Saímos de Doutor Pedrinho 8 horas e pegamos o caminho errado. Na parte alta do trajeto, a sinalização começa a ficar precária e já se percebe o abandono do local. Como ouvi de um dono de restaurante, o (des)interesse político de uns faz a coisa não acontecer. Mas isso será assunto para o post final.
A vegetação começa a mudar, tornando-se um pouco mais densa, passando entre bosques, ora de pinheiros, ora de eucaliptos, com algumas araucárias. A extração de madeira é forte nessa região e é comum encontrarmos tratores colocando toras em caminhões ou pilhas de toras aguardando para serem recolhidas. Logo chegamos na divisa de cidades - Doutor Pedrinho/Rio dos Cedros. Os dois últimos dias serão praticamente dentro do município de Rio dos Cedros, serpenteando as montanhas, com um sobe-e-desce infinito. Prepare as pernas e, mais uma vez, fica a dica preciosa: catraca 34! Lembre-se disso!
A região é bem isolada. Vimos algumas casas abandonadas ou vazias que devem servir para veraneio. A maioria das propriedades é de cultivo de árvores para corte. Sinceramente não achei a paisagem tão deslumbrante como descrevem. É um pouco cansativo. O terreno é bem irregular, com muita pedra e lama graças à umidade dos bosques e ao deslocamento dos tratores da extração. Até chegar à Pedra Branca, será praticamente essa pulação de pedras, lama e, quando paramos para lanchar, descansar ou beber água, borrachudos. Muitos! Portanto, leve repelente e filtro solar. Serão extremamente necessários.
| Barragem do Pinhal, Alto Cedros, lá em baixo |
| Quando vir essa pedra, vire à direita! |
Havia ali uns cinco homens bebendo. Quando falo bebendo é que devem ter começando quando Ari e eu saímos de Doutor Pedrinho. A tarde já ia forte e todos falavam ao mesmo tempo. Um deles disse que teríamos a pousada ao lado como alternativa, mas era muito cara e que o ideal seria pedalar até Palmeiras e ficar lá, onde havia um hotel. Cinco homens falando alto ao mesmo tempo, rindo e fazendo piada de si mesmos era cômico. Fiquei olhando e esperando surgir uma solução. Aí um deles, que não me lembro do nome, saiu do bar e veio na rua apontar a direção que seguiríamos. Falou que não tinha erro. Eu disse que faria o recomendado e que, na verdade, estava procurando o Raulino, mas o telefone não atendia. O homem ia apontar para a pousada quando viu o fusquinha azul vindo pela estrada. Era o Raulino. Que gritaria! Foi a hora mais engraçada do dia. O homem foi pro meio da pista e parou o carro do Raulino para eu tratar de hospedagem. O problema estava resolvido. Se eu não tivesse dado papo para bebedores como sempre faço, teria sido aquela cena de filme: eu e Ari passando pelo fusquinha azul e Raulino indo para casa. O problema vai para um lado, a solução para o outro e ambos se cruzam na cena. E o espectador lamentando no sofá.
Raulino tem a minha idade e mora em Alto Cedros desde os 2 anos de idade. Ou seja, conhece tudo. Recebe ciclistas em sua casa ou os hospeda em casas de aluguel no entorno. Disse para seguirmos seu carro até sua casa e que nos esperaria nas bifurcações. Então fomos. Era o que tínhamos no momento. A casa do Raulino fica mais ou menos na altura do loteamento de onde viemos, 5 quilômetros depois, só que do outro lado da barragem. Quando ciclistas vão a Alto Cedros, fazem reserva com dias de antecedência e Raulino vai buscar em um ponto, às margens da barragem atravessando o lago com alguns metros em seu pequeno barco a motor. Só que os dois aqui não reservaram nada, contaram com a sorte (que sempre está do lado dos tranquilos). Suamos muito para chegar na casa, mas valeu. Raulino e sua família nos receberam muito bem e ficamos em uma das casas de aluguel.
Conversamos por quase uma hora enquanto jantávamos e Raulino nos explicou como anda a situação do local, de Palmeiras e do restante do Circuito, parte alta. Em Palmeiras havia o hotel do Faustino, mas não está mais funcionando. Há uma pessoa chamada Duda que tem um chalé e aluga para ciclistas. Mas, sendo final de semana de eleições, ninguém estaria disponível. Raulino ligou paga Palmeiras para saber o que estaria disponível e nenhum local poderia nos receber. Ou seja, se tivéssemos ido para Palmeiras, nos veríamos em uma situação muito difícil: sem água, sem comida, já à noite e sem local para dormir. Os bêbados salvaram nossa pele!
Naquela noite, fui dormir cedo, pois o estresse do dia tinha me minado as forças. Antes das 9 já estava na cama. Ari e eu conversamos sobre as alternativas do domingo. Teríamos que ir a Palmeiras, fazendo o 6° dia do circuito, nosso 5° dia, achar uma zona eleitoral para justificar o voto, comprar água, achar um local que servisse comida ou lanche, saber se realmente não havia hospedagem e, se fosse o caso, seguir viagem, entrando no 7° dia até Cedro Alto, 6 km antes do Centro de Rio dos Cedros para poder achar hotel e dormir. O restante do 7° dia seria feito na segunda-feira, voltando a Cedro Alto, ponto onde teríamos parado no domingo, para dali fazer o Rio Cunha e seguir até Timbó pelo traçado original.
O sono veio e uma solução surgiria durante o domingo. Deixe o caminho te dar as respostas.
| O dia seguinte prometia... |
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