10.9.12

Diário do Caminho de Santiago 2011 - 12

Cebreiro a Portomarin - 5 de abril


Dá pra pedalar aqui?
Entrei na etapa 10 de Granados, a penúltima. Não foi um dia pesado, exceto pelo cansaço acumulado da subida ao Cebreiro e pelo frio da manhã. É mais uma etapa técnica, já que o Caminho passa por muitos locais quase não "cicláveis", com trechos de pedras, água, rios, pequenas subidas e descidas de tirar o fôlego. Hoje quase cheguei a 60 km/h no asfalto. Fiquei imaginando que se fosse com a B'Twin Emmanuelle, teria rachado no meio ou se desmontado. Os pneus da 700 resistem bem ao terreno, mesmo com carga e velocidade.

Pela manhã, numa das descidas do Cebreiro, no asfalto, me deparei com um holandês de uns 50-60 anos, em sentido contrário. Ele me parou e perguntou quantos quilômetros de subida ainda teria. Falei que teria que pedalar uns quatro e perguntei se ele vinha de Santiago. Disse que sim, mas na verdade vinha de Portugal, do Faro, passou por Fátima e iria até sua casa, na Holanda. Depois desse pequeno papo, recarreguei as energias e vi que não tinha do que reclamar.

Cebreiro, depois da noite de sofrimento
Cheguei em Triacastela pouco depois do meio-dia e fiquei parado num bar para uns cafés e para escrever os dois posts anteriores. Já estou na Galícia e parece outro país. Até escrevem diferente. O modo de falar chega mais perto do de Portugal. Mas é mais enrolado, com uns "x" no meio e um sotaque meio cantado, lembrando o italiano.

Cheguei a Portomarin, a menos de 100 km de Santiago. E percebi muito mais peregrinos pelo Caminho. Dizem por aqui que muitos fazem apenas os últimos 100 km, que já contam para a Compostela, ou compostelana, o diploma do peregrino, como conhecemos no Brasil. Outro detalhe ruim que observei foi que o Caminho é uma indústria à medida que se chega mais perto do objetivo final. Algumas setas amarelas foram apagadas para darem lugar a outras que desviam do caminho original, levando para trajetos que passem na frente de albergues privados e restaurantes, confundindo o peregrino honesto e compenetrado. Há serviços de todo o tipo, desde frete de mochilas - há muitos peregrinos caminhando apenas com um cajado e um cantil de água - até as vans que "podem te levar ao Cebreiro" por 6 euros. Meu suor vale mais. E a memória não terá preço.

Alto de San Roque, 1270m anmm, onde encontrei o holandês
Tem muita gente fazendo a vida com essa indústria da fé. Vilas e pueblos que antes não tinham nem energia elétrica hoje têm wifi e todos os luxos. Não é difícil ver uma vila com 5 ou 6 casas, que vive de leite de vaca, com uma máquina de refrigerantes no meio da cerca de arame farpado. Hoje, uma mulher estava juntando bosta de vaca no celeiro para fazer estrume. Quando me viu, correu pra perguntar se eu queria comprar vieira ou cabaça. Depois de quase 2 semanas, ninguém me ofereceu sequer um copo de água gelada no meio dos campos.

Daqui a uns anos vão vender compostelana pelo facebook. Triste.

Amelia em Sarria, esperando mais um carimbo

Sem comentários:

Enviar um comentário