4.10.12

Vale Europeu - 2° dia: Pomerode - Indaial - Rodeio

Esta foto ilustra bem como foi o dia de hoje:


O dia começou cedo, pouco antes das 7. O café da manhã da Pousada Max estava muito bom. Com a chuva fraca lá fora, montamos as bikes e seguimos pela ciclovia até o ponto de início do 2° dia, a 3,5 km do Centro de Pomerode.

Pomerode é uma cidade interessante. Praticamente todos são descendentes de alemães. Os cartazes da política mostram os nomes complexos e os rostos bem característicos. Aí vem a ideia de que todos são fechados e andam de cara amarrada. Pelo contrário: em todos os estabelecimentos onde estivemos, em todos os pedidos de informação e em qualquer contato com locais, fomos muito bem tratados, com muita educação, atenção e sorrisos. Não sei se isso se deve ao efeito bicicleta. Mas causou uma ótima impressão. Pouco antes de entrar na "estrada de chão", parei em uma pequena mercearia para comprar água e fui muito bem recebido pela senhora que atendia. Quando saí, comentei com o Ari que é algo bem diferente do modo como sou tratado nos grandes centros, repletos de "cultura", "gente civilizada" e com "alto nível de educação". Na verdade, todos vivem morrendo de medo de tudo e acabam se tornando pessoas secas, amargas e desconfiadas. Fazer o quê, né?

Subida para o Wunderwald
As paisagens de hoje foram muito mais belas, o trajeto muito mais agradável e o contato com as pessoas mais interessante. Saindo de Pomerode rumo Indaial (o segundo dia do Circuito), sobe-se uma serra pelo bairro de Wunderwald. As paisagens são como a foto ao lado. Em muitos lugares dá vontade de parar e ficar por ali. Comentei com Ari que a câmera não consegue captar o que vimos. Além dos sons, dos cheiros, das texturas, umidade e luz, só mesmo o corpo humano consegue sentir o local. É algo quase inexplicável e bem pessoal. Em determinado momento, paramos para comer uns cereais e comentei o que deveria significar wunderwald em alemão. Imaginei ser algo como Bela Vista ou algo semelhante. Há pouco descobri tratar-se de "bela floresta". Em uma parte da subida, mais para o final, paramos para identificar um som diferente. Ari falou que eram bugios. Minutos depois sobe um colono com suas enxadas e facão e resolvi perguntar. Ele confirmou: bugios. Os gritos dos bugios mostram ao grupo quem é o líder. Brinquei com Ar que o bugio gritão era o macho alfa do grupo. Daí fomos conversando e discorrendo sobre a necessidade que os homens têm em explorar, em descobrir e "caçar". Isto, em parte, diferencia os alfa dos beta, os que procuram algo, dos habitantes de sofá e programas de tv. No final das contas, senti que eu queria estar exatamente ali, com chuva, frio, suado, enlameado e feliz.

Pouco depois paramos em uma cancha de bocha que fica no meio da serra. Conhecemos Sigfried, dono da cancha. Não muito diferente de outros, mal fala português. Conversamos um pouco e ele falou da rotina da cancha, dos campeonatos e dos momentos de diversão que os sócios têm, a grande maioria colonos e moradores do alto. Fiquei imaginando aquela cancha numa quinta ou sexta à noite, repleta de alemães bebendo cerveja, rindo alto e conversando em sua língua materna. Algo foi interessante de observar. Perguntei a Sigfried se os sócios levavam família nos encontros. Ele disse que quase não ia gente além dos sócios jogadores. Pouco antes, mais para baixo, nos deparamos com cena interessante. Passamos por uma casa de madeira bem simples. Um cachorro atravessou a estrada latindo e foi para dentro do terreno. Uns segundos depois, descia uma senhora com um fardo de folhas de bananeira dos ombros. A senhora estava com roupas bem sujas e rotas, um cigarro de palha no dedo e mal dava pra ver seu rosto que se escondia dentro das folhas. Subimos mais um pouco e ela voltava, já sem o fardo. Trazia na mão uma foice e fumava seu cigarro de palha. Ela ia passando e eu fiquei olhando para o seu rosto bem castigado, suas roupas rotas de trabalho e o lenço na cabeça. Ela manteve o olhar para o chão até que eu falei "bom dia". Ela respondeu bem baixinho, abaixou a cabeça e continuou. Pensei no motivo daquela discrição toda. Comentei com Ari e ele falou o mesmo que pensei: pelo fato de ser mulher, em sua cultura, não deve se dirigir a um homem. Caso eu não tivesse falado nada, ela passaria sem olhar para frente ou falar qualquer coisa. Sigfried confirmou isso, mesmo de maneira velada, em nossa conversa. A mulher tem uma posição diferente da nossa ideia ocidental contemporânea. Bebemos uma coca-cola que achei por bem comprar para ajudar o negócio do alemão tão atencioso e prestativo. Nos despedimos, desejamos boa sorte no campeonato que se desenrolava (sua cancha estava em primeiro) e seguimos na chuva.

Chegando em Indaial
Depois da descida alucinante (estreei o suporte de câmera que comprei para o guidão e fiz um vídeo que publicarei logo) a mais de 30 por hora, estamos chegando a Indaial, pelo bairro da Mulde. Do outro lado do rio já se pode ver a torre da igreja. Indaial seria o final do segundo dia do Circuito. Porém combinamos de emendar o segundo dia com o terceito, fazendo Indaial a Rodeio na parte da tarde. Como era pouco mais de 13 horas, daria para fazer um lanche, descansar um pouco e seguir viagem. O trecho do terceiro dia é curto e praticamente plano, 26 km. Paramos em uma lanchonete perto da ponte, comemos um ótimo sanduíche com suco de morango, depois café, conversamos um pouco e seguimos viagem. Ah, nem preciso dizer que o atendimento dado pelo dono do bar foi melhor do que já tive em muitos restaurantes onde deixei algumas notas de 50 reais por serviço mediano, senão ruim.

Ponte Pêncil
Começou o terceiro dia, só que no segundo. É um trecho fácil, mas é chato. Saindo de Indaial há uma avenida de pouco mais de 8 km. Ela começa com calçamento de paralelepípedo - horrível para pedalar -  vira terra, depois barro e muita lama por conta de uma obra, depois asfalto e aí fica mais fácil. Poucos quilômetros depois estamos na Ponte Pêncil. Ela não faz parte do trajeto, mas merece visita. Pedala-se mais 700 metros em uma estrada de terra para atravessá-la e daí é só voltar. A sensação de atravessar uma ponte sustentada por cabos de aço e feitas de tiras de madeira que se movimentam quando se passa por elas é algo meio assustador. Achei que o meu pânico em pontes fosse me impedir, mas passei tranquilamente. Depois dessa ponte, a pouco mais de um quilômetro, há uma ponte coberta. Europeus usam este tipo de cobertura em pontes de madeira (um simples telhado de metal) para conservar o emadeiramento do tempo. A partir daí, a estrada segue por um trecho longo, margeando o rio até cruzar com a rodovia. Dali atravessamos e vamos para Ascurra, cidade interessante e intrigante por um detalhe que presenciei.

Santo Ambrósio, Ascurra
Em 2011, quando estive em Castrojeriz, no Caminho de Santiago, me deparei com uma igreja (San Juan), que tinha em um dos seus vitrôs um pentagrama invertido (esta mesma igreja tem, em uma parede, um relevo de um crânio com dois ossos cruzados, como das bandeiras de pirata). Aquilo me intrigou, pois nunca havia visto este símbolo, o pentagrama invertido, atribuído aos satanistas, em um templo católico. Eu quis visitar a igreja, mas não pude. Tentei entrar, mas não pude. Passei um tempo tentando encontrar o significado, mas não achei nada. Então, hoje, pude parar em frente à igreja de Santo Ambrósio, na entrada de Ascurra e observar o templo imenso que se vê de muito longe, do outro lado do rio, do outro lado da rodovia. Olhei com mais atenção e acabei achando o pentagrama. Continuei o pedal querendo ir até a igreja e ver o que tinha ali. A curiosidade estava tomando conta de mim. Mas acabei seguindo, pois Ari estava mais à frente esperando. Como em Castrojeriz, não pude ver o que havia por dentro daquele templo. Mais detalhes sobre Castrojeriz estão no post do Diário do Caminho de Santiago.
O pentagrama

Subindo a avenida, pedalava pensando no pentagrama e passei por um ponto de ônibus. Ali estava sentada uma mulher. E posso dizer que foi uma das mulheres mais lindas que vi na vida. Olhamos no olho, ela desviou o olhar e eu segui pensando no que havia naquela cidade. Ato falho ou não, segui por uma rua errando o caminho. Só me dei conta quando ouvi Ari gritar. Voltei e seguimos pelos 6 km restantes até Rodeio.
Rodeio é uma cidade interessante. Pequena, ao pé do morro do Ipiranga, início do trajeto de amanhã, 4° dia do circuito (terceiro nosso). Foi povoada por tiroleses e percebe-se isso nas ruas, nos restaurantes e nas pessoas. O ponto final do trajeto é em frente à prefeitura. Paramos ali, sentamos no banco na calçada, bebemos água e descansamos pensando no que fazer. Então, um homem nos olha e pergunta se precisamos de carimbo no passaporte do Circuito. Digo que sim e ele pede para esperar. João voltou, abriu o prédio ao lado da prefeitura e nos chamou para ir. Eu fui e Ari ficou com as bikes. João carimbou e falou que se sentia grato por ajudar quem estava precisando. Deu dica de hospedagem e onde comer. Mais uma vez, fui tratado muito bem por alguém que nunca me viu e que desviou de seu caminho simplesmente para ajudar. Acabamos parando no Cama & Café Stolf. Quem nos recebeu foi o Sr. Dante e sua esposa Irene. Tratamento melhor não há! S. Dante disponibilizou logo água para lavarmos as bikes antes que o barro secasse e travasse tudo. A hospedagem é sua própria casa e o quarto fica no segundo andar. Tem um ótimo preço e atenção especial dos donos. Eu sugiro fazer reserva antes de vir. Nem tanto por conta de vaga, mas sim porque eles precisam se preparar para receber gente. Felizmente havia vaga e muito carinho.

Há pouco, Ari falou algo que eu já havia pensado muito rapidamente enquanto pedalava: parece que estamos há uma semana aqui, apesar de serem só dois dias. A relatividade do tempo na cabeça de uma pessoa, algo a se pensar. Amanhã tem mais. A mente começa a aquieta-se e o que vem de dentro passa a me falar com mais clareza. Ou eu estou ouvindo o que não consigo ouvir por conta da poluição que o mundo nos força a digerir diariamente.


1 comentário:

  1. que lugar delícia.
    estou indo aí contigo, nesse camelo (rs)...
    meu beijo.

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