Rabanal del Camino a O Cebreiro - 4 de abril
Cheguei no Cebreiro com o último minuto de luz do dia, às 9h20 da noite (na Galícia falam 9 da tarde, no verão). Quase 12 horas de pedal e pernas, empurrando a bike em alguns trechos. 92km. Deixei meus pecados, demônios, mágoas e problemas por ali. Sofri, mas consegui me superar.
Cheguei no Cebreiro com o último minuto de luz do dia, às 9h20 da noite (na Galícia falam 9 da tarde, no verão). Quase 12 horas de pedal e pernas, empurrando a bike em alguns trechos. 92km. Deixei meus pecados, demônios, mágoas e problemas por ali. Sofri, mas consegui me superar.
Saí de Rabanal à 9h30
da manhã. O dia estava ótimo, com céu azul, apesar do frio. Comecei a subida
para a Cruz de Ferro. É um trecho pesado, com subidas íngremes e poucos planos
para descansar no pedal. Estamos atravessando a cadeia de montanhas que nos levará ao Bierzo. No meio do trajeto tem Foncebadon. O pueblo foi outrora
conhecido pelos cachorros que atacavam os peregrinos.
| A entrada de Foncebadon |
Conta a lenda que
Foncebadon era uma vila próspera na Idade Média. Então, um viajante cigano ali
esteve e os moradores não gostaram muito da sua presença. Brigaram e resolveram
matar o cigano com linchamento e fogueira. Antes de morrer, ele rogou uma praga
para a vila: que o demônio ali viveria na forma de cães violentos e que a
cidade nunca mais seria a mesma. Dizem que Foncebadon só voltou a progredir dos
anos 90 pra cá. Alguns autores de livros e guias referem-se a Foncebadon como
um local do Caminho onde devemos enfrentar nossos demônios interiores, nossos
medos e temores, estes na forma de cães que atacam.
Entrei no pueblo Ao passar pelo local, vi
pouca gente. Parei no albergue local para comprar uma água com gás e fui atendido por
duas belas mulheres (davam a impressão de serem um casal que ali morava). Uma delas lavava a louça e cantava com
uma voz espetacular. A música era "que sera sera, whatever will be, will
be..." - acho que é isso, não sei a letra, apesar de ser música conhecida,
de filme. As duas mulheres me trataram muito bem e lamentaram não terem café para me servir.
| Foncebadon e seu aspecto desolado: lugar estranho |
Chegando ao topo da montanha, já dá pra avistar a cruz de
ferro. As pedras depositadas pelos milhares de peregrinos que ali estiveram
quase tomam a estrada. Subi, observei tudo que estava por ali há dias, meses,
anos: cartas, bilhetes, sapatos, lenços, bonecas, muletas e outros. Imaginei
serem produtos de promessas, pedidos e recomendações. Pensei naqueles que tanto
sofreram para chegarem até ali. Larguei minha pedra, agachei e deixei os
pensamentos virem. Lembrei do meu amigo Pedro e imaginei o que diria diante
dessa minha empreitada. Lembrei do meu irmão. Deixei a lembrança do sorriso
inocente dele ali. É uma imagem que tem me acalentado nos momentos difíceis do
Caminho, o sorriso mais inocente, sincero e feliz que já tive em minha vida.
Desci, fiquei de pé no relógio do sol e vi minha sombra nas pouco mais de 10 horas. Era hora de seguir para Manjarín para um papo com o templário Tomáz. Parei em Manjarín, um reduto de pedra no meio da montanha. Esperei uns 15 minutos até que Tomáz falasse no celular, atendesse dois militares que pararam para perguntarem algo sobre localização de uma casa. E Tomáz fala, fala muito. Na hora pensei na paciência. Algo que preciso exercitar. E compensou. Ele me deu dicas úteis para passar por Ponferrada, onde há o Castillo de los Templarios e falou de praticamente todos os caminhos que existem no Brasil, inclusive o de Peabiru, algo que ainda está nascendo e poucos conhecem.
| A Cruz de Ferro - recompensa do dia |
Desci, fiquei de pé no relógio do sol e vi minha sombra nas pouco mais de 10 horas. Era hora de seguir para Manjarín para um papo com o templário Tomáz. Parei em Manjarín, um reduto de pedra no meio da montanha. Esperei uns 15 minutos até que Tomáz falasse no celular, atendesse dois militares que pararam para perguntarem algo sobre localização de uma casa. E Tomáz fala, fala muito. Na hora pensei na paciência. Algo que preciso exercitar. E compensou. Ele me deu dicas úteis para passar por Ponferrada, onde há o Castillo de los Templarios e falou de praticamente todos os caminhos que existem no Brasil, inclusive o de Peabiru, algo que ainda está nascendo e poucos conhecem.
Manjarín hoje é também albergue. O aspecto é bem ruim e dizem que lá em cima é extremamente frio à noite, com neblina e neve. Mas a acolhida de Tomáz o contato com a natureza pura, sem energia elétrica, sem chuveiro quente, sem quase nada é recompensador pela rusticidade, simplicidade e sinceridade do local e da energia que ali está.
Bebi um café, comprei uma lembrança e deixei uma doação para o
ermitão. Saí ouvindo o sino. Gosto muito disso, o sino que anuncia a gratidão.
Só pude ver esta tradição no bar do António, em Castrojeriz e ali. Lembrei dos
atendentes do Rei dos Sucos, no Catete, Rio. Sempre que alguém deixava gorjeta,
o caixa falava: "caixinha!" E o resto do pessoal gritava em coro
"o-bri-ga-do!", como o sino da gratidão.
| Villafranca del Bierzo |
| La Portela |
Depois de Villafranca, há uma ciclovia que corre junto
da N-VI até Trabadelo. Dali, segue-se para Vega de Valcarce, onde comi o melhor
pão da minha vida. Se passarem por lá, procurem a Panaderia Artezanal. Logo
depois, uma placa indicava dois caminhos: Camino da Sienda e Camino
do Demo. Temos que ir pelo do Demo, afinal, estamos indo para o Cebreiro. Se
tivermos que xingar, desconjurar, amaldiçoar algo ou alguém, será na subida
para o Cebreiro. Eram 7 da noite e esperava mais 1h30 de luz do dia. Depois de comer o bocadiilo mais gostoso do Caminho, segui com Amelia rumo ao topo do mundo. Fui beneficiado: tive mais 2h de luz.
Foram 2 horas para subir os 7km. Havia trechos em que
empurrar a bike era algo que não ultrapassava os 2 km/h. Mas eu fiz. Não
amaldiçoei nada, exceto o frio que descia rápido - a temperatura caía de uns 18
para quase 5, à medida que subia. Agradeci à natureza por ter me feito forte,
persistente, insistente, com muita força de vontade e determinação. Lembrei das
vezes em que fiquei sem fôlego na vida, nas vezes em que me senti só, cansado e
desamparado. Lembrei que sempre busquei alguma força e energia armazenadas não
sei onde e prossegui. Lembrei de todos os perrengues por que passei nessa vida
e só via o topo da montanha. Lembrei do ciclista que morreu de infarto há uns
anos subindo a Cruz de Ferro e que se eu infartasse ali, só me achariam no dia
seguinte ou depois, talvez congelado. Pensei nos loucos que ficam dias em
montanhas congeladas para chegarem ao cume de um Everest ou Aconcágua. Foram
duas horas no silêncio, sem ninguém passar, nem carro nem gente. Havia umas
fazendas de ovelhas, mas eu estava num lugar tão alto que se gritasse, ninguém
ouviria lá embaixo. Olhava pro penhasco e imaginei que se tivesse outra bike, a
jogaria pela encosta e filmaria pra ver o que aconteceria. Viajei imaginando
quanto tempo essa bike levaria para chegar lá embaixo. Era uma altura absurda
mesmo; via as ovelhas como pontos brancos em meio ao verde. Quando falo pontos
brancos, são pontos menores que a cabeça de um alfinete, olhando lá do alto da
solidão. A quase 1500m de altitude, só, com pouca água, vento gelado e 11 horas
de cansaço acumulado, pensa-se muita besteira. É algo para se ter medo. Mas
naquele momento me senti fazendo parte daquilo tudo, do vento, do mato, das
pedras e do céu que escurecia rápido. Não havia o que temer.
| Trevo - La Faba/Cebreiro |
Estou a 155 km de Santiago. Mais 2 dias e termino esta peregrinação. Começo a pensar se o ritmo louco de vida que se vive no Brasil, em busca de sempre mais, mas sem nunca ter o suficiente, vai calar tudo isso que se passa dentro de mim.
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