| La Rioja em azulejos |
Na vida, muitas vezes, para que possamos andar e progredir, temos que nos livrar de algumas coisas, deixar de lado outras situações ou pessoas e seguirmos. Isso alivia a carga, nos dá velocidade e mais conforto. Aí vem o vigor e o progresso. Hoje se foi Emmanuelle, a pequena bike francesa. Depois de percorrer quase 200 km, Emanuelle ficou em Logroño, com Jose Luis.
A coisa aconteceu assim.
No 5º dia, fiz 75 km com ela. Cansativos. Um problema no
pneu me fez rodar 50 km com a bike quicando: pneu defeituoso e mal colocado, estourou em Logroño, a 200 m do hotel. Troquei. Além disso, o câmbio traseiro
travou duas vezes, bloqueando os pedais. Tive que parar e mexer. Cheguei muito
cansado, com os dedos machucados e mal humorado. Mal pude jantar e queria só
dormir. Acordei mais cansado, com pensamentos pessimistas, querendo desistir.
Então, resolvemos ir na loja de bicicletas onde Claudio trocou os pneus para
comprar outro banco, com molas, mais confortável. Fizemos sucesso entre os
clientes como os brasileiros loucos que cruzaram os Pirineus com uma pleable da
Decathlon. O povo daqui não gosta muito da loja e da marca B'Twin,
comercializada por ela. Até ganhei um abraço de um velocista que comprava peças
para sua bike. Disse que precisava abraçar un hombre de aventuras.
Voltemos umas horas no tempo. Quando subia sozinho,
empurrando a bike, um dos montes do Caminho, pensei em abandonar a bike (a ideia inicial era de trazer as bikes para o Brasil). Faria
o Caminho até o final e deixaria numa loja em Santiago por qualquer euro. Ela
estava empacando minha vida. Ou iria até Fisterra, faria o ritual de renovação
e deixaria a bike por lá, para algum peregino que quisesse fazer o
"Caminho da Bruxa" (para explicações, consultem o são gugou). Estava
decidido. Em Logroño, não falei nada com Claudio. Apenas fomos na loja.
Depois desse auê todo de brasileiros loucos e eu ter
perguntado à dona sobre umas "aro 700", Claudio se empolgou e me
disse que devíamos vender as bikes e comprar umas maiores. O sol voltou a
brilhar pra mim! Sou fã das 700c com pneus híbridos. A loja se tornou um mercado
de Istambul e fizemos negócio com Jose Luis. Ele foi em casa buscar dinheiro e
o carro, voltou e levou as duas B'Twin, a contra-gosto da mulher e filhos. De pronto,
pegamos duas 700c de alumínio, com Shimano, suspensão dianteira e de modelo
simples, mas bem funcionais. Ganhamos, com a compra, bagageiros,
porta-caramanholas, bomba e bolsa de selim com kit câmara/bico e uns descontos
em outras bugigangas da casa. No caminho para Navarretes, escolhi um nome para
a nova bike e ela será a Amélia, que é a bicicleta de verdade (olha ela ali).
Resultado: nossa velocidade média estava em 11 km/h e passou
para pouco mais de 15 hoje, dia de 55 km, com um desnível para cima (foi praticamente subidas
o tempo todo) e vento contra. Além de que pude descer alguns pontos de terra a
quase 30 por hora e a quase 50 no asfalto (mesmo tendo que descer pedalando,
por conta do vento). Chegamos a Santo Domingo de la Calzada por volta de 6 e
meia com a temperatura em torno dos 8 graus e baixando. E com uma chuva vindo
em nossa direção, poucos quilômetros à frente. A intenção era ir até Belorado
(mais 25), mas diante do quadro, um banho quente, o "menu" anunciado
na porta do hotel (jantar espetacular) e calefação, qualquer ser humano pensa
duas vezes e sossega.
O tempo realmente estava feio e o frio vinha com força. No final das contas, encontramos o hotel "El Correjidor" e ali ficamos. Havia um outro, um castelo, com móveis e atendentes medievais, muito caro. Não merecia nosso dinheiro. E por conta do mal tempo, do cansaço e das emoções do dia, não visitamos a Catedral de Santo Domingo para ver o galo da lenda.
Olha o que nos espera amanhã, no trajeto para Burgos.
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