13.9.12

Diário do Caminho de Santiago 2011 - 15

Santiago de Compostela a Finisterre - 8 de abril



Praticamente acabaram-se as setas amarelas. Já não há toda a estrutura preparada para o peregrino. Agora é cada um por si e tentar se virar. Encerrou a história de peregrinação. 

Encerrou? Acabei vendo que a coisa não é bem assim.

Saí de Santiago por volta das 11 da manhã, com intenção de ir pela carretera, sem passar pelo trecho que se sugere ser o Caminho. Pensei não haver apoio e seria mais complicado me achar no meio de uma trilha pouco usada ou uma estrada secundária. Então, as estradas asfaltadas e provinciais ou nacionais seriam mais práticas para pedalar. Decidi deixar um pouco de lado o guia de Granados e me virar pelos asfaltos da vida.

Ainda no Centro de Santiago, vi um garoto com uma camisa do Vasco. Parei e perguntei se era brasileiro. Disse que não, mas que tinha estado no Rio e gostou muito. Agradeci e continuei. Lembrei de pessoas do Brasil, vascaínos e vascaínas que conheço. Deu s.a.u.d.a.d.e.

Segui rumo a Noia e Muxia, para depois me encaixar no rumo de Cee, a primeira cidade do litoral, depois das montanhas, sentido Finisterre. O sol estava escaldante. Os termômetros, em algum lugar, indicavam 31 graus, o que é muito para a região e para a carga que estava levando, pois comprei algumas coisas em Santiago e estava pelo menos uns 10 kg mais pesado. Quando via uma bifurcação, tratava de perguntar. Quando estamos de carro, um erro de via pode resultar num desvio de 10, 50 ou mais quilômetros. Isso se resolve em 15 minutos. Em uma bicicleta, dependendo da estrada e da inclinação, isso pode ser resolvido em horas. Depois de um tempo, percebi que as informações estavam desencontradas. Algumas pessoas davam indicações que não batiam. O guia tinha um mapa com apenas os detalhes que interessavam. E eu não quis comprar o gps Garmin que vi numa loja. Depois de um tempo e muito suor, vendo que a cidade indicada não chegava, resolvi parar numa gasolinera e comprar um mapa. Achei um posto numa cidade de nome “Antes”. Sugestões do Caminho...

Abri o mapa em cima da bike e um tratorista parou para colocar diesel. Perguntou se eu precisava de ajuda. Eu disse que estava indo para Fisterre e que achava estar fora da rota. Enquanto eu ia marcando com a caneta onde estava, ele me disse que o Caminho de Santiago passava mais abaixo. Eu disse que tinha vindo pela carretera por conta da carga que estava levando e uma estrada de terra e pedra não seria boa no momento. Então ele me explicou como deveria ir para chegara a Cee. Agradeci e voltei pro mapa. Eu estava me afastando para o norte e não indo para o oeste, como deveria. Isso me custou quase uma hora e uns quilômetros de mais subidas. Estava de um lado de um lago bem grande, o Embalse da Fervenza, quando deveria estar do outro lado. Mas para atravessá-lo, teria que ir até o final, pegar uma estrada menor, secundária, e sair na cidade de Olveiroa, que faz parte do Caminho. Fazer o quê? Ficar se lamentando não iria mudar o mundo. Então, é empurrar o pedal e suar mais um pouco.

Depois de quase uma hora, chego a Olveiroa, com vento contra, cachorros me dando sustos, carros e caminhões no meu encalço. Eis que vejo uma seta amarela. E um totem com a concha. A seta mandava entrar no pueblo. E outras setas levavam a dois bares e um albergue. Deixei a intuição me levar pro bar que seria o ideal. Quando parei, havia alguns peregrinos lanchando. Entrei e pedi uma água com gás. A atendente respondeu com certo sotaque e perguntei: é brasileira?

Luciana tem vinte e poucos anos, goiana, tendo ido parar na Espanha por conta das irmãs que moram lá. Está há três anos e disse ir visitar o Brasil em "rúlio". Todo mundo vai perdendo o jeito brasileiro de falar por aqui. Bebi minhas 3 águas com gás, um café, conversei um pouco com Luciana e com o sujeito que estava no balcão e tratei de ir. Antes, olhei o mapa e o guia e resolvi seguir as setas.

As setas me levaram para uma estrada de terra e pedra, como a que eu não queria passar. Em determinado momento, quase caí, empurrando a bike. Era muito inclinado, o tênis novo escorregava e parecia que ia virar a bicicleta. Suava muito. Então, comecei a me lembrar de coisas. Lembrei-me de dona Pastora, a hospedeira de Santiago, que falou muita coisa da bíblia. Lembrei-me também de algumas passagens do livro sagrado dos cristãos e uma em especial me despertou interesse ali, no meio das montanhas da Galícia, suando em bicas, com dores nas panturrilhas e atento para não perder as setas e me perder no meio do nada: a estrada larga e tranquila leva à perdição e o caminho duro e estreito leva à salvação. Eu havia ignorado o caminho difícil e ido pelo mais "fácil", que se mostrou não tão fácil. Agora estava ali no meio do sofrimento, com pedras, terra, sol e fazendo força, mas estava no Caminho certo. Na hora, pensei que essa coisa de peregrinação não havia terminado. E que essa coisa de peregrinação não termina nunca. Sempre haverá mais de um caminho, sempre haverá sinais, sempre haverá sofrimento, mas quando há certeza de se estar no caminho mais correto, há tranquilidade. E foi o que senti. Então me lembrei do salmo 23, da bíblia cristã e o recitei em voz alta. Logo em seguida, depois de uma curva, surge uma visão espetacular, que uma fotografia não capta, por melhor que seja a câmera:

Rio Xallas - Olveiroa/Galícia

O som das águas me dizia que estava perto de uma corredeira e que pela localização no mapa, em breve estaria na nascente do rio. Foi um momento de muita tranquilidade. Na hora pensei apenas em pedalar e seguir as setas. O resto se resolveria por si mesmo. Ainda teria umas 4 horas de luz do dia e os totens do Caminho marcavam pouco mais de 30 km até o final. Cheguei a uma localidade chamada Hospital, que seria o ponto mais alto antes da descida para o oceano.

Hospital, a poucos km de Fisterre
Em pouco mais de uma hora estava descendo a serra que me levou a Cee, 17 km de Fisterre. Descida alucinada. Se deixasse, Amelia iria a mais de 60 por hora, mas segurei pois os freios já não estavam 100% e havia curvas fechadas e muito inclinadas, sem acostamento. Parei na entrada da cidade e tirei o guia. Estava lendo e bebia água. Então, parou um Audi mais antigo com um senhor dentro:
- Adonde vás, hombre?
- Fisterre, señor.
- Venga!

O homem me guiou por uns quilômetros, até o porto de Cee, ao lado da baía da cidade. Parava o carro no final das subidas pra me esperar e ficava acenando com a mão. Quando chegamos a Cee, ele desceu do carro, me cumprimentou, conversamos uns minutos, ele me falou que conhece Copacabana, caipirinhas e “brasileñas” e me desejou suerte. Como falei antes, o Caminho não termina.

Baía entre Cee e Corcubión
Passei por Cee e tive vontade de ficar. Lugarzinho maravilhoso! Fisterre está logo ali, do outro lado, mas tem que se dar a volta pelo cabo e isso faz com que ainda houvesse 17 quilômetros (e mais subida) me esperando. Peguei a estrada de Fisterre e cheguei ao fim do mundo. É um lugar muito bonito. Lembra um pouco Arraial do Cabo, no Rio. O Oceano Atlântico ao fundo e as pequenas praias me alegraram bastante, pessoa que gosta do mar.

Vou ficar aqui no final de semana e depois sigo para Portugal. Estou com um livro do Caminho Português e penso em fazê-lo ao contrário, até Oporto, como dizem na Galícia. Seriam mais quatro dias de pedal, margeando a costa norte portuguesa e passando por algumas cidades pequenas. Ainda não decidi. Daqui a pouco vou até o Cabo Fisterre, onde tem o farol e o local do ritual que falei antes. Quero ver o que é estar num penhasco, à beira do Fim do Mundo.

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