28.8.12

Diário do Caminho de Santiago 2011 - 3


Zubiri a Pamplona - 25 de março

Sem dar notícias por pouco mais de um dia, mas com muito movimento nesse período.

E o tal do suporte...
Saímos de Zubiri pouco depois das 11 horas. Zubiri é uma pequena cidade com a carretera passando em seu Centro. Uma ponte medieval inicia o Caminho, que vai cortando bosques com subidas pouco íngremes e cascalho. Passam-se algumas pontes sobre riachos e córregos e estradas cortando pueblos. Neste trajeto, percebi que o encaixe da presilha de um dos alforjes está gasto (com 3 dias apenas!) e, com isso e a trepidação da estrada, o alforje caiu 4 vezes. Num momento, cruzamos com um peregrino de camisa vermelha, mochila pequena e passos firmes. Cumprimentamos, mas ele parecia ser de poucas palavras. Falei com Claudio que o sujeito era muito mal humorado. Fiz um julgamento da pessoa em apenas um olhar. Começam as topadas do Caminho que nos ajudam a viver.

No pueblo seguinte, havia uma fonte na saída. Paramos para encher as garrafas e enxugar o suor. Estavam na fonte, Javier, o suposto mal humorado, e Marcos, figura cativante. Javier não era mal humorado, pelo contrário: muito simpático e atencioso, nos deu dicas do Caminho - era sua segunda vez. A primeira foi em 2010, no ano jacobeo (também chamado de ano santo compostelano, quando o dia de São Tiago cai em um domingo).

Voltemos aos alforjes. Na última vez que caiu, parei para prender. Tive que abrir o fecho e dar um jeito com chave philips. Estava terminando de arrumar a carga e chega Javier com meu casaco na mão. Agradeci e fiquei ali parado no meio do bosque pensando em como julgo e falo demais. Julguei um homem que nunca tinha visto logo de primeira e, graças a ele, não fiquei sem casaco, podendo passar frio pelo resto do dia. O Caminho conversa com a gente o tempo todo. Às vezes dá uns cutucões de leve, noutras, dizem ser um esporro daqueles. Por enquanto só tive o cutucão de leve.

Marcos: 67 anos, espanhol, mochila grande, 14ª vez fazendo o Caminho. Isso, 14ª vez. Começou em 99, quando fez 2 vezes. Caminha cerca de 40 km por dia (mais do que temos feito de bicicleta e mais do que a média geral). Pessoa cativante, sempre sorrindo, fala rápido e anda mais rápido. Faz o Caminho em 23 dias. Encontramos com ele mais duas vezes e com Javier uma vez, disse que perdeu Marcos de vista. Agora sempre brincamos perguntando onde estará Marcos. A resposta sempre é umas 10 cidades à frente ou já em Santiago. Quando perguntamos se ele não escreveu um livro, disse que o seu livro esta dentro do peito e que é só abri- lo para ler quando quiser.

Chegamos a Larrasoaña. A cidade é minúscula, mas com todo aquele ar medieval. Queríamos um café. Um senhor indicou a casa da Dona Elita. É um misto de ateliê e mercadinho, mas impecável. Há uns anos, tive um sonho. Nele, estava com Claudio fazendo o Caminho e, em determinado lugar, eu pagava por algo. Depois de uns minutos de conversa, peguei umas notas no bolso e perguntei à Dona Elita quanto era. Déjavu! Tirei a nota de 5 euros sabendo que seriam 4,50. Ela disse: "quatro con cincoenta". Comecei a rir por dentro. Já aconteceu outras vezes. Mas nessa foi tudo muito bem nítido.

Pamplona
Depois de mais uns quilômetros, Pamplona. Que cidade! É a cidade da festa de San Fermin, a famosa corrida dos touros. Mas Pamplona será o próximo post. São 4h10 da madrugada e o sono se foi há horas. Cabeça fervilhando de pensamentos e a lembrança do pesadelo que tive com uma prisão medieval.

Esse tal de Caminho é de pirar.

Para quem tem preguiça de ler e quer curtir um blog como revista Caras, estou postando fotos aos poucos em http://picasaweb.google.com/marciolauriano

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