Nestes próximos posts, vou transcrever os textos que escrevi no ano passado, enquanto fazia o Caminho de Santiago Francês (saindo de San Jean Pied-Port).
Fiz o Caminho na companhia do meu amigo Cláudio, que mora em Fort Launderdale, FL e que saiu dos EUA para pedalar comigo pela Espanha. Para resumir, nos encontramos em Paris, onde compramos equipamentos e rumamos para a base dos Pirineus, lado francês. Compramos duas bikes dobráveis, da BTwin, aro 20. Eu queria pedalar numa dessas em estrada. E olha que a coisa aguenta! Quem não aguenta é o ciclista, pois ela não desenvolve.
Começamos o pedal dia 24 de março de 2011. Não chegamos a Santiago juntos, pois cada um seguiu seu ritmo, respeitando seu próprio Caminho. Depois nos encontramos no Porto e seguimos por Lisboa e Madri para o restante das férias.
Os textos estavam em outro blog que acabou e agora estarão aqui para ajudar quem precise. Vou procurar transcrever o original que, muitas vezes, foi escrito no meio do Caminho, sentado em um café, em uma sombra, ou embaixo dos cobertores em hotel. Talvez faça algumas adaptações, caso lembre de detalhes importantes. Mas é praticamente o que vivi, recheado da emoção que todo o Caminho traz. Boa leitura!
Paris - Saint-Jean-Pied-Port - 23/3
Cheguei em Saint-Jean-Pied-Port!
Saindo de Paris, pegamos o
TGV na Gare Montparnasse, chegando em Biarritz às 17h30. Depois de descermos em
Biarritz, balneário à beira do Atlântico, descobrimos que a conexão para SJPP
se dá em Bayone, uma estação antes. Por sorte, sairia um trem voltando para
Bayone com conexão para SJPP em 15 minutos. Bilhetes comprados, conseguimos
pegar o trem. Vagão feio, com a cara do Japeri antes da Supervia (quem mora no
Rio e anda ou andou de trem sabe do que eu falo). Conhecemos uma baiana com seu
filho no vagão. Os dois moram em Bayone.
*Fica a dica: para quem parte de Paris, de Bourdeaux ou de
Toulose, a conexão para SJPP é em Bayonne.
Depois, troca-se de trem e pega-se um da empresa Aquitaine
(nome da região medieval do país). Este trem era pequeno, estilo VLT, com espaço para
bicicletas e muito confortável. Entre Bayonne e SJPP há umas 7 cidades e o trem
para em todas. O bilhete custa 8€40 e a viagem leva cerca de 1h30, bem devagar,
para ir se acostumando com o ritmo do Caminho. É interessante ver a estrada
secundária em excelente estado margeando a linha férrea e, do outro lado, o rio
com suas corredeiras e sua água esverdeada. Mais interessantes são as placas em
lojas, nas estações ou nomes de ruas com o texto em francês e basco. Estamos no
País Basco!
![]() |
| Rue de la Citadelle |
Precisávamos de um hotel com lugar para guardar as
bikes, ainda dobradas nas bolsas. Resolvemos montar as bikes para empurrarmos
ladeira acima (Saint-Jean tem ladeiras bem íngremes). Então eis que surge um
senhor bem branco, um pouco gordo, com uma boina basca e um sorriso. Ficou olhando
aquelas bicicletas de rodas pequenas saírem de dentro de umas bolsas e tomarem
forma. Ficou curioso. Perguntou de onde éramos. Respondi: Brèsil. O homem ficou
maravilhado. Procurava ajudar de todo o jeito. Tentava falar inglês, disse ser
professor aposentado e que um dia estudou espanhol, mas esqueceu tudo.
Ofereceu-se para nos mostrar hotéis ou locais para ficar. Claudio, meio
desconfiado, pensou que ele poderia nos enganar. Mas eu deixei minha intuição
comandar e seguimos o homem de cabelos tão brancos quanto a sua camisa. Dava
pra perceber no falar e no sorriso de monsieur Lambert que ele queria dar o
melhor de sua cidade aos forasteiros brasucas com suas bikes dobráveis. Nos
levou até a antiga casa de Mme. Debrill, hoje ponto de partida de peregrinos.
Nos entregou às três senhoras que nos deram tudo o que precisávamos no momento:
a credencial do peregrino, mapas, pontos de parada, mapas de altimetria,
relação de lojas e oficinas de bike em todo o Caminho e uma vieira, símbolo de
São Tiago e da peregrinação ao sagrado túmulo do apóstolo. E ainda nos
indicaram a casa ao lado, de Mme. Adina (uma senhora muito divertida), quarto
individual com tudo e café da manhã a 20€.
Levou alguns minutos para Claudio se dar conta do que venho
dizendo desde domingo: "deixa que o Apóstolo resolve". O Caminho te
dá tudo o que precisa. É só saber pedir e esperar. É algo mágico. Há algumas
horas estava descendo na estação, num frio de 11 graus, montando uma bicicleta
no meio da rua. Agora estou deitado num cama quente, de frente para esta bela
cidade medieval, escrevendo este texto e pensando em como tudo é tão
espetacular por aqui.

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