27.8.12

Diário do Caminho de Santiago 2011 - 2


Continuando com o dário do Caminho, o primeiro dia.
San Jean Pied de Port a Zubiri - 24 de março

Sou um cara teimoso. E me considero forte. E insistente. Às vezes me dou mal por conta disso. Mas em outras me supero justamente por ser teimoso, insistente e por saber usar a força e o vigor que a natureza me deu.

9 horas, 60 km e muitas subidas no primeiro dia. Definitivamente, o Caminho é algo difícil. Saímos de SJPP às 9 horas, depois de uma estranha noite de sono na casa de Mme. Adina. É uma senhora que mora ao lado dos Les Amis du Chemin de Saint-Jacques Pyrénés-Atlantiques. Mme. Adina recebe peregrinos em sua casa com vários quartos confortáveis e simples, serve um café da manhã gostoso e é uma pessoa alegre e divertida. Na despedida, com o jeito brasileiro, tiramos fotos com ela, beijamos e abraçamos e isso a fez chorar, algo incomum diante da frieza característica do restante do mundo que por ali passa.

Erramos a saída da cidade. Coisa comum no Caminho. Já descobri que mapas e guias por aqui são confusos. A primeira etapa marca 28 km até Roncesvales ou Roncesvaux ou outro nome em basco que não me lembro. Esta etapa serpenteia entre França e Espanha e pelos limites invisíveis do País Basco. As placas estão em três idiomas e é algo bonito e estranho de se ver. De vez em quando surge uma placa pixada com um "Independentzia".

As bikes B'Twin Hoptown se comportaram muito bem, mesmo sendo empurradas na maior parte do tempo. Não pesei meu material, mas devo ter de 10 a 12kg de carga, que vou diminuir mandando umas coisas pro Brasil. Para Roncesvales, decidimos ir pela carretera, pois o Caminho da via napoleônica tem muito cascalho, subidas íngremes em terra e, ao avistarmos o monte de Ibañeta, víamos neve no topo. Passamos por pequenas cidades agradáveis, com arquitetura medieval e uma beleza indescritível. E eu descobri que deixei o carregador da câmera no Brasil. Ou seja, estou privado de fotos. Chegando a Pamplona, vou comprar outra.

O monte de Ibañeta - Puerto de Ibañeta
Chegando em Valcarlos, estamos a 12 km de Roncesvalles. Ótimo. O problema é que há uma "parede" de 12 km com desnível de quase 1200 m entre uma cidade outra. Foram boas horas empurrando e poucas pedalando. O topo do monte possui uma igreja com pequeno cemitério e uma pedra com altar e inscrições que não pude entender. E uma outra inscrição com os anos 693-1967. Algo emocionante. Ajoelhei e me prostrei nesse altar. Não sei por quê, se pelo cansaço, se pelo frio, o vento e a neve ou por me sentir amparado depois de tanto sofrimento, ali no meio do nada, chorei, sem pensar em nada. Apenas me prostei e deixei acontecer. É algo que, como num transe místico, só sabe o que é quem viveu.

Dali para Roncesvales dá 1,5 km de pura descida. A bike vai a quase 50 por hora. Não a deixei desenvolver mais pois os aros 20, pneus finos e 10 kg de carga deixam a menina Emmanuelle bem instável. E o vento corta a boca. É, o nome da minha francesinha rouge é Emmanuelle. Olha uma foto dela, sofrendo comigo nos Pirineus espanhois:

Subida dos Pirineus, já na Espanha

Em Roncesvalles, fizemos um lanche em um pequeno restaurante de um hotel que mais parecia um castelo medieval. O restaurante estava com lareira acesa, farta porção de presunto serrano, queijo curado e vinho tinto. Claudio queria parar e dormir por ali mesmo. Eu queria continuar, pois ainda eram 4 da tarde e teríamos muita luz do dia. A temperatura estava em torno dos 5 graus lá fora e eu estava gostando do papo que começava a surgir com a loirinha que nos servia. Mas saímos para seguir viagem.

Havia uma mesa com 6 pessoas na faixa dos 60 anos. Um dos homens saiu e veio falar conosco. Era um senhor francês, um pouco mais velho que os outros. Se apresentou e quando dissemos estar fazendo o Caminho e que éramos do Brasil, o homem ficou todo emocionado, nos abraçou e queria tirar fotos. Ele não se expressava muito bem em inglês e nem eu em francês. Mas, entre os humanos existe uma linguagem sem palavras que diz mais pelos olhos, sorrisos e toques do que pelo falar. Ele disse que sempre sonhou em fazer o Caminho, mas que a vida sempre o preteriu. Para ele era emocionante estar diante de pessoas que atravessaram um oceano e passavam dificuldades para realizarem um sonho.

Depois de abraços, apertos de mãos e os olhos úmidos do senhor de quem não me lembro o nome, seguimos até Zubiri, quase 40km distante dali. Começou o Caminho. O meu, em forma de preparo físico e paciência, e o do Claudio em forma de impaciência e superação. O frio e as subidas intermináveis é outra história. Chegando a Zubiri, o Caminho corta a Transpirenaica, que atravessa os Pirineus desde o Atlântico até o Mediterrâneo, e uma das rotas do Tour de France. Vários ciclistas paramentados passam a mais de 30 por hora, treinando por ali, no final da tarde. Zubiri nos aguardava com neblina, frio, um ótimo jantar, hotel aconchegante e muita dor nas pernas no dia seguinte.

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