24.8.12

Diário do Caminho de Santiago 2011 - 1


Nestes próximos posts, vou transcrever os textos que escrevi no ano passado, enquanto fazia o Caminho de Santiago Francês (saindo de San Jean Pied-Port).

Fiz o Caminho na companhia do meu amigo Cláudio, que mora em Fort Launderdale, FL e que saiu dos EUA para pedalar comigo pela Espanha. Para resumir, nos encontramos em Paris, onde compramos equipamentos e rumamos para a base dos Pirineus, lado francês. Compramos duas bikes dobráveis, da BTwin, aro 20. Eu queria pedalar numa dessas em estrada. E olha que a coisa aguenta! Quem não aguenta é o ciclista, pois ela não desenvolve. 

Começamos o pedal dia 24 de março de 2011. Não chegamos a Santiago juntos, pois cada um seguiu seu ritmo, respeitando seu próprio Caminho. Depois nos encontramos no Porto e seguimos por Lisboa e Madri para o restante das férias.

Os textos estavam em outro blog que acabou e agora estarão aqui para ajudar quem precise. Vou procurar transcrever o original que, muitas vezes, foi escrito no meio do Caminho, sentado em um café, em uma sombra, ou embaixo dos cobertores em hotel. Talvez faça algumas adaptações, caso lembre de detalhes importantes. Mas é praticamente o que vivi, recheado da emoção que todo o Caminho traz. Boa leitura!


Paris - Saint-Jean-Pied-Port - 23/3

Cheguei em Saint-Jean-Pied-Port! 

Saindo de Paris, pegamos o TGV na Gare Montparnasse, chegando em Biarritz às 17h30. Depois de descermos em Biarritz, balneário à beira do Atlântico, descobrimos que a conexão para SJPP se dá em Bayone, uma estação antes. Por sorte, sairia um trem voltando para Bayone com conexão para SJPP em 15 minutos. Bilhetes comprados, conseguimos pegar o trem. Vagão feio, com a cara do Japeri antes da Supervia (quem mora no Rio e anda ou andou de trem sabe do que eu falo). Conhecemos uma baiana com seu filho no vagão. Os dois moram em Bayone.

*Fica a dica: para quem parte de Paris, de Bourdeaux ou de Toulose, a conexão para SJPP é em Bayonne.

Depois, troca-se de trem e pega-se um da empresa Aquitaine (nome da região medieval do país). Este trem era pequeno, estilo VLT, com espaço para bicicletas e muito confortável. Entre Bayonne e SJPP há umas 7 cidades e o trem para em todas. O bilhete custa 8€40 e a viagem leva cerca de 1h30, bem devagar, para ir se acostumando com o ritmo do Caminho. É interessante ver a estrada secundária em excelente estado margeando a linha férrea e, do outro lado, o rio com suas corredeiras e sua água esverdeada. Mais interessantes são as placas em lojas, nas estações ou nomes de ruas com o texto em francês e basco. Estamos no País Basco!

Rue de la Citadelle
O trem chega a SJPP. A estação é uma bela casinha com um pátio lateral. A noite escureceu o dia e uma placa, abaixo do poste mostra um cartaz com um pouco de história do Chemin de Saint-Jacques de Compostele, e outro cartaz traz o mapa da cidade. 

Precisávamos de um hotel com lugar para guardar as bikes, ainda dobradas nas bolsas. Resolvemos montar as bikes para empurrarmos ladeira acima (Saint-Jean tem ladeiras bem íngremes). Então eis que surge um senhor bem branco, um pouco gordo, com uma boina basca e um sorriso. Ficou olhando aquelas bicicletas de rodas pequenas saírem de dentro de umas bolsas e tomarem forma. Ficou curioso. Perguntou de onde éramos. Respondi: Brèsil. O homem ficou maravilhado. Procurava ajudar de todo o jeito. Tentava falar inglês, disse ser professor aposentado e que um dia estudou espanhol, mas esqueceu tudo. Ofereceu-se para nos mostrar hotéis ou locais para ficar. Claudio, meio desconfiado, pensou que ele poderia nos enganar. Mas eu deixei minha intuição comandar e seguimos o homem de cabelos tão brancos quanto a sua camisa. Dava pra perceber no falar e no sorriso de monsieur Lambert que ele queria dar o melhor de sua cidade aos forasteiros brasucas com suas bikes dobráveis. Nos levou até a antiga casa de Mme. Debrill, hoje ponto de partida de peregrinos. Nos entregou às três senhoras que nos deram tudo o que precisávamos no momento: a credencial do peregrino, mapas, pontos de parada, mapas de altimetria, relação de lojas e oficinas de bike em todo o Caminho e uma vieira, símbolo de São Tiago e da peregrinação ao sagrado túmulo do apóstolo. E ainda nos indicaram a casa ao lado, de Mme. Adina (uma senhora muito divertida), quarto individual com tudo e café da manhã a 20€.

Levou alguns minutos para Claudio se dar conta do que venho dizendo desde domingo: "deixa que o Apóstolo resolve". O Caminho te dá tudo o que precisa. É só saber pedir e esperar. É algo mágico. Há algumas horas estava descendo na estação, num frio de 11 graus, montando uma bicicleta no meio da rua. Agora estou deitado num cama quente, de frente para esta bela cidade medieval, escrevendo este texto e pensando em como tudo é tão espetacular por aqui.

Já li em alguns guias de peregrinos que o melhor é sair de Roncesvales (Roncesvaux), na Espanha. Mas Saint-Jean-Pied-Port é algo indescritível. Só vindo para ver e sentir. E se encontrar um anjo de nome Jean Lambert, com hálito de conhaque, falando inglês misturado com francês e basco, sorria, você está no Caminho Sagrado!

Sem comentários:

Enviar um comentário