E, dentre geladeiras, eletrodomésticos e outros, estava o carro. Ou seja, carro é bem de consumo e não "patrimônio" ou "investimento" como muitos pensam. Carro só é investimento para revendedores e locadoras. Para nós, simples contribuintes, é um bem de consumo que perde seu valor com o tempo e o uso. Experimente comprar um carro zero quilômetro hoje e levar na semana seguinte na loja onde comprou. Você pagou 60 mil em um novo e a loja vai te pagar 50 mil (sendo muito generosa). Mas a grande massa pensa no carro como investimento e símbolo de status. É comum (e engraçado) ouvir as pessoas dizerem "meu retrovisor quebrou", "meu banco é de couro", "meu parachoque amassou". Pessoas que têm peças de carro nos seus corpos. Estranho e cômico. As peças são do carro e não da pessoa! Mas, deixa isso pra lá.
O que mais me fez pensar e me convenceu a ficar sem carro foi o cálculo de quanto se gasta para ter um parado na garagem. O que eu fiz? Somei todos os custos que envolvem ter um carro de 60 mil no período de 2 anos. Estes custos englobam depreciação, IPVA, estacionamento, multas, Controlar, taxas do Detran, pequenos reparos, gasolina, manutenção, revisões e mais alguns itens que um carro demanda. A conta chegou a cerca de 16 mil reais por ano. Somando o valor do carro, 60 mil (considerando que seja comprado à vista - financiado essa conta aumenta), com a despesa anual, teremos desembolsado 92 mil reais (60.000,00 + 16.000,00 x 2 anos). Se usarmos o carro todos os dias do ano, sem folga, a conta resulta em cerca de 252 reais por dia.
R$ 252,00 por dia? Mas isso daria pra andar de táxi pra todo lado e ainda sobraria!
É, sobraria. Mas o mais interessante dessa conta é o tempo que se perde. Outro dia, voltando do Ibirapuera, subi a Campinas rumo Paulista. Marquei um carro e observei quem chegaria primeiro. O carro, com seu motor 2.0, subia a alameda e me passava. O sinal fechava, eu o passava, com minha bike 21 marchas, pedalando devagar na marcha mais leve e sem fazer muita força. O sinal abria, o 2.0 me passava e logo empacava, eu passava de novo e seguia minha vida de lesma. Cheguei na Paulista e, depois de passar a próxima quadra, vi o 2.0 seguir seu avança/para eterno.
Em outras ocasiões, quando saí na noite, vi como é difícil chegar em alguns lugares. 4 pessoas no carro conversando, ouvindo música e esperando o trânsito andar. Quando se chega ao destino, tem que achar lugar pra parar, pagar e depois entrar. Na saída, ou espera o carro vir ou vai até ele. Sexta-feira passada, fui a 3 lugares diferentes: da Vila Mariana para o Itaim, dali para a Vila Mariana e depois pra casa, na Bela Vista. Cada viagem custou 10 reais e quem tinha que se preocupar com a direção, onde parar e como seguir era o taxista. Bastava sair da porta do bar, abrir a porta do táxi e dizer a direção. Prático, né?
Bom, hoje é o dia do carro e vai ter muita gente dentro dele esperando por alguma coisa que nunca chega. Eu quero propor o Dia do Sofrimento do Motorista que é a figura principal dessa história, o ser humano, a pessoa, e não esse monte de metal e plástico tão idolatrado por todos.
Pra comemorar o dia do carro, neste domingo vou a Embu das Artes ver artesanato, comer alguma coisa e me divertir. E vou pedalando.
Semana passada, enquanto pedalava pela ciclofaixa da Paulista, ao parar em um cruzamento, a senhora que fazia a sinalização disse que neste sábado, 22, haveria ciclofaixa novamente, pois seria Dia do Carro e isso poderia servir para trabalhar a cabeça dos motoristas.
| Cadillac Eldorado - Batel, Curitiba |
Acho interessante o ponto de vista da grande maioria das pessoas com relação ao carro. Lembro de ter lido textos na faculdade que remetiam ao pós-segunda guerra e ao alinhamento do Brasil com os EUA, incentivos ao crescimento do parque industrial e a discursos de Getúlio Vargas no sentido de se expandir a produção e comercialização dos bens de consumo. E, dentre geladeiras, eletrodomésticos e outros, estava o carro. Ou seja, carro é bem de consumo e não "patrimônio" ou "investimento" como muitos pensam. Carro só é investimento para revendedores e locadoras. Para nós, simples contribuintes, é um bem de consumo que perde seu valor com o tempo e o uso. Experimente comprar um carro zero quilômetro hoje e levar na semana seguinte na loja onde comprou. Você pagou 60 mil em um novo e a loja vai te pagar 50 mil (sendo muito generosa). Mas a grande massa pensa no carro como investimento e símbolo de status. É comum (e engraçado) ouvir as pessoas dizerem "meu retrovisor quebrou", "meu banco é de couro", "meu parachoque amassou". Pessoas que têm peças de carro nos seus corpos. Estranho e cômico. As peças são do carro e não da pessoa! Mas, deixa isso pra lá.
| Porsche 356 - Batel |
R$ 252,00 por dia? Mas isso daria pra andar de táxi pra todo lado e ainda sobraria!
É, sobraria. Mas o mais interessante dessa conta é o tempo que se perde. Outro dia, voltando do Ibirapuera, subi a Campinas rumo Paulista. Marquei um carro e observei quem chegaria primeiro. O carro, com seu motor 2.0, subia a alameda e me passava. O sinal fechava, eu o passava, com minha bike 21 marchas, pedalando devagar na marcha mais leve e sem fazer muita força. O sinal abria, o 2.0 me passava e logo empacava, eu passava de novo e seguia minha vida de lesma. Cheguei na Paulista e, depois de passar a próxima quadra, vi o 2.0 seguir seu avança/para eterno.
| Chevelle Malibu - Batel |
Bom, hoje é o dia do carro e vai ter muita gente dentro dele esperando por alguma coisa que nunca chega. Eu quero propor o Dia do Sofrimento do Motorista que é a figura principal dessa história, o ser humano, a pessoa, e não esse monte de metal e plástico tão idolatrado por todos.
Pra comemorar o dia do carro, neste domingo vou a Embu das Artes ver artesanato, comer alguma coisa e me divertir. E vou pedalando.
21.9.12
Vale Europeu - SC
Eis que começa a contagem regressiva para as férias e lá vou eu me sujar de lama e subir montanha com a tralha no bagageiro.
Existe um circuito turístico ali pelo Vale de Itajaí chamado Vale Europeu. Para os cicloturistas, o passeio começa e termina em Timbó, atravessando algumas cidades como Doutor Pedrinho, Rodeio e Pomerode. Há subidas consideráveis, muito barro e sofrimento, mas também há cachoeiras, belas paisagens, gente boa pelo caminho e o prazer de se estar o dia todo pedalando. É bom sumir um pouco do asfalto, das buzinas, do agito dos workaholics e das noites mal dormidas por conta de gente sem noção que habita as megalópoles.
![]() |
| Represa Rio Bonito - foto: www.bemvindocicloturista.com |
![]() |
| O homem mais feliz do mundo |
Espero conhecer gente interessante, ouvir histórias, provar comidas diferentes, sentir o clima do lugar e me deliciar em algumas águas da região. Quero conhecer o Sr. Paulo Notari, que se diz "o homem mais feliz do mundo". Seu Paulo, há mais de 17 anos planta hortênsias. Já são 14 km de flores no caminho que vai até a sua casa, na cidade de Rodeio. Ele diz morar no paraíso. E eu quero comprovar. Para quem tiver interesse em conhecer mais da história de Seu Paulo, existe uma pequena matéria interessante dando mais detalhes aqui.
Vou procurar escrever durante o trajeto e postar algumas fotos, dando alguns detalhes, ao estilo Diário do Caminho de Santiago 2011. E, caso tenha oportunidade, antes do início, falarei sobre a preparação para esta viagem. Desejem-me sorte, ou glück, ou ainda buona fortuna!!
Vou procurar escrever durante o trajeto e postar algumas fotos, dando alguns detalhes, ao estilo Diário do Caminho de Santiago 2011. E, caso tenha oportunidade, antes do início, falarei sobre a preparação para esta viagem. Desejem-me sorte, ou glück, ou ainda buona fortuna!!
20.9.12
Caminho de Santiago - Dicas
Quando terminei o Caminho, juntei as experiências que tive e criei um post no outro blog com dicas para quem pretenda fazer o Caminho de Santiago de bicicleta. Estas dicas não são um manual, são apenas dicas.
Eu me considero um "mulambiker", como dizem os mais radicais. Não uso capacete, a não ser que seja obrigatório, não tenho sapatilhas com taquinhos, não marco tempo, velocidade média e não uso as roupas coloridas que vemos pelas trilhas. Não sou um mountain biker, minha bicicleta não custou 20 mil reais e não tenho objetivos competitivos. Apenas me concentro no caminho, na paisagem, em parar, conhecer gente, compartilhar experiências, visitar lugares onde o carro não vai e fazer o que mais me dá prazer nessa vida: pedalar. Tudo muito simples. Então, não espere dicas de equipamentos ultramodernos, planilhas e estatísticas. Isso é facilmente encontrável em guias pela web ou em lojas.
Então, vamos lá!
Ultreya!
Eu me considero um "mulambiker", como dizem os mais radicais. Não uso capacete, a não ser que seja obrigatório, não tenho sapatilhas com taquinhos, não marco tempo, velocidade média e não uso as roupas coloridas que vemos pelas trilhas. Não sou um mountain biker, minha bicicleta não custou 20 mil reais e não tenho objetivos competitivos. Apenas me concentro no caminho, na paisagem, em parar, conhecer gente, compartilhar experiências, visitar lugares onde o carro não vai e fazer o que mais me dá prazer nessa vida: pedalar. Tudo muito simples. Então, não espere dicas de equipamentos ultramodernos, planilhas e estatísticas. Isso é facilmente encontrável em guias pela web ou em lojas.
Então, vamos lá!
![]() |
| 1020 km pedalados - viagem que foi uma das melhores da minha vida |
Enquanto pedalava pelo litoral atlântico da Espanha, pensava
em tudo o que passei pelo Caminho de Santiago dias antes. Pensei nos erros que
cometi e que me custaram mais, pensei nos detalhes que observei e pensei nas
dicas que nunca achei na internet e que descobri com a prática. Então, resolvi
que deveria escrever um post com tudo isso para quem vai fazer. Isto não é um
guia definitivo e absoluto do Caminho. Algumas pessoas poderão considerar
algumas dicas inúteis ou dispensáveis. Outras poderão considerar como dicas
essenciais. Vai de cada, afinal, o caminho é seu.
Alguns peregrinos que encontrei pelo Caminho me perguntaram
se era melhor fazer o trajeto de bike ou a pé. E, a poucos quilômetros de
Santiago, eu dizia que era a pé. A bike ajuda muito nas distâncias, dá prazer
para quem gosta de pedalar e nos abre novos caminhos. Mas também é um peso
muito maior para subir trilhas, faz passar frio numa descida forte e atrapalha
para visitar locais. Pergunte se eu entrei na maioria das igrejas do Caminho.
Não. A bike tinha que ficar na rua com toda a minha tralha junto. Pergunte se
eu fui pela trilha ao Puerto de Ibañeta ou ao Alto de Perdão? Não, pois era
praticamente impossível subir com ela. Pergunte se eu interagi mais com
os peregrinos pelas estradas? Quase nada. Geralmente, os "bicigrinos"
pedalam muito por dia, num ritmo frenético e param pouco. O peregrino a pé precisa
parar mais, sentar na grama, na terra, comer com calma e acaba interagindo mais
com o restante. E quem está na bike sempre deixa os caminhantes para trás.
Mas estamos falando de bike e vamos tratar de bike. Quem
quiser fazer o Caminho de bike terá uma experiência incomum na vida, vivendo
desafios diferentes todos os dias, percorrendo distâncias consideráveis por
locais de muita beleza, com muito tempo para pensar. Fiz uma lista de perguntas que algumas pessoas me fizeram antes e depois e perguntas que eu mesmo me fiz muitas vezes. Juntei com perguntas e respostas que li em sites, guias e livros. E respondi a cada uma com a experiência e a minha opinião. Vamos ao que
interessa.
- Que bicicleta devo levar? Devo comprar na Espanha? Ou
levar a minha?
Antes de viajar, pesquisei um pouco sobre isso em sites e em
um fórum. As respostas são diversas. Cada um pensa de um jeito e acha que o seu
jeito é o mais vantajoso. Ouvi que deveria levar a minha daqui. Ouvi que
deveria comprar uma por lá. Ouvi que deveria ter duas bikes, uma para o Caminho
e outra para rodar nas cidades após o Caminho. Ouvi que deveria desistir de ir
de bike e ir a pé. E ouvi que deveria ter comprado uma moto para fazer o
Caminho, vendendo-a em
Santiago. etc, etc, etc...
Agora, a minha experiência. Comprei uma bike
dobrável, aro 20, em Paris.
Foi uma B`Twin Hoptown. Rodei
pouco mais de 160 km
com ela. E foi pesado. Em Logroño, na loja de bikes, ganhei um abraço de um
ciclista pois disse nunca ter visto uma pessoa fazer aquilo. E vendi a bike,
comprando uma aro 700 com pneus híbridos, mais finos que os de uma MB, nessa mesma loja. A 700 rende muito
mais em qualquer terreno. A maioria do que vi por lá foi de mountain bikes. Mas
a 700 com suspensão dianteira se comportou muito bem. Desci trilhas com carga
nos alforjes a 30 km/h
e a bike segurou a onda muito bem. Depois de quase 20 dias é que o eixo
traseiro estava um bagaço. Tive apenas um pneu furado.
Então, o que fazer? Vamos lá.
Levar sua própria bike. As empresas aéreas podem cobrar para
transportar a bike. Eu voltei pela TAP e trouxe a 700 que comprei por lá. 150
euros. E tem que levar a bike numa caixa, dessas que a bicicleta vem quando
compramos. Se fosse na TAM, eles aceitavam transportar a bike sem custo, numa
bolsa própria para bikes, desmontada (com as rodas nas laterais). Na TAP, podia
levar até 2 volumes de 23kg cada. Na TAM, poderia levar até 2 de 32 kg. Mas a passagem da TAM
sai mais que o dobro. Se você vai fazer o Caminho e depois ainda vai rodar pela
Europa, aconselho a TAM. O tratamento é melhor e pode-se transportar mais
coisas. Uma bicicleta com alforjes, ferramentas, suas coisas e mais umas compras
passa dos 30kg fácil. Então, faça as contas e pense que terá sempre que
carregar uma caixa ou mala-bike com a sua magrela de estimação.
Comprar uma bike na Europa e trazer para o Brasil. Se você
quer comprar uma boa bike e trazer para o Brasil, vai juntar o item anterior
com este. Vai sair daqui com quase nada e voltar carregado. Foi o que eu fiz.
Cheguei em Paris com uma mochila pequena, de mão, 2 mudas de roupa, um casaco e
o básico de higiene. Voltei com 58
kg de bagagem, depois de 37 dias por lá. Na maioria das
lojas por onde passei, encontrei Orbeas, Giants e outras marcas com suspensão
dianteira ou full, freio a disco, 27 marchas por uma média de 700 euros. Aí
varia, dependendo do que se quer. Há as mais sofisticadas, com quadros
ultraleves, freios hidráulicos e demais equipamentos por 2 mil euros. Acho
muito para o Caminho. Mas se trouxer a bike, pode valer. Há um detalhe
interessante: o IVA. Este é o imposto equivalente ao nosso IPI, coisa que muda
muito o preço final do produto. Como não-residente da União Europeia, posso
pedir a devolução do IVA. É uma coisa meio burocrática, mas considerando que
pode chegar a 13% do valor pago, compensa. Você compra a bike e a tralha que
vai usar com ela e, quando for pagar, peça o tax-free ou isenção do IVA. A loja
vai preencher um documento com seus dados de passaporte, endereço e mais
algumas coisas, imprimir uma nota especial e te dar um kit para envio de
correios. Com tudo isso, na hora de embarcar de volta para o Brasil, você
deve ir a um dos bancos credenciados que ficam nos aeroportos, levar o que
comprou e fazer o pedido. A pessoa que atender vai conferir os produtos,
atestar na sua nota e, já no Brasil, você enviará esta nota pelos Correios para
a loja onde comprou. Quando receberem, vão mandar o crédito do IVA para você
pelo banco ou cartão de crédito, conforme foi feita a escolha na hora da
compra. Isso leva um tempo considerável, mais de um mês. Mas é um bom desconto.
Outro detalhe importante é o que fazer com a bike quando
chegar a Santiago? Se quiser fazer turismo, terá que levar a coisa pra todo
lado? Não. Procure uma loja da SEUR, a transportadora, leve sua bike numa caixa de
papelão, seu passaporte e sua credencial de peregrino e mande para Madri. A
SEUR tem um serviço especial para peregrinos de bike com desconto no preço do
transporte dentro da União Europeia. Custa em média 50 euros mandar a bike para
outra cidade dentro da Espanha. Isso vai depender do peso da caixa com tudo dentro.
Eu mandei a minha caixa com roupas, alforjes, ferramentas e outra bolsa
totalizando 29kg e paguei 61 euros. Você pode deixar a caixa no depósito deles
por até 8 dias. Depois tem que retirar ou vai pagar armazenagem, o que sairá
muito mais caro. Então, programe-se.
Em Madri, no aeroporto Barajas, há o
serviço de lockers (que na Espanha se chama consigna). No terminal 1, do
lado direito do estacionamento, primeiro piso, tem um prediozinho do consigna.
Eles guardam de tudo. É só levar a caixa, passar pelo raio-x e mandar guardar.
O primeiro dia sai a 5,40 +
4,50 da chave e os dias
restantes saem a 3,50 euros cada.
Você paga só a chave e o primeiro dia, e o restante paga na retirada.
Comprar uma bike pela Europa e deixar por lá. Como assim?
Você compra a bike, como falei no item anterior, e deixa por lá, volta sem ela.
Antes de ir, pesquisei o preço de aluguel de bikes para se fazer o Caminho. Há
empresas que fazem isso. Você pega a bike onde pedir e entrega em Santiago. Só que sai
mais caro do que comprar uma bike igual a que eles alugam (é um modelo simples,
desses que vendem em supermercados). Em todo lugar por onde passei que tinha uma
loja, eu olhava os preços de bike. Tinha as de supermercado, com 21 marchas e
suspensão dianteira por 150 euros. E tinha as do item anterior de até 2 mil.
Sinceramente, se fosse fazer tudo de novo, compraria uma bike de 200 euros ou
menos, pedalaria pelo Caminho e, em Santiago, doaria para alguém. Sai mais barato
que alugar, mais barato que levar ou trazer e mais prático. Ou venderia! Na Espanha existem umas lojas Cash-Converters. Essas lojas compram e vendem de tudo, usado ou novo.
Mas não há lojas pelo Caminho, exceto em Logroño. A mais perto de Santiago fica em Pontevedra. Mas
como é uma franquia e se expande rápido por lá, é capaz de logo ter alguma em
Pamplona e em Santiago.
Aí fica fácil comprar uma bike de 200 euros, como vi numa das
lojas, e depois revendê-la em outra loja (vão pagar bem menos, mas ainda é
vantagem - a 700 custou 330 euros e avaliaram em 120). Na pior das hipóteses, pratique o desapego. Vá em um
albergue ou igreja e doe a bike. Alguém vai precisar. Eu fiz isso pelo Caminho
com roupas, ferramentas e objetos que não iria usar e isso aliviou meu peso (e
ajudou alguém que precisou de algumas coisas).
Alugar uma bike. Como disse no item anterior, não vejo
vantagem, mas é possível alugar. Vá no Google e pesquise por alquiler bici camino santiago. Há lojas que já reservam daqui do Brasil.
Perguntas que mais ouvi:
- Que equipamentos devo levar? O que devo comprar? Como
evitar peso desnecessário?
Você vai se lembrar do peso que leva quando estiver subindo
os Pinineus ou o Cebreiro. E vai querer ter deixado de comprar aquele alicate
que nunca usou ou a necessaire enorme com dezenas de itens que nem lembrará ter
levado. Pense nisso quando arrumar a mala/mochila/alforje:
Ferramentas: um canivete multi-ferramentas, uma chave
de boca regulável, um kit de remendo de câmara de ar com espátulas, 2
câmaras, bomba e 1 pneu. Tenha também uma tranca para guardar a bike em alguns
lugares. Uma dica de pneu seria comprar o Schawlbe Marathon Plus. Li relatos de cicloturistas que rodaram 15 mil km com este pneu em vários terrenos do mundo sem um furo sequer.
Roupas: duas mudas de cada (bermuda e camisa) mais uma no
corpo, todas de secagem rápida, que dispersam suor e que sejam leves; uma calça
do mesmo material (calça-bermuda é melhor); 3 cuecas (mulheres podem usar mais
peças de baixo); 3 pares de meias; 1 casaco; 1 segunda-pele se for em mês de
frio (antes de maio e depois de setembro); 1 tênis no pé; capacete, se quiser;
luvas de bike (inteiras - as que deixam os dedos de fora farão seus dedos
congelarem); 1 chapeu ou boné; 1 capa de chuva (poncho é melhor). O resto vai depender do gosto e
disposição de cada um. Aprenda a utilizar lavanderias self-service e tudo ficará mais leve.
Há algumas com aquelas máquinas automáticas que funcionam com moedas. Com menos
de 10 euros você lava e seca até 9 quilos de roupa (o que é muita coisa) com
direito a amaciante e tudo. Neste link do Ricardo Freire há um ótimo tutorial para se usar essas lavanderias
"fantasmas".
Alforjes: não acho necessário. Se tiver bagageiro na bike,
dá pra prender a mochila ou bolsa nele com elásticos (na Espanha chamam de goma
para carga en bicicleta ou pulpo, dependendo da cidade onde esteja, e são vendidos em lojas de 100 pesetas - as de 1,99 -
por 1 euro). Tenha um plástico grande para cobrir tudo caso chova, tipo piso de barraca de camping ou lonas. Os alfojes
são mais práticos para carregar a tralha, mas todo dia tem que desmontar e
montar no bagageiro. A mochila é mais simples e basta colocar nas costas para
andar.
Bolsa de guidon: achei bem útil. Dá pra levar muita coisa
ali: comida, óculos, máquina fotográfica, ferramentas, guia do Caminho, mapas e
o que mais couber.
Comida: compre o que precisa para o dia apenas. Vá num
supermercado ou esses mercadinhos de bairro e compre um pão, presunto, queijo e
mais alguma coisa, faça um bocadillo, embrulhe e leve. Compre umas frutas. Na
Espanha é difícil achar bananas boas (chamadas de platanos). Mas com elas,
evitam-se cãimbras. Bocadillo é algo interessante. É um pão gigante
(e delicioso) com um monte de coisa dentro. Depois de uns dias, eu passei a comprar em bares. Partia ao
meio, comia metade e a outra metade levava para comer mais tarde. Como não
almoçava, comia a metade de um por volta das 13h e o resto lá pelas 17h. Peça um Colacao, que é como o Nescau daqui. Eles vão
te dar uma caneca com leite quente (ou frio, se pedir) e um envelope do
achocolatado. É só misturar e beber. O café por lá é só expresso. Se não quiser
ficar viciado ou começar a tremer durante a noite, peça um
"americano". É o mesmo expresso e um bulezinho com água quente para
misturar. Eu bebia uns 10 cafés por dia e já estava ficando louco. Sonhava com
café coado.
Sou um viciado em feijão. E lá não tem. Ou melhor, até tem. É a
alubia roja. Se quiser comer, peça por isso. É bom, temperado com alho,
cebola e sal apenas. Quando estiver na Galícia, peça pelo caldo gallego, que
leva feijão branco e é muito nutritivo. Na Espanha servem os menus. Geralmente
há o menu del dia ou o menu del peregrino e pode custar entre 7 e 15
euros. Há o primero plato ou entrante, que pode-se escolher dentre uns 5 ou 6
(saladas, caldos ou frutos do mar), o segundo ou principal, que geralmente tem
batata frita em quantidades industriais, o postre, que é a sobremesa e pode ser
um flan (pudim), tarta (bolo ou torta - a de Santiago é boa, mas meio
seca), fruta ou helado (sorvete). O menu tem sempre pão, água e vinho
incluídos no preço. Em alguns lugares, come-se pão e vinho à vontade. Pode
pedir mais que vem com generosidade. Se você deixa de lado, alguns donos de restaurante olham com cara desconfiada. Na Espanha é muito comum beber-se vinho, costume da Idade Média, quando quase não havia água potável e a sede era saciada com vinho.
Dinheiro: brasileiro não gosta muito de moedas e chega ao
ponto de jogar algumas fora. Antes de fazer isso na Europa, lembre-se de que a
moeda de 5 centavos de lá equivale a pouco mais de uma de 10 daqui. Na Europa
você vai precisar de moedas. Imagine-se no meio do Caminho, no alto de uma
montanha onde se vê algumas ovelhas, muito verde e nuvens. De repente você se
depara com uma máquina de refrigerantes, água e doces encravada no meio de uma
cerca de arame farpado, perto de uma casa de pueblo. E não tem moedas. Mas
também não há ninguém por ali e as ovelhas não vão trocar suas notas de 5 ou 10
euros. Então, tenha sempre moedas nos bolsos. Muitas. Quase tudo sai por 1 euro. Vai
bater aquela vontade louca de beber refrigerante e a moeda vai fazer você se
realizar. Então, não despreze as moedas.
Você pode sacar dinheiro nas ATM, que são caixas
eletrônicos, como no Brasil. A diferença é que não há essa coisa de banco X ou
Y. Caixa é caixa e sai dinheiro de dentro dela. Basta ter um cartão
internacional (de débito ou crédito) válido e a senha. Mas lembre-se: a cada
saque, há uma tarifa (hoje, quando escrevo, as regras de tributos sobre os saques no Brasil mudaram - consulte as regras do seu banco ou cartão para não ter um susto depois). Faça poucos saques bem pensados. No Caminho, quase
tudo pode ser pago com cartão de crédito. Mas pagamentos com cartões geram IOF
na sua conta. E o valor é salgado. Então, a melhor coisa para o Caminho é ter
dinheiro na mão. Eu levei pouco mais de 600 euros do Brasil e isso durou um bom
tempo. No Caminho, dá pra se viver com menos de 30 euros por dia, se você ficar
em albergues. Então,
em 15 dias de Caminho na bike, 500 euros são suficientes.
Hospedagem: há os albergues, tanto públicos (mantidos pela
Igreja ou prefeituras) e os privados, que são pousadas coletivas ou hostels.
Alguns públicos são gratuitos, ficando a cargo do peregrino fazer uma doação
pelo uso (3 euros é o suficiente). Nos privados, os preços variam de 6 a 15 euros. Eu fiquei em hoteis. Saiu a uma
média de 40 euros a diária. Depois de pedalar e suar por 8, 10, 12 horas, eu
queria chuveiro quente, uma cama, privacidade e café da manhã farto. Então,
achei por bem ficar em
hoteis. Nos albergues, o banheiro é coletivo, às vezes ficam
mais de 20 pessoas dormindo juntas e nem todo mundo sente o calor ou o frio que
você sente durante a noite. E muitos roncam. E têm chulé. E não tomam banho.
Então, 40 euros por noite foi o preço que paguei para dormir em paz. Eu mereço!
Passaporte e vistos: você vai entrar na Europa em algum
ponto (Espanha, França ou Portugal) perto do Caminho e vai passar pela
imigração. Podem te perguntar mil coisas ou podem não perguntar nada. Cheguei
por Paris, no aeroporto Charles de Gaule. O sujeito olhou pra mim, disse bon
jour, olhou a foto do passaporte, olhou pra mim, carimbou e disse au revoir.
Depois disso, só apresentei o passaporte em Barcelona, para embarcar de volta
para o Brasil. Quando entrar, se perguntarem o que faz ali, diga que vai fazer
o Caminho de Santiago. Isso já basta. A maioria das pessoas sabe o que é e
respeita. Mas procure não levar armas, drogas, explosivos, substâncias
radioativas ou coisa parecida na bagagem que não vai adiantar muito falar que
vai fazer o Caminho.
Há muito mais dicas e detalhes que, conforme for me
lembrando, vou adicionando ao site. Se alguém quiser fazer o Caminho de bike e
quiser saber de mais alguma coisa, pode perguntar nos comentários. Vou procurar
ajudar quem quer encarar essa empreitada de atravessar a Espanha de leste a oeste. É uma experiência e tanto e ficarei feliz em ajudar quem quiser viver
isso.
Subscrever:
Mensagens (Atom)





