6.9.12

Diário do Caminho de Santiago 2011 - 11


Rabanal del Camino a O Cebreiro - 4 de abril

Cheguei no Cebreiro com o último minuto de luz do dia, às 9h20 da noite (na Galícia falam 9 da tarde, no verão). Quase 12 horas de pedal e pernas, empurrando a bike em alguns trechos. 92km. Deixei meus pecados, demônios, mágoas e problemas por ali. Sofri, mas consegui me superar.

Saí de Rabanal à 9h30 da manhã. O dia estava ótimo, com céu azul, apesar do frio. Comecei a subida para a Cruz de Ferro. É um trecho pesado, com subidas íngremes e poucos planos para descansar no pedal. Estamos atravessando a cadeia de montanhas que nos levará ao Bierzo. No meio do trajeto tem Foncebadon. O pueblo foi outrora conhecido pelos cachorros que atacavam os peregrinos. 

A entrada de Foncebadon
Conta a lenda que Foncebadon era uma vila próspera na Idade Média. Então, um viajante cigano ali esteve e os moradores não gostaram muito da sua presença. Brigaram e resolveram matar o cigano com linchamento e fogueira. Antes de morrer, ele rogou uma praga para a vila: que o demônio ali viveria na forma de cães violentos e que a cidade nunca mais seria a mesma. Dizem que Foncebadon só voltou a progredir dos anos 90 pra cá. Alguns autores de livros e guias referem-se a Foncebadon como um local do Caminho onde devemos enfrentar nossos demônios interiores, nossos medos e temores, estes na forma de cães que atacam. 

Entrei no pueblo Ao passar pelo local, vi pouca gente. Parei no albergue local para comprar uma água com gás e fui atendido por duas belas mulheres (davam a impressão de serem um casal que ali morava). Uma delas lavava a louça e cantava com uma voz espetacular. A música era "que sera sera, whatever will be, will be..." - acho que é isso, não sei a letra, apesar de ser música conhecida, de filme. As duas mulheres me trataram muito bem e lamentaram não terem café para me servir. 

Foncebadon e seu aspecto desolado: lugar estranho
Havia dois peregrinos sentados ao sol, descansando. Em frente ao albergue, vi o bicho mais sinistro do lugar: uma galinha preta. E nenhum cachorro. Subindo mais um pouco, quase na saída do pueblo, passei por uma casa de pedra meio demolida, com as portas trancadas com correntes e as janelas bem fechadas. Então ouvi latidos fortes, de um cão que devia ser muito grande e que parecia estar louco, pois ouvi sons de coisas caindo. Ele devia derrubar tudo na casa. Olhei pelo outro lado, mas não tinha como ele sair, pois as pedras lacravam o que seria uma saída. Na hora pensei que meu demônio estava ali bem preso e ia ficar por ali mesmo, até morrer. Deixei ele lá quebrando tudo, dei um beijo na minha vieira pendurada no pescoço, pensei que o Apóstolo estava me esperando em Santiago e segui em paz.

Chegando ao topo da montanha, já dá pra avistar a cruz de ferro. As pedras depositadas pelos milhares de peregrinos que ali estiveram quase tomam a estrada. Subi, observei tudo que estava por ali há dias, meses, anos: cartas, bilhetes, sapatos, lenços, bonecas, muletas e outros. Imaginei serem produtos de promessas, pedidos e recomendações. Pensei naqueles que tanto sofreram para chegarem até ali. Larguei minha pedra, agachei e deixei os pensamentos virem. Lembrei do meu amigo Pedro e imaginei o que diria diante dessa minha empreitada. Lembrei do meu irmão. Deixei a lembrança do sorriso inocente dele ali. É uma imagem que tem me acalentado nos momentos difíceis do Caminho, o sorriso mais inocente, sincero e feliz que já tive em minha vida.

A Cruz de Ferro -  recompensa do dia

Desci, fiquei de pé no relógio do sol e vi minha sombra nas pouco mais de 10 horas. Era hora de seguir para Manjarín para um papo com o templário Tomáz. Parei em Manjarín, um reduto de pedra no meio da montanha. Esperei uns 15 minutos até que Tomáz falasse no celular, atendesse dois militares que pararam para perguntarem algo sobre localização de uma casa. E Tomáz fala, fala muito. Na hora pensei na paciência. Algo que preciso exercitar. E compensou. Ele me deu dicas úteis para passar por Ponferrada, onde há o Castillo de los Templarios e falou de praticamente todos os caminhos que existem no Brasil, inclusive o de Peabiru, algo que ainda está nascendo e poucos conhecem.

Manjarín hoje é também albergue. O aspecto é bem ruim e dizem que lá em cima é extremamente frio à noite, com neblina e neve. Mas a acolhida de Tomáz o contato com a natureza pura, sem energia elétrica, sem chuveiro quente, sem quase nada é recompensador pela rusticidade, simplicidade e sinceridade do local e da energia que ali está.
Bebi um café, comprei uma lembrança e deixei uma doação para o ermitão. Saí ouvindo o sino. Gosto muito disso, o sino que anuncia a gratidão. Só pude ver esta tradição no bar do António, em Castrojeriz e ali. Lembrei dos atendentes do Rei dos Sucos, no Catete, Rio. Sempre que alguém deixava gorjeta, o caixa falava: "caixinha!" E o resto do pessoal gritava em coro "o-bri-ga-do!", como o sino da gratidão.

Villafranca del Bierzo
Descida extrema e nervosa até Ponferrada. Há que se ter muito cuidado para quem desce de bike. São curvas fortes, inclinação muito grande e alguma água que desce dos picos nevados. Cheguei ao Bierzo, um vale rodeado de montanhas. Ponferrada é chata. Cidade grande, com uma reta infinita para se sair e chegar a Villafranca del Bierzo. 11 km de reta passando por 3 cidades até Cacabelos. Villafranca é a famosa cidade onde vive Jesus Jato (leia-se rato), o personagem do livro de Paulo Coelho. O bruxo recebe os peregrinos em sua casa, que virou albergue. É bom saber que sua casa pegou fogo e ele praticamente perdeu tudo. Então, peregrinos o ajudaram a refazer a casa. Portanto, é uma tradição, caso hospede-se lá, ajudar em algum reparo ou obra na casa, deixar uma doação ou simplesmente trabalhar um pouco. Eu não parei lá. Era do outro lado da cidade e eu estava na vibe de subir o Cebreiro do mesmo dia. Jesus Jato ficará para o próximo Caminho, que farei a pé.

La Portela
Depois de Villafranca, há uma ciclovia que corre junto da N-VI até Trabadelo. Dali, segue-se para Vega de Valcarce, onde comi o melhor pão da minha vida. Se passarem por lá, procurem a Panaderia Artezanal. Logo depois, uma placa indicava dois caminhos:  Camino da Sienda e Camino do Demo. Temos que ir pelo do Demo, afinal, estamos indo para o Cebreiro. Se tivermos que xingar, desconjurar, amaldiçoar algo ou alguém, será na subida para o Cebreiro. Eram 7 da noite e esperava mais 1h30 de luz do dia. Depois de comer o bocadiilo mais gostoso do Caminho, segui com Amelia rumo ao topo do mundo. Fui beneficiado: tive mais 2h de luz.

Foram 2 horas para subir os 7km. Havia trechos em que empurrar a bike era algo que não ultrapassava os 2 km/h. Mas eu fiz. Não amaldiçoei nada, exceto o frio que descia rápido - a temperatura caía de uns 18 para quase 5, à medida que subia. Agradeci à natureza por ter me feito forte, persistente, insistente, com muita força de vontade e determinação. Lembrei das vezes em que fiquei sem fôlego na vida, nas vezes em que me senti só, cansado e desamparado. Lembrei que sempre busquei alguma força e energia armazenadas não sei onde e prossegui. Lembrei de todos os perrengues por que passei nessa vida e só via o topo da montanha. Lembrei do ciclista que morreu de infarto há uns anos subindo a Cruz de Ferro e que se eu infartasse ali, só me achariam no dia seguinte ou depois, talvez congelado. Pensei nos loucos que ficam dias em montanhas congeladas para chegarem ao cume de um Everest ou Aconcágua. Foram duas horas no silêncio, sem ninguém passar, nem carro nem gente. Havia umas fazendas de ovelhas, mas eu estava num lugar tão alto que se gritasse, ninguém ouviria lá embaixo. Olhava pro penhasco e imaginei que se tivesse outra bike, a jogaria pela encosta e filmaria pra ver o que aconteceria. Viajei imaginando quanto tempo essa bike levaria para chegar lá embaixo. Era uma altura absurda mesmo; via as ovelhas como pontos brancos em meio ao verde. Quando falo pontos brancos, são pontos menores que a cabeça de um alfinete, olhando lá do alto da solidão. A quase 1500m de altitude, só, com pouca água, vento gelado e 11 horas de cansaço acumulado, pensa-se muita besteira. É algo para se ter medo. Mas naquele momento me senti fazendo parte daquilo tudo, do vento, do mato, das pedras e do céu que escurecia rápido. Não havia o que temer. 

Trevo - La Faba/Cebreiro
Cheguei no Cebreiro praticamente no escuro, avistei as cabanas celtas e parei no meio da rua. Não tinha onde ficar, sentia frio e descobri que o hotel que o guia citava fica em Pedrafita do Cebreiro, a 4,5 km dali. Então, na taberna em frente, de repente uma senhora abre a janela e pergunta: que necessita, peregrino? Meus problemas estavam resolvidos. E os fantasmas do Cebreiro não me importunaram. Tive uma ótima noite de sono numa casa de pedra, depois de um caldo gallego e um bom vinho. O Caminho nos dá do que precisamos. Não há o que temer.

Estou a 155 km de Santiago. Mais 2 dias e termino esta peregrinação. Começo a pensar se o ritmo louco de vida que se vive no Brasil, em busca de sempre mais, mas sem nunca ter o suficiente, vai calar tudo isso que se passa dentro de mim.

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