Praticamente acabaram-se as setas amarelas. Já não há toda a
estrutura preparada para o peregrino. Agora é cada um por si e tentar se virar.
Encerrou a história de peregrinação.
Encerrou? Acabei vendo que a coisa não é bem assim.
Saí de Santiago por volta das 11 da manhã, com intenção de
ir pela carretera, sem passar pelo trecho que se sugere ser o Caminho. Pensei
não haver apoio e seria mais complicado me achar no meio de uma trilha pouco
usada ou uma estrada secundária. Então, as estradas asfaltadas e provinciais ou
nacionais seriam mais práticas para pedalar. Decidi deixar um pouco de lado o guia de Granados e me virar pelos asfaltos da vida.
Ainda no Centro de Santiago, vi um garoto com uma camisa do
Vasco. Parei e perguntei se era brasileiro. Disse que não, mas que tinha estado
no Rio e gostou muito. Agradeci e continuei. Lembrei de pessoas do Brasil,
vascaínos e vascaínas que conheço. Deu s.a.u.d.a.d.e.
Segui rumo a Noia e Muxia, para depois me encaixar no rumo
de Cee, a primeira cidade do litoral, depois das montanhas, sentido Finisterre.
O sol estava escaldante. Os termômetros, em algum lugar, indicavam 31 graus, o
que é muito para a região e para a carga que estava levando, pois comprei
algumas coisas em Santiago e estava pelo menos uns 10 kg mais pesado. Quando via
uma bifurcação, tratava de perguntar. Quando estamos de carro, um erro de via
pode resultar num desvio de 10, 50 ou mais quilômetros. Isso se resolve em 15
minutos. Em uma bicicleta, dependendo da estrada e da inclinação, isso pode ser
resolvido em horas.
Depois de um tempo, percebi que as informações estavam
desencontradas. Algumas pessoas davam indicações que não batiam. O guia tinha
um mapa com apenas os detalhes que interessavam. E eu não quis comprar o gps
Garmin que vi numa loja. Depois de um tempo e muito suor, vendo que a cidade
indicada não chegava, resolvi parar numa gasolinera e comprar um mapa.
Achei um posto numa cidade de nome “Antes”. Sugestões do Caminho...
Abri o mapa em cima da bike e um tratorista parou para
colocar diesel. Perguntou se eu precisava de ajuda. Eu disse que estava indo
para Fisterre e que achava estar fora da rota. Enquanto eu ia marcando com a
caneta onde estava, ele me disse que o Caminho de Santiago passava mais abaixo.
Eu disse que tinha vindo pela carretera por conta da carga que estava
levando e uma estrada de terra e pedra não seria boa no momento. Então ele me
explicou como deveria ir para chegara a Cee. Agradeci e voltei pro mapa. Eu
estava me afastando para o norte e não indo para o oeste, como deveria. Isso me
custou quase uma hora e uns quilômetros de mais subidas. Estava de um lado de
um lago bem grande, o Embalse da Fervenza, quando deveria estar do outro lado. Mas para atravessá-lo,
teria que ir até o final, pegar uma estrada menor, secundária, e sair na cidade
de Olveiroa, que faz parte do Caminho. Fazer o quê? Ficar se lamentando não iria
mudar o mundo. Então, é empurrar o pedal e suar mais um pouco.
Depois de quase uma hora, chego a Olveiroa, com vento
contra, cachorros me dando sustos, carros e caminhões no meu encalço. Eis que
vejo uma seta amarela. E um totem com a concha. A seta mandava entrar no
pueblo. E outras setas levavam a dois bares e um albergue. Deixei a intuição me
levar pro bar que seria o ideal. Quando parei, havia alguns peregrinos
lanchando. Entrei e pedi uma água com gás. A atendente respondeu com certo
sotaque e perguntei: é brasileira?
Luciana tem vinte e poucos anos, goiana, tendo ido parar na
Espanha por conta das irmãs que moram lá. Está há três anos e disse ir visitar
o Brasil em "rúlio". Todo mundo vai perdendo o jeito brasileiro de
falar por aqui. Bebi minhas 3 águas com gás, um café, conversei um pouco com Luciana e
com o sujeito que estava no balcão e tratei de ir. Antes, olhei o mapa e o guia
e resolvi seguir as setas.
As setas me levaram para uma estrada de terra e pedra, como
a que eu não queria passar. Em determinado momento, quase caí, empurrando a
bike. Era muito inclinado, o tênis novo escorregava e parecia que ia virar a
bicicleta. Suava muito. Então, comecei a me lembrar de coisas. Lembrei-me de
dona Pastora, a hospedeira de Santiago, que falou muita coisa da bíblia.
Lembrei-me também de algumas passagens do livro sagrado dos cristãos e uma em especial me despertou interesse
ali, no meio das montanhas da Galícia, suando em bicas, com dores nas
panturrilhas e atento para não perder as setas e me perder no meio do nada: a estrada larga e tranquila leva à perdição e o caminho duro e estreito leva à
salvação. Eu havia ignorado o caminho difícil e ido pelo mais
"fácil", que se mostrou não tão fácil. Agora estava ali no meio do
sofrimento, com pedras, terra, sol e fazendo força, mas estava no Caminho
certo. Na hora, pensei que essa coisa de peregrinação não havia terminado. E que
essa coisa de peregrinação não termina nunca. Sempre haverá mais de um caminho,
sempre haverá sinais, sempre haverá sofrimento, mas quando há certeza de se
estar no caminho mais correto, há tranquilidade. E foi o que senti. Então me
lembrei do salmo 23, da bíblia cristã e o recitei em voz alta. Logo em seguida,
depois de uma curva, surge uma visão espetacular, que uma fotografia não capta,
por melhor que seja a câmera:
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| Rio Xallas - Olveiroa/Galícia |
O som das águas me dizia que estava perto de uma corredeira e que pela localização no mapa, em breve estaria na nascente do rio. Foi um momento de muita tranquilidade. Na hora pensei apenas em pedalar e seguir as setas. O resto se resolveria por si mesmo. Ainda teria umas 4 horas de luz do dia e os totens do Caminho marcavam pouco mais de 30 km até o final. Cheguei a uma localidade chamada Hospital, que seria o ponto mais alto antes da descida para o oceano.
![]() |
| Hospital, a poucos km de Fisterre |
Em pouco mais de uma hora estava descendo a serra que me levou a Cee, 17 km de Fisterre. Descida alucinada. Se deixasse, Amelia iria a mais de 60 por hora, mas segurei pois os freios já não estavam 100% e havia curvas fechadas e muito inclinadas, sem acostamento. Parei na entrada da cidade e tirei o guia. Estava lendo e bebia água. Então, parou um Audi mais antigo com um senhor dentro:
- Adonde vás, hombre?
- Fisterre, señor.
- Venga!
![]() |
| Baía entre Cee e Corcubión |




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