8.10.12

Vale Europeu - 4° dia: Doutor Pedrinho - Alto Cedros

Doutor Pedrinho é uma cidade muito, mas muito pequena. Com pouco menos de 4 mil habitantes, tem a hospitalidade já falada por aqui e mulheres bonitas. O Hotel Cristofolini é bem simples e tem boa hospitalidade. O Oscar atende com toda presteza e dá dicas de tudo o que se precise.

Saímos de Doutor Pedrinho 8 horas e pegamos o caminho errado. Na parte alta do trajeto, a sinalização começa a ficar precária e já se percebe o abandono do local. Como ouvi de um dono de restaurante, o (des)interesse político de uns faz a coisa não acontecer. Mas isso será assunto para o post final.

Partindo do ponto de término do dia anterior, seguimos sentido Cachoeira Véu de Noiva. Depois de um quilômetro pedalado, vimos que os pontos não batiam com a planilha. Resolvemos voltar. Descobrimos que estávamos no trajeto errado. O correto é cruzar a ponte ao lado da prefeitura, passar em frente a ela e seguir até o final da avenida. Logo depois do posto de gasolina, dobrar à direita e atravessar a ponte. Novamente direita e seguimos sentido cachoeira. Na verdade, a estrada segue paralela à primeira que pegamos, com arrozais no meio. Lá na frente elas se encontram. O trajeto passa ao largo de plantações de arroz e depois entra em bosques de pinheiros, praticamente plano por 10 km. Logo em seguida surge uma subida, a do Rio Lima até o Rio Palmito. Estas são um pouco mais duras, mas nada muito assustador.

A vegetação começa a mudar, tornando-se um pouco mais densa, passando entre bosques, ora de pinheiros, ora de eucaliptos, com algumas araucárias. A extração de madeira é forte nessa região e é comum encontrarmos tratores colocando toras em caminhões ou pilhas de toras aguardando para serem recolhidas. Logo chegamos na divisa de cidades - Doutor Pedrinho/Rio dos Cedros. Os dois últimos dias serão praticamente dentro do município de Rio dos Cedros, serpenteando as montanhas, com um sobe-e-desce infinito. Prepare as pernas e, mais uma vez, fica a dica preciosa: catraca 34! Lembre-se disso!

A região é bem isolada. Vimos algumas casas abandonadas ou vazias que devem servir para veraneio. A maioria das propriedades é de cultivo de árvores para corte. Sinceramente não achei a paisagem tão deslumbrante como descrevem. É um pouco cansativo. O terreno é bem irregular, com muita pedra e lama graças à umidade dos bosques e ao deslocamento dos tratores da extração. Até chegar à Pedra Branca, será praticamente essa pulação de pedras, lama e, quando paramos para lanchar, descansar ou beber água, borrachudos. Muitos! Portanto, leve repelente e filtro solar. Serão extremamente necessários.

Barragem do Pinhal, Alto Cedros, lá em baixo
Já no final desse tormento de pedras, lama, subidas, descidas e borrachudos, finalmente começamos a descida da serra para o Alto Cedros, onde há uma barragem imensa, a Barragem do Pinhal. É uma região de veraneio, com casas em volta do imenso lago e pouca infraestrutura. Vá preparado. Ao chegar em Alto Cedros, a estrada abre em duas vias, direita e esquerda. A seta amarela no poste manda ir para a esquerda. E fomos. E nos demos mal. Dali até o final do loteamento são mais ou menos 6 km no sobe e desce cansativo. Chegando lá, quase no Hotel Parador da Montanha, descobrimos que praticamente não havia viva alma por ali. Parei em frente a uma casa com três pessoas conversando e acabei sabendo, através da Dona Marlene, que o local para onde deveria ir ficava do outro lado da barragem. Ou seja, voltando 6 quilômetros e pedalando mais um pouquinho. Dona Marlene nos levou até sua casa e se prontificou a telefonar para o Raulino, a pessoa indicada no guia para nos dar pernoite e refeições. O telefone dele não atendia. Nos vimos em uma enrascada: eram mais de 2 da tarde, o sol estava cansando, o trajeto de serra com pedras e lama nos havia extenuado a mente e o moral da tropa estava abalado. Tínhamos poucas alternativas: entrar no 7° dia, quase sem água, sem comida e com pelo menos 30 km adiante e poucas horas para fazê-lo; ir até o outro lado da barragem, procurar a "feirinha" para comprar água e algo para comer; encontrar o Bar do Mendes, onde teria uma mercearia e ali perguntar sobre lugar para pousar; seguir até Palmeiras (distante 12 km do Bar do Mendes), pulando o 6° dia; no caso de dar tudo errado, voltar ao loteamento e ficar na casa do José, um dos três que estavam conversando e que nos ofereceu hospedagem se fosse necessário. Decidimos seguir para a "feirinha".

Quando vir essa pedra, vire à direita!
Seis quilômetros depois, achamos a feirinha. É uma casa com produtos de fabricação local, como queijos, vinho, sucos, pães e outros. Fomos atendidos pela Dona Carmen, com seu sotaque carregado e simpatia extrema. Tentei convencê-la a voltar a andar de bicicleta, pois disse que caiu uma vez e não quer mais saber. Rimos um pouco, falamos da vida e pude comprar água e guaraná (estupidamente gelados, pra minha alegria). Sentei no ponto de ônibus. Ari e eu fizemos um lanche com os pães, queijo e salame que compramos no supermercado em Doutor Pedrinho. Dali seguimos para o Bar do Mendes, que fica alguns metros depois. Aí a coisa começa a ficar divertida.

Havia ali uns cinco homens bebendo. Quando falo bebendo é que devem ter começando quando Ari e eu saímos de Doutor Pedrinho. A tarde já ia forte e todos falavam ao mesmo tempo. Um deles disse que teríamos a pousada ao lado como alternativa, mas era muito cara e que o ideal seria pedalar até Palmeiras e ficar lá, onde havia um hotel. Cinco homens falando alto ao mesmo tempo, rindo e fazendo piada de si mesmos era cômico. Fiquei olhando e esperando surgir uma solução. Aí um deles, que não me lembro do nome, saiu do bar e veio na rua apontar a direção que seguiríamos. Falou que não tinha erro. Eu disse que faria o recomendado e que, na verdade, estava procurando o Raulino, mas o telefone não atendia. O homem ia apontar para a pousada quando viu o fusquinha azul vindo pela estrada. Era o Raulino. Que gritaria! Foi a hora mais engraçada do dia. O homem foi pro meio da pista e parou o carro do Raulino para eu tratar de hospedagem. O problema estava resolvido. Se eu não tivesse dado papo para bebedores como sempre faço, teria sido aquela cena de filme: eu e Ari passando pelo fusquinha azul e Raulino indo para casa. O problema vai para um lado, a solução para o outro e ambos se cruzam na cena. E o espectador lamentando no sofá.

Raulino tem a minha idade e mora em Alto Cedros desde os 2 anos de idade. Ou seja, conhece tudo. Recebe ciclistas em sua casa ou os hospeda em casas de aluguel no entorno. Disse para seguirmos seu carro até sua casa e que nos esperaria nas bifurcações. Então fomos. Era o que tínhamos no momento. A casa do Raulino fica mais ou menos na altura do loteamento de onde viemos, 5 quilômetros depois, só que do outro lado da barragem. Quando ciclistas vão a Alto Cedros, fazem reserva com dias de antecedência e Raulino vai buscar em um ponto, às margens da barragem atravessando o lago com alguns metros em seu pequeno barco a motor. Só que os dois aqui não reservaram nada, contaram com a sorte (que sempre está do lado dos tranquilos). Suamos muito para chegar na casa, mas valeu. Raulino e sua família nos receberam muito bem e ficamos em uma das casas de aluguel.

Conversamos por quase uma hora enquanto jantávamos e Raulino nos explicou como anda a situação do local, de Palmeiras e do restante do Circuito, parte alta. Em Palmeiras havia o hotel do Faustino, mas não está mais funcionando. Há uma pessoa chamada Duda que tem um chalé e aluga para ciclistas. Mas, sendo final de semana de eleições, ninguém estaria disponível. Raulino ligou paga Palmeiras para saber o que estaria disponível e nenhum local poderia nos receber. Ou seja, se tivéssemos ido para Palmeiras, nos veríamos em uma situação muito difícil: sem água, sem comida, já à noite e sem local para dormir. Os bêbados salvaram nossa pele!

Naquela noite, fui dormir cedo, pois o estresse do dia tinha me minado as forças. Antes das 9 já estava na cama. Ari e eu conversamos sobre as alternativas do domingo. Teríamos que ir a Palmeiras, fazendo o 6° dia do circuito, nosso 5° dia, achar uma zona eleitoral para justificar o voto, comprar água, achar um local que servisse comida ou lanche, saber se realmente não havia hospedagem e, se fosse o caso, seguir viagem, entrando no 7° dia até Cedro Alto, 6 km antes do Centro de Rio dos Cedros para poder achar hotel e dormir. O restante do 7° dia seria feito na segunda-feira, voltando a Cedro Alto, ponto onde teríamos parado no domingo, para dali fazer o Rio Cunha e seguir até Timbó pelo traçado original.

O sono veio e uma solução surgiria durante o domingo. Deixe o caminho te dar as respostas.

O dia seguinte prometia...



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