30.8.12

Diário do Caminho de Santiago 2011 - 5


Puente la Reina a Logroño - 27 e 28 de março

Jef com sua casa ambulante
Ficamos em Puente la Reina praticamente 2 dias. No domingo, depois de visitar as igrejas do Crucifixo e de Santiago e a Ponte Medieval do século XI, encontramos Jef, um holandês que vinha andando puxando um carrinho com suas coisas desde a Holanda. Saiu de lá em fevereiro, passou pela Bélgica, França e entrou no Caminho. 61 anos, bem humorado, com filhos, netos e cachorros. Disse estar com saudades deles. Tiramos uma foto. Quem me conhece bem sabe que já falei sobre a ideia de ir da Holanda para Portugal a pé. E olha o que vejo no Caminho.

O hotel tinha um restaurante na parte de trás, bem grande, com um barril gigante de onde saía vinho em torneiras. A comida era excelente. Então descobrimos que a cozinheira era baiana. E mais gente era do Brasil no hotel. Perguntei como foram parar lá e a resposta sempre é "a gente foi ficando, né..." O bom disso foi descobrir feijão no restaurante. A menina preparou um pratão de alubia roja, um tipo de feijão vermelho, e eu caí dentro com um pouco de pimenta e farinha. Podem roubar a roda da bike, parar de fazer pão ou acabar com o mundo, mas deixe o feijão bem cozido, com caldo grosso pra mim. É só o que peço.

O domingo foi modorrento, esperando a segunda para agir. Saí de Puente 9 da manhã. Parei para comprar ferramentas e frutas, saindo mesmo 9 e meia. O tempo estava nublado e choveu muito de noite. Mas a natureza é boa e peguei um pouco de sol até aqui. Foi eu chegar e choveu. Fiz o trajeto sozinho. Claudio resolveu ir para Logroño de ônibus para consertar a bike. Como eu disse que só ando motorizado no Caminho se for de ambulância ou carro funerário, então encarei os 75km só.

O guia de Juan Menéndez Granados sugere que esta é uma etapa de reflexão. A paisagem vai mudando e há muitos momentos sem praticamente nada, só campos e vinhedos. E os pensamentos, que ainda não se acalmaram. Entrei em La Rioja. Passei por algumas cidades interessantes. Parei em Estella para trocar os pneus da Emmanuelle. Comprei 2 de cross, com cravos, mas um foi mal colocado, criou um calombo e fui de Estella a Logroño com a bike quicando. Como andei praticamente só pela carretera, ficou pesado pedalar. Não parece, mas a diferença de um pneu de estrada mais fino para um de trilha pesa bastante.

Ponte de Peregrinos - séc. XI
Depois de muito vento frio, vento contra e esforço, cheguei a Logroño. Cansativo, mas gratificante.
Logroño é uma cidade bem receptiva. O dono da loja de bicicleta trocou um pneu pra mim de graça e ainda ganhei uma bala. Pedi informação do hotel na rua e dois homens arrumaram um mapa na polícia, me explicaram o trajeto e um deles marcou tudo com caneta marca-texto. E ganhei uma xérox de um guia para bicicleta. Um senhor que me viu na rua arrumando os alforjes, perto da oficina de bicicletas, chamou pra conversar e pediu para esperar ele ir em casa buscar algo. Eu estava sentado num banco da praça em frente ao prédio onde vive. Ele disse ter feito o Caminho 5 vezes de bike e ficou admirado em ver uma dobrável por aqui. Sugeriu algo que eu pensei muito hoje: trocar por uma MB. Hoje senti saudades da minha aro 700 de Balneário. O homem subiu, veio com a cópia do guia e se despediu emocionado, com olhos marejados.

Foi bem diferente o tratamento recebido em La Rioja do que vi na Navarra.

Praça de Peregrinos no Centro Antigo de Logroño
Amanhã seguimos para Belorado, a Etapa 3 do guia de Granados, com 75 km. Mais umas 6 ou 7 horas de sofrimento e pensamentos. Que Santo Domingo de la Calzada me dê forças. 

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